O humanismo e a obra de Charles Chaplin: um justo propósito à reflexão sobre os atos humanos

Estava descansando no final da manhã deste sábado e aproveitei para ligar a televisão e assistir a Globo News. Meu “ócio momentâneo” foi presenteado com o programa “Starte”, apresentado pela brilhante jornalista Elisabete Pacheco. A edição que assisti abordou a vida de um de meus maiores ídolos no cinema. Charles Chaplin foi comentado na condição do “palhaço” Carlitos, na qualidade de diretor de cinema e de homem comum.

Desde muito cedo, senti-me atraído pela obra desse gênio. Intrigava-me o modo como, na época em que o recurso à fala não era viável, Chales Chaplin mostrava-se extremamente eloquente, usando apenas a expressão corporal. A genialidade desse grande ator reside exatamente nesse ponto. A capacidade que tinha de dizer coisas extremamente complexas sem falar nenhuma palavra sequer. Em um mundo em que a prolixidade reina, contemplar esse dom é alentador.

Essa foi, portanto, minha primeira impressão acerca da obra de Charles Chaplin. Vivendo ainda o final de minha adolescência, notei nesse ator uma enorme capacidade de, valendo-se apenas de gestos e mímicas, transmitir com clareza solar suas ideias, incitando seus espectadores à profunda reflexão sobre os mais diversos aspectos da vida humana.

A grandeza de alma desse ator está condensada na potência de sua expressividade, a ponto de qualquer pessoa, com maior ou menor grau de instrução, observar em sua obra o exercício crítico bem-humorado e a exploração de sentimentos quase que instintivos ao ser humano, como o amor de pai, o sofrimento da miséria, a potencialidade do sorriso como forma de aliviar as dores da vida, o dever de encarar as vicissitudes mundanas, entre muitos outros.

Após esse contato inicial, pude estreitar meus laços com a obra de Charles Chaplin, não só por meio do interesse que desenvolvi pelas ciências humanas, como também pela análise de sua vida. Quanto a esse último aspecto, descobri as enormes dificuldades que acoimaram sua existência, inclusive no âmbito familiar. Filho de pais artistas (pai cantor e ator e mãe cantora), foi com eles que Chaplin deu os primeiros passos na arte de cantar, sem saber que a voz seria a menos importante de suas qualidades.

A entidade familiar na qual foi concebido sofreu os abalos da separação conjugal quando Chaplin ainda era uma pequena criança. Seu pai sofria com o alcoolismo, vício que causou sua morte quando o ator iniciava sua adolescência. As dificuldades enfrentadas na relação com o pai e com a mãe levaram Chaplin a se unir firmemente a seu irmão, em uma aliança de sobrevivência. Ambos deixam a Inglaterra e seguem aos Estados Unidos para tentarem uma vida mais próspera.

Foi em território americano que Charles Chaplin conseguiu erguer-se e estabilizar-se na vida. Seus filmes fizeram enorme sucesso e divulgaram o imenso humanismo desse gênio. A construção do personagem Carlitos é a maior prova da importância de sua história de vida na obra que pretendia desenvolver. Afinal, o nobre vagabundo com pretensão de requinte burguês é o modelo ideal para desenvolver uma crítica à sociedade que continuava a viver sob os apelos de uma racionalidade econômica e nacionalista, raiz de numerosos conflitos bélicos.

Além disso, Chaplin jamais deixou de avaliar a “condição humana” em relação ao processo de mecanização industrial, com a produção em série e com a redução do ser humano à condição de autômato. Em “Tempos Modernos”, Chaplin vive um operário cujo destino é transformar-se em mais um elemento daquele maquinário fabril. Com ironia ímpar, esse ator consegue mostrar, sem falar uma única palavra, a irracionalidade do processo produtivo como forma de exterminar a humanidade ínsita aos seres humanos. Dá-nos a noção do perigo dos homens se tornarem reféns das máquinas que constroem (como ocorre atualmente em relação ao iphone, ipad, celular etc.). A crítica bem-humorada dirige-se, pois, a uma reavaliação das técnicas adotadas pelo homem moderno.

