Uma reflexão natalina…

É muito comum ouvirmos um dito popular no sentido de que “futebol, política e religião não se discute”. Quanto ao futebol, não tenho dúvida acerca do fato de que a única discussão possível diz respeito à destreza técnica de jogadores e treinadores. Ninguém conseguirá avaliar o conteúdo emocional inerente à idolatria ao time “A” ou ao time “B”.

No que atine à política, não podemos avaliar outros aspectos, a não ser as técnicas empregadas na condução da coisa pública, finalidade última das atividades a ela ligadas. Este blog contem alguns textos, creio que a maioria conta com reflexões políticas apartidárias, na medida em que não se mostra possível uma análise sobre o “gostar” de um partido “A” ou “B”, até porque não se trata de simplesmente de gostar, como muitos brasileiros costumam fazer, mas sim de entender e contestar determinadas ideologias e práticas políticas delas decorrentes.

No que tange à religião, muitos afirmam que não é passível de discussão por estar atrelada à profissão de fé. Esta, ao contrário de qualquer dos outros dois temas (futebol e política) não comporta sequer uma avaliação de sua técnica, já que resta atrelada a determinados e inquestionáveis mandamentos (dogmas) que norteiam o pensamento religioso professado pelos fiéis. Em outras palavras, ninguém avaliará se o catolicismo é melhor ou pior do que o espiritismo ou se há prevalência técnica de uma dessas religiões sobre a outra. A teologia, por exemplo, estuda as religiões, a fim de compreendê-las e de questionar comportamentos tomados em nome de cada uma delas, mas não para necessariamente contestá-las. Quando falamos que religião também não se discute, referimo-nos, portanto, à forma fervorosa que domina os fiéis na defesa de suas posições religiosas, fato que deu causa a inúmeras guerras.

Mas por que estou tratando desse tema? Pior, por que me valho do título “Uma reflexão natalina…” para abordar esses aspectos que parecem tão estranhos ao Natal? Simples! Ao contrário de muitos indivíduos que contemplam o Natal como mais um instante de consumo desenfreado ou momento determinado para o exercício da solidariedade, quero tratar do espírito do Natal e, para isso, tomarei por base o núcleo do pensamento de qualquer religião ou da maioria delas.

De início, cabe afirmar que o homem busca na religião um complemento. Há aflições humanas que não se aquietam através de elementos do campo físico, mas sim por meio de questões próprias à metafísica, isto é, que extrapolam o campo de compreensão de ciências propriamente humanas. Muitos homens, dentre os quais me incluo, dependem da profissão de fé, pois entendem que os elementos físicos não bastam à construção de nossa vida, sendo importante crer em algo maior que confere sentido à existência.

Por mais que exista uma pluralidade de religiões, aquelas que podemos chamar de predominantes estão alicerçadas em valores básicos de fé, esperança, amor e caridade. Nosso país é composto por inúmeros católicos e evangélicos, havendo também número considerável de pessoas que creem no espiritismo, que seguem a doutrina judaica etc. Todos tem em comum esses princípios elementares à convivência e à própria realização de um sentimento humanista. Concebido à imagem e semelhança de Deus, cabe ao homem fazer o bem e lutar pela construção de uma vida justa e solidária.

Poderíamos perfeitamente discutir a efetiva busca dos objetivos traçados por todas essas religiões. Talvez essa discussão, muita mais do que possível, seja verdadeiramente necessária. Porém, esse debate praticamente não existe. As pessoas, fiéis ou não, preferem discutir a validade ou o peso de cada uma dessas religiões, numa atitude irracional que tem por finalidade fazer prevalecer uma religião à outra. Fica de lado o diálogo acerca das formas de se alcançar as benesses decorrentes da essência de todas essas religiões.

A célebre frase de Marx no sentido de que: “A religião é o ópio do povo”, representa uma importante constatação do desvirtuamento da forma de se encarar a religião, o que permanece até hoje. Não se deve confundir religião com obscurantismo, por mais que a forma como os homens a professam acabe por conduzir os fiéis a esse perigoso caminho. Na religião católica, por exemplo, temos lições de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino que demonstram ser perfeitamente possível e até mesmo imprescindível a reflexão por parte dos fiéis. É inegável a relação entre filosofia e religião, sendo esta fruto de inegável exercício filosófico.

