Vaidade e orgulho: vícios da alma humana!

Não há como refletir sobre a alma e mesmo sobre a personalidade humana sem tecer considerações acerca de dois de seus maiores vícios: a vaidade e o orgulho. Trata-se de um binômio que não perde em nada para os vícios químicos que fazem o físico padecer, mas, ao contrário destes, fulminam a essência do ser humano e determinam o fim do maior objetivo do homem ao longo da vida, qual seja, aprender sempre, de sorte a exterminar dia-a-dia, por meio do aprendizado diário, formado de derrotas e vitórias, a ignorância que nos compõe. 

Em seu livro “Sobre a vaidade”, Montaigne afirma “Seja o que for, artifício ou natureza, isso que nos imprime a condição de viver da comparação com outrem, faz-nos muito mais mal que bem. Privamo-nos daquilo que nos é útil para atender às aparências e à opinião dos outros. Não nos importa tanto saber o que é nosso ser em si e em efeito quanto saber o que é ele para o conhecimento público. As próprias riquezas do espírito e a sabedoria nos parecerão infrutíferas se só forem desfrutadas por nós, se não forem produzidas para a vista e aprovação alheia.” (MONTAIGNE, 1998, p. 19).

Observe-se que o filósofo do século XVI já fazia afirmações no sentido de que o vício da vaidade se manifesta através da imposição que nos fazemos em viver da comparação, distanciando-nos daquilo que nos é necessário e querido para aderir aos reclames da aparência, isto é, precisamos fazer coisas que não nos são úteis em virtude da importância que damos à imagem que os outros têm de nós, sem perceber que dessa forma obstamos o caminho que devemos traçar em prol de nossa felicidade. 

Esse comportamento que nos impomos de forma irrefletida, ou pior, pensando e crendo fazer a coisa certa, outorgando a outrem nossa liberdade, impede-nos de concretizar qualquer errante verdade que se oponha a tradições, conceitos e imagens. Somos reduzidos à categoria de ovelhas, seguindo os ditames de um pastor que se corporifica nas obrigações que unilateralmente assumimos perante terceiros. Deixamos muitas vezes de fazer o melhor de nós mesmos por estarmos restritos ao âmbito daquilo que outros querem que façamos, por nos limitarmos à medíocre manutenção de uma personagem que cultivamos ao longo de nossas vidas. 

Abrimos mão da coerência que devemos ter com nós mesmos, esquecendo que o acerto e o erro não são nada além dos resultados de nossas ações, as quais, desde que sinceras, servirão como lições de inegável valor. Ocorre, porém, que o aprendizado através de nossas experiências não pode se verificar nas hipóteses em que simplesmente ignoramos nossos fracassos ou, pior ainda, transformamos essas derrotas em vitórias num exercício quixotesco que só faz resplandecer nosso medo e nossa insegurança, corolários imediatos da vaidade e do orgulho. 

O homem que vive pautado na vaidade e no orgulho acaba por se mostrar inflexível, pois ambos os vícios impedem que reconheçamos nossos fracassos e nos impõe a dor da criação de um subsolo em nossas almas no qual guardamos esses fatos, trancafiando-os num porão que jamais possa ser devassado por terceiros. Esse subsolo foi muito bem tratado por Dostoiévski na obra “Memórias do subsolo”. Narrando a história de um homem que opta por ocultar boa parte de sua vida, a fim de se aparentar da melhor forma possível aos olhos dos outros, sem notar que, em verdade, não consegue defender a existência dessa personagem por longo período. 

A obra do autor russo demonstra quão ridícula é a atitude de seu protagonista, na medida em que vive a esconder sua indelével mediocridade. A menção ao subsolo é apropriada à caracterização de um ambiente inóspito em que nos escondemos de nós mesmos, obstando nosso progresso através da ocultação de fracassos, raiva, amargura que juntamos ao longo de nossas vidas. Essa atitude é muito presente para aqueles que temem serem classificados em categoria diferente da que contempla os “vitoriosos”. Olvidam-se que a vida nada mais é do que a soma de fracassos e vitórias e que a felicidade está exatamente na humildade de aprendermos com nossas perdas/derrotas. 

Por baixo de um homem que se afirma unicamente vitorioso existe um amplo e fétido porão em que restam escondidas as mais diversas derrotas (pessoais, profissionais etc.). Reputam-se líderes afastando o amargo de seus fracassos, sem perceber que em cada uma de suas palavras resplandecem os detalhes de seus infortúnios. Desconhecem a imagem digna de riso que criam e transmitem de si mesmos ao agir dessa forma. Ignoram a triste miséria que inunda seu discurso por meio da falta de compromisso com a franqueza e a sinceridade. Vaidosos e orgulhosos, teimam em negar a cada instante os momentos que estão no porão e pressionam o piso para resplandecer no assoalho da casa de suas almas. 