Esse tema foi abordado por Hannah Arendt em “A condição humana”. A filósofa nos traz a seguinte reflexão: “Talvez o melhor exemplo da diferença fundamental entre ferramentas e máquinas seja a discussão, aparentemente infindável, de se o homem deve ajustar-se à máquina ou se as máquinas devem ajustar-se à natureza do homem.” Prossegue a mesma autora: “Até mesmo a mais sofisticada ferramenta permanece como serva, incapaz de guiar ou substituir a mão; por outro lado, até mesmo a mais primitiva das máquinas guia o labor do nosso corpo até substituí-lo inteiramente”.

Se Charles Chaplin se vale da expressão corporal para apresentar aos espectadores suas impressões sobre o paradoxo da “irracional racionalidade produtiva” que torna o homem elemento da máquina, Hannah Arendt busca origens ao fenômeno na seguinte passagem: “Ao contrário da fabricação, em que a luz à qual se julga o produto final provém da imagem ou modelo percebido de antemão pelo artífice, a luz que ilumina os processos de ação e, portanto, todos os processos históricos só aparece quando eles terminam – muitas vezes quando todos os participantes já estão mortos.”

O alerta é muito claro a respeito da necessidade de reflexão sobre nossas atitudes, devidamente sopesada com a humanidade que nos deve ser inerente. Esse processo irrefletido de automação, tão bem tratado na obra de Charles Chaplin e nos pensamentos de Hannah Arendt, deveria ter iluminado a continuidade do processo produtivo. Todavia, como muito bem colocado por Arendt, a narração que um historiador faz a respeito de fatos deve permanecer oculta ao ator do processo narrado. Reside nisso o problema da irreflexão humana, sempre tardia.

Mas não foi só em “Tempos Modernos” que Chaplin abordou essa importante realidade. Em “Luzes da Cidade”, nosso ator pretende apresentar-se a uma florista cega e, certificando-se de sua deficiência visual, procura construir uma aparência refinada, valendo-se dos mais diversos artifícios, na certeza de que uma mulher como aquela só corresponderia aos seus sentimentos se pensasse relacionar com alguém nobre e não com um nobre vagabundo. Há nessa passagem uma crítica à importância do “ter” em uma sociedade que parece desprestigiar o humano e valorizar o “status sócio-econômico”, mesmo que aparente.

Outra importante demonstração do humanismo de Chaplin concentra-se em “O grande ditador”. Nessa obra, criticando de forma franca as atrocidades do nazismo alemão, fazendo-o através da dualidade de um barbeiro judeu e do próprio “führer”, Chaplin desmascara a lógica do nacional socialismo em que se travestia o nazismo. Lembra as odiosas distinções que esse sistema operou em relação aos seres humanos, desumanizando-os de sorte jamais observada, a fim de justificar a prática do genocídio. Note-se que o filme é lançado em 1940, pouco antes de os Estados Unidos abandonarem a neutralidade em relação à segunda guerra e tomarem parte no conflito, felizmente em oposição a Hittler.

Também nesse elemento as obras de Charles Chaplin e Hannah Arendt parecem se encontrar de algum modo. Em “Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal”, a filósofa consegue exprimir parte da obra de Chaplin no próprio título. Trata-se da “banalidade do mal”, isto é, a forma irrefletida como a maldade é encarada, seja pelos que a assistem, seja por aqueles que a perpetram.

O livro de Arendt permite observar que os envolvidos no holocausto admitiam estar cumprindo rigorosamente a ordem legal de seus superiores, isentando-se, quase como autômatos, da realização de um filtro valorativo acerca das condutas praticadas. Além disso, a obra demonstra toda a construção logística levada a cabo pelo governo alemão, a fim de permitir o completo extermínio dos judeus.

O fato de revelar a “banalidade do mal” demonstra a aplicação do pensamento anteriormente citado, também de Hannah Arendt, no sentido de que a avaliação dos fatos históricos e sua narração se dão de forma oculta ao seu ator. O homem não reflete no instante em que faz, limitando-se apenas a constatar consequências nefastas de seus atos.