A religião se torna, de fato, o ópio do povo quando a instituição que a protege e ministra aos fiéis, seja ela a igreja, um centro espírita ou uma sinagoga, distancia-se dos ideais essencialmente norteadores da crença professada e volta-se às questões inegavelmente humanas. Nesse sentido, o poder que líderes espirituais têm em suas mãos é inegável, uma vez que a profissão de fé acaba por credenciá-los, por vezes de maneira irrefletida, perante toda a comunidade. O que dizem é verdade e ponto! Por esse e por outros motivos, ao invés da religião servir à construção de uma sociedade mais igualitária na qual prevaleça a tolerância, o amor ao próximo e a solidariedade, revela-se como um time de futebol ou partido político, impondo aos fiéis o dever de defender a religião contra qualquer um que em face dela se levante.

Todo esse movimento irrefletido, muito além de religioso, é exageradamente humano, no pior sentido que a expressão possa ter. Em que pese o núcleo norteador de cada uma das religiões, as quais, afastadas divergências acerca das escrituras sobre as quais se fundam, encontram inegável semelhança nos valores que pregam, a luta religiosa continua a existir e a finalidade última da adoção de uma religião fica mais difícil de ser atingida, pois o homem está cada vez mais mundano, preocupando-se com sentimentos que nada tem de universais.

Cabe àqueles que ainda não foram afetados por essa triste tendência revelar aos demais que qualquer religião deve voltar-se à realização do bem em prol do próximo. Não ousaria chamar religioso qualquer ato ou sentimento que atente contra o bem-estar de quem quer que seja. Não são poucos os exemplos que vi ao longo do ano que ora se finda de inúmeros católicos, espíritas, evangélicos etc., que cobiçaram os mais diversos bens alheios, que não amaram o próximo como a si mesmos, que simplesmente invejaram o sucesso do outro, que buscaram o prestígio pessoal em detrimento do bem-estar alheio, que desmereceram as conquistas alheias como forma de afirmar o valor de si mesmos, que preferiram condenar a desculpar etc.

Sempre tive enorme admiração pela época do Natal. Criado segundo os preceitos da religião católica, recebi lições de solidariedade, justiça e paz, mas poucas vezes vi os homens aplicarem esses ensinamentos em seus cotidianos. Era e é muito mais frequente vislumbrar o ato de julgar, numa atitude claramente intolerante. Noto que o Natal está cada vez mais mercantilizado, até mesmo por parte daqueles que não professam a fé católica. Muitos não acreditam no nascimento de Jesus, mas ainda assim, por conveniência social, entram no “espírito natalino” e passam a consumir a maior variedade de produtos, muitas vezes desprezíveis ou inúteis, apenas para “não deixarem passar em branco esse momento”.

Saibam que é exatamente esse comportamento que faz do Natal um momento sem qualquer sentido relevante, como deveria ter. Transformar o Natal no instante em que fazemos uma festa e trocamos presentes faz de um questionável elemento acessório o elemento principal.

O Natal, muito além de uma comemoração daqueles que professam a religião católica, traduz um momento de inegável espiritualidade. Devemos aproveitar esse instante para reviver e refletir aqueles ideais quase que unânimes a todas as religiões. Nosso dever, longe de comprar produtos e presentear parentes e amigos, reside na contemplação da força que decorre do maior milagre da vida humana: o nascimento! Crendo ou não no nascimento de Jesus, brindemos a beleza da vida que se vislumbra nesse milagroso ato. O Natal se transformou em uma festa de aniversário na qual nos esquecemos do aniversariante!