Esses homens que escondem dentro de si as amarguras de seus insucessos, geralmente lançam-se na vida com a pretensão de liderarem grupos. Assim se deram as maiores desgraças da humanidade. Hitler foi um dos maiores expoentes dessa espécie doentia de ser humano. Ceifado da felicidade, cheio de complexos e amarguras, apoiou-se na vaidade e no orgulho, escravizando intelectualmente fracos homens que serviram aos seus famigerados ideais. Stalin e tantos outros não foram diferentes. Muitos se regozijavam com a clemência de prisioneiros ou mesmo com cartas a eles dirigidas, pois assim insuflavam o ego que não poderia se manter afastado de bajulações repletas de hipocrisia. 

Tais “pseudo-líderes” são o exemplo daquilo que a vaidade e o orgulho podem causar no ser humano. Hitler, momentos antes de deixar a vida, instante em que os indivíduos bem resolvidos pretendem rever as grandes passagens de sua história, acabou ridicularizado por tudo que fez e, principalmente, pela atitude verdadeiramente descabida de não reconhecer que havia perdido a guerra, já que isso o colocaria afastado do inebriante aroma da vaidade e do orgulho. Orgulhosos e vaidosos não se permitem reconhecer o próprio erro, ao que continuam, insanos, em seus objetivos desde o início fadados ao fracasso, já que desprovidos de planejamento racional

A liderança, bem ao contrário do que esses homens pretenderam e do que tantos outros, noutras estruturas, pretendem, deve ser exercida através da comunicação. Mas comunicar-se para um líder não é a tarefa análoga a de um bom orador. Oratória é muito mais útil àqueles que pretendem seguir sozinhos! A arte da comunicação para verdadeiros líderes consubstancia-se no saber ouvir. Isto é um dos gestos mais nobres do ser humano. Ao lado dessa virtude, um líder deve se cercar de pessoas nas quais confie e pretenda um dia por elas se fazer representar.

 Um verdadeiro líder, valoriza as pessoas com as quais convive, reconhece méritos e divide fracassos e vitórias. É avesso à postura da liderança, a assunção individualizada das vitórias e a atribuição isolada (aos outros) das derrotas. Liderança é responsabilidade em qualquer hipótese, de maneira que homens providos de “memórias do subsolo” não poderão jamais liderar quem quer que seja, sobretudo em razão de a vaidade e o orgulho impedirem o desenvolvimento das capacidades necessárias à liderança, já que não estão bem consigo mesmos. 

O líder mantém sua consciência sem ter que ocultar seus infortúnios, mas também não deve viver a reclamar da vida mostrando-se uma pessoa amarga. Todos esses comportamentos impedem o exercício da motivação que deve ser inerente a qualquer um que pretenda liderar. As queixas e lamúrias não devem se manifestar no ambiente de grupo, até porque demonstram mais uma vez a vaidade e o orgulho. Explico: na sede de serem o centro das atenções, até mesmo as dificuldades (jamais os fracassos) desses homens do subsolo são colocados em cena. Se alguém se apresenta com um problema, logo vem o vaidoso/orgulhoso e tenta fazer com que uma de suas queixas supere a de seu interlocutor. Isso é liderança? Definitivamente não! 

O transcurso do tempo para os vaidosos e orgulhosos acaba por afastá-los cada vez mais da felicidade. Os anos os destituem da juventude, o que os motiva a contar cada passagem de suas vidas como um grande tema épico. Tudo ganha corpo, cor e tenta encobrir, uma vez mais, a latente tristeza que pulsa no porão de suas almas. O tempo faz com que se reafirme de forma intransigente os valores que lhes foram impostos na infância, sendo que em relação a muitos deles jamais estiveram de acordo, mas, ainda assim, pregaram aquilo que lhes foi ensinado, esquecendo-se do valor de buscar e afirmar a coerência consigo mesmos. 

Os projetos traçados por esses homens não são executados com amor, mas sim com orgulho e vaidade. Tais vícios acabam por eliminar as chances de sucesso, já que resta inviabilizada a possibilidade de repensarem suas atitudes, assumindo seus tropeços, afinal de contas são “VITORIOSOS”! Esses homens acabam abandonados pela maior parte de seus convivas, já que a vaidade e o orgulho os impede de falar de outra coisa que não seja de si mesmos. Não notam o outro, não se preocupam com o outro. Preocupam-se, isto sim, em sempre esperar respeito de pessoas que dificilmente respeitam no afã de seu orgulho. 

A vaidade e o orgulho são irmãs do individualismo e do egocentrismo. São esses os elementos que impedem a tolerância, a flexibilidade, o respeito. Fazem do homem um ditador que se vangloria da pseudo-democracia que atribui às discussões impositivas que mantém com aqueles que pensa liderar, sem notar que exerce o deprimente papel de um homem que teima em se fazer cego frente à realidade de uma vida com muito menos glória do que o desejado. 