A constatação do humanismo de Chaplin e de sua genialidade encontra respaldo na materialização teórica de suas percepções, não só por Hannah Arendt, mas por muitos outros historiadores, filósofos, sociólogos, juristas etc. O mais incrível de tudo isso é que o ator conduzia esse processo reflexivo em meio a um mundo irrefletido e sem precisar recorrer à fala. Trata-se da clara demonstração de que os atos falam por si mesmos. Isso ganha maior evidencia, é óbvio, com a grande expressão corporal de Chaplin. Muitas de suas cenas mudas jamais conseguirão ser transmitidas, com tamanha eloquência, por diretores hodiernos que contam com amplo aparato tecnológico.

Os filmes comerciais (já ao lado deles ainda há bom cinema!) têm demonstrado baixo grau de reflexão sobre os fatos sociais, talvez por refletirem a irrisória preocupação de seus espectadores, os quais, na esteira das palavras de Arendt, limitam-se apenas a atuar sem se preocuparem com a avaliação de seus atos em face da natureza humana. O automatismo parece ter extrapolado os muros de ambientes fabris, instalando-se nos mais distintos ambientes sociais, incluindo-se aqueles de natureza virtual. As redes sociais e a enorme superfluidade das manifestações de seus “associados” são a prova de que não avançamos, apesar das críticas de tantos estudiosos acerca do automatismo que nos move desde pouco antes da segunda metade do século XX.

O meio acadêmico também demonstra a forma banal com que encaramos a desumanização do ser humano, como se isso fosse uma consequência necessária do desenvolvimento. Creio que isso seja fruto da inexistência de educação de qualidade para a maior parte da população e não me restrinjo ao Brasil. O fenômeno da superfluidade dos seres humanos não se restringe a um determinado Estado nacional, sendo facilmente observada por meio da inexistência de uma “racionalidade humanizada”, axiologicamente fundada, por todo o mundo.

Podemos vislumbrar o perigo dessa “visão banal e despreocupada” da situação atual através de fatos recentemente ocorridos no Brasil e no mundo. Em território pátrio, cito as mudanças no Código Florestal como forma de privilegiarmos o crescimento da agroindústria em prejuízo do equilíbrio ambiental e, por conseguinte, da continuidade da vida no planeta. A utilização da racionalidade econômica não deve ser abolida, até porque não estou tratando da mudança de sistema econômico neste texto. Porém, só a racionalidade econômica, na esteira do que observamos ao tempo do liberalismo puro, pode nos levar a um futuro extremamente difícil, seja em razão dos prejuízos praticados em face do ambiente em que vivemos, seja em virtude do desprestígio de valores sem os quais é impossível manter o convívio humano, na medida em que representam sustentáculos do humanismo.

Fica esta reflexão, a propósito de meu apreço pela obra de Charles Chaplin e por seu inegável humanismo, lembrando que o ator que denunciou tantas barbaridades humanas, teve a renovação do visto americano negado no início dos anos 50 por ser encarado como “comunista”. Esse pode ser um perigoso caminho para nos distanciarmos do humanismo. Quando atitudes racionais como as da obra de Chaplin são afastadas sob a alcunha de “comunismo”, colocamos o humanismo no mesmo invólucro das temíveis ditaduras de esquerda e revivemos o maniqueísmo que não leva ninguém a lugar nenhum. Tão temerário quanto o modo pelo qual se alcunhou Chaplin é chamar políticas liberais de temíveis demonstrações do capitalismo, sem fazer qualquer distinção entre a importância dos direito de liberdade e as nefastas consequências do abuso desses direitos.

A virtude sempre estará no “caminho do meio” e não naqueles que se encontrem nas extremidades! Por isso o perigo de discursos maniqueístas! Os fatos falam por si e não devem ser ignorados pela humanidade. Ressalte-se que a pertinência dessas ponderações, em minha modesta visão, são aplicáveis apenas se pretendermos uma sociedade com desenvolvimento sustentável, devidamente humanizada, modelo que desejo transmitir às gerações do porvir, a fim de que vivam em um mundo melhor do que o meu!

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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