Ah sim! Há aqueles que não acreditam no nascimento de Jesus e, por isso, não comemoram a data, salvo através dos impulsos consumistas que se tornaram o elemento principal desse instante. Pois bem! Àqueles que não creem em Jesus como o filho de Deus, além de devotar meu integral respeito pela crença que professam, peço que, ao invés de simplesmente ingressarem no movimento que faz do Natal uma época de consumo, procedam a um momento de reflexão e revejam cada instante vivido ao longo do ano que se finda. Vislumbrem em suas ações aquilo que deve ser mantido e o que deve ser eliminado. Busquem em si mesmos o perdão àqueles sentimentos humanos que os fizeram alguém menor, como a inveja, a cobiça, o ódio etc.

Toda essa reflexão sugerida há de se apegar aos reais valores que cada um de nós encontra no cerne da religião professada. Mesmo aqueles que não professem qualquer religião, ao menos vislumbrem na dignidade da pessoa humana o valor central de nossa vida e de nossa sociedade, pois esse valor também pode ser considerado nuclear a qualquer crença, ainda que muitas delas sejam aplicadas de maneira contrária a tudo que possamos chamar de digno, o que é fruto desse triste desvirtuamento dos valores universais.

Permitam que os valores inerentes a todo e qualquer pensamento voltado à esperança, à fé, à caridade e ao amor estejam presentes ao longo de seus dias, pois só assim será possível apaziguar seus corações. “Fazer o bem sem ver a quem” é um dos modos mais profícuos de promovermos o que há de melhor na essência humana, na esteira do que fizeram aqueles que até hoje são lembrados como seres humanos solidários, justos e fraternos, independentemente da religião professada.

Façam de suas vidas um contínuo exercício de tolerância e perdão, deixando de lado os vícios da alma humana que tanto nos afastam da intensa energia emanada de tudo que se possa chamar de verdadeiramente divino. Olhem para o céu e, crendo em Deus, vejam a imensidão de tudo o que Ele criou. Não acreditando em Deus, constatem quão pequeno é o tamanho do homem perante as coisas do mundo e jamais se esqueçam que, ainda sendo tão diminuto, sempre será possível tomar atitudes de inegável grandeza em prol do próximo.

Agradeço o apoio e incentivo de todos aqueles que destinaram parte de seu tempo à leitura dos singelos textos que publico neste blog. Consigno meus sinceros votos de Feliz Natal e próspero Ano Novo, rogando a Deus pela saúde, paz e alegria de cada um de vocês. Que a misericórdia divina viabilize o aprimoramento de cada um de nós, afastando-nos dos vícios que fazem mal à nossa alma. Que a Providência nos dê a consciência necessária para praticar o bem, amando o próximo e compreendendo que nossa permanência neste mundo apenas se legitima através da semeadura de valores e sentimentos que sirvam à construção de uma sociedade mais livre, justa e solidária, na qual a tolerância e o respeito sejam a regra.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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FHC, LULA e DILMA: entre a razão e a emoção

Decidir escrever este texto não foi fácil. O tema que pretendo abordar não me parece passível de redução às ínfimas linhas às quais me proponho. Por mais que minha atitude possa esbarrar em algum “ato falho”, sobretudo em virtude da restrição que a comunicação em um blog impõe a quem quer que seja, tentarei expor, ainda que brevemente, reflexões ou tópicos que devem ser encarados por todos aqueles que contam com algum sentimento de cidadania, no exato sentido de “pertencer a um Estado-Nação” e com ele se preocupar.

O sociólogo Luiz Werneck Vianna, professor pesquisador da PUC-RJ, escreveu um artigo no jornal “O Estado de São Paulo” (“Lula, Dilma e o repertório Keynesiano-Westfaliano”) e deu uma interessante entrevista à Folha de São Paulo a respeito das mudanças no cenário político institucional no atual governo Dilma. Não escrevo este texto para comentar o artigo ou a entrevista do referido docente, mas confesso que neles encontrei boa parte daquilo que tenho pensado ultimamente acerca do atual governo. Minha intenção é parabenizá-lo e afirmar que muitos dos seus argumentos deveriam ser verdadeiramente refletidos, pois serão indispensáveis à formação de um projeto de longo prazo para o Brasil que queremos.