É curioso como a vaidade e o orgulho impedem a assunção dos fracassos e a realização plena do ser humano. São esses vícios, como afirmado, que nos escravizam na tarefa de manter a personagem que criamos ao longo de nossa vida. O vaidoso e o orgulhoso temem transigir, pois reputam tal atitude digna de um “perdedor”, olvidando-se que é essa mesma atitude que os afasta de alguma felicidade. Muitos deles acabam reféns em suas próprias casas, descambando para vícios, até mesmo químicos, atrás dos quais procuram ocultar a triste insegurança que os penitencia dia após dia. 

O pior de toda essa trajetória, vaidosa e orgulhosa, é a triste situação de ficar a repetir diuturnamente os méritos amealhados, muitas vezes tornando-os maiores do que verdadeiramente são, sem perceber ou mesmo notando, que os interlocutores já conhecem a real dimensão de suas glórias (bem menores do que a forma como são ditas) e, ainda mais, sabem a enormidade de fracassos ocultados em narrativas heróicas que soçobram em face dos fatos que, a essa altura, já emergiram dos porões nos quais teimavam escondê-los. Os interlocutores notam o incessante exercício de auto-afirmação que estão a ouvir, participam silentes desses inúmeros episódios, imbuídos mais de misericórdia do que de admiração. 

São todos esses motivos que tornam o vaidoso e o orgulhoso a presa mais fácil da manipulação. Basta adulá-los, ainda que se faça isso através de escancarada hipocrisia, que eles fazem tudo o que se quer! Ao se sentirem reconhecidos, inseguros que são, desabrocham em prol do adulador. Costumam adorar aqueles que também carregam seus próprios subsolos, pois sabem que esses jamais ousarão insultá-los. São como crianças que trocam valores por prendas sem valor algum. São indivíduos que se valem no mais das vezes do status e do dinheiro para se afirmarem e impedirem que terceiros conheçam as derrotas que os apavora. 

Destarte, orgulho e vaidade são os maiores inimigos da alma humana. Para combatê-los, além da humildade, a melhor arma é nos policiar para agirmos com sinceridade. Não há motivos para enchermos um subsolo com nossos fracassos, já que a vida é feita de erros e acertos. Não é incomum verificarmos grandes empresários que foram péssimos maridos ou pais. Também não é incomum notarmos que esses indivíduos preferem contar as épicas histórias do mundo dos negócios, trabalhando incessantemente, a fim de evitar a contemplação de sua inequívoca derrota em âmbito doméstico.

 No afã da vaidade e do orgulho profissional, olvidaram-se de temperar família e trabalho. Não conseguem compreender como há pessoas que se sentem bem em suas próprias casas, pois não têm um lar ao qual possam voltar e sentir prazer de permanecer. 

Por todas essas razões, tradição, valores, mitos, verdades, méritos só têm sentido se cultivados no mais íntimo de nossa sinceridade. Se não formos sinceros na análise de todos os setores de nossas vidas, jamais conseguiremos atingir a felicidade. Enquanto o homem continuar a esconder seus fracassos no subsolo e permanecer a repetir suas histórias sem perceber que seus interlocutores já os descobriram na mais triste mediocridade da auto-enganação, a vida não será plena. 

Em suma, um homem só deveria se envergonhar do fato de não ter sido sincero consigo e com os que o cercam, jamais dos percalços que viveu na tentativa de gozar momentos de felicidade!

*Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral é advogado, mestrando em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e especializando em Direito Público pela Escola Paulista de Magistratura. Autor da obra “A função social da empresa no Direito Constitucional Econômico Brasileiro” e de artigos jurídicos. Associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação. 

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2 Respostas

  1. Muito bom o texto. Parabéns!
    Realmente o orgulho e a vaidade são vícios terríveis.
    Sem sombra de dúvidas, é muito oportuna a advertência de vigília permanente, já que, em maior ou menor grau, todos temos vaidade e orgulho. A linha divisória entre o aceitável e o inconcebível é bastante tênue.

  2. A vaidade e o orgulho são como amantes infiéis , sussuram nos ouvidos da alma do homem, o seduzem e os enchem de um vislumbre ilusório que já disse Fernando Pessoa: “o preferir ser exaltado pelo que não é , a ser tido em menor conta pelo que é”, e completo esse pensamento de Pessoa : se enchem de um mérito vazio!.

    Esste texto seu caro Luiz, não só muito bem redigido mas bem adverte dos cuidados que devemos ser em não nos tornar GRANDES aos nossos próprios olhos, mas ter a preocupação de sempre estar adquirindo sabedoria para doar-nos por inteiro como servos de nosso próximo. Já diz a máxima : “quem quer ser o primeiro, que seja então o último”. por ai..:)

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