Ao lado do recente artigo e da entrevista do citado professor, devo comentar que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso esteve no programa “Roda Viva” e apresentou-se como um político ponderado. Ao acompanhar o referido programa, observei que FHC, cuja inteligência é indiscutível, tem adotado um comportamento bem mais ameno nos últimos anos. Relaciono essa mudança de postura a dois fatores. O primeiro deles diz respeito ao “tsunami de popularidade” do ex-presidente Lula, fato consumado que ninguém pode negar. O segundo refere-se à necessidade de reaproximar o PSDB da população, mostrando-se um partido unido e sensato, por mais difícil que isso seja na atual conjuntura interna da sigla, cujo caráter beligerante é por todos conhecido.

Fernando Henrique Cardoso não mudou! O que ele pensa e prega é relativamente o mesmo que sempre pensou e pregou. Porém, penso que até na esteira da experiência populista do fenômeno Lula, o intelectual compreendeu a necessidade de falar de maneira mais popular e carismática. Afirmo, por outro lado, que nunca fui fã do populismo ou dos líderes carismáticos, pois tratar a política com exclusiva carga emocional é uma estratégia que pode nos levar a caminhos de inegável autoritarismo. Porém, não desconheço a necessidade de permear com alguma dose de paixão o racionalismo acadêmico de intelectuais como FHC, sob pena de jamais serem compreendidos.

Nessa linha, penso que oito anos de governo Lula, cuja popularidade é inegável, foram imprescindíveis à viabilização da eleição de Dilma e de seu tecnicismo ou, no mínimo, racionalismo. Dilma não precisa contar com o mesmo carisma de Lula, pois o apoio deste a sua candidatura acabou por revesti-la com essa paixão de seu antecessor. Dilma é inquestionavelmente mais objetiva, menos popular, em suma, demonstra um perfil que se faz necessário à condução de qualquer país.

O lado negativo da popularidade reside na incapacidade da maioria dos líderes carismáticos lidar com o nefasto efeito dessa paixão, a qual transborda para todos os setores sociais, incluindo-se instituições como o Legislativo e o próprio Judiciário, afastando a racionalidade necessária a importantes processos de mudança do país, fazendo de tudo uma enorme ovação.

Exemplo disso é a forma como foi e tem sido tratada a realização da Copa do Mundo. A inegável alegria de Lula quando da escolha da sede do evento, cuja sinceridade não discuto, pois Lula é mesmo um integrante do povo, demonstra esse fato. O governo transfere a paixão que conduz o futebol para a organização de um evento desse porte que demanda uma enormidade de recursos públicos e privados. Tratar esse tema com a mesma paixão com a qual foi recebida a notícia da decisão sobre a sede é extremamente perigoso.

Isso continua a ocorrer, uma vez que a escolha de “Ronaldo fenômeno” como um dos gestores da Copa do Mundo no Brasil representa um modo de manter viva no povo a chama da paixão futebolística, confundindo a execução de obras complexas e milionárias com a emoção de uma partida de futebol. Não estou questionando a capacidade administrativa de Ronaldo, mas sim a intenção dos “poderosos da Copa” em indicá-lo ao cargo que hoje ocupa. Ronaldo bem poderia surpreender os que “eventualmente” têm interesses escusos no evento, atuando de maneira técnica, proba e conforme ao interesse público.

Essa paixão que move os preparativos para a Copa do Mundo certamente se revelará prejudicial aos interesses nacionais. Uma coisa é assistir com o coração na mão uma partida entre Brasil e Argentina; outra coisa, bem diferente, é agir da mesma forma nos anos que antecedem o evento “tão esperado”, durante os quais uma “montanha de dinheiro” será investida e, possivelmente, desviada. Tudo em nome da “emoção” que norteia o país do futebol!

Em que pesem todos esses fatos envolvendo o evento que chancelará a “política do pão e circo” em que se encontra travestido o futebol no “país do futebol”, há alguns avanços importantes no que concerne à mudança de comportamento da ocupante do Poder Executivo. Se Lula era 100% paixão, e isso é a representação do ser humano Lula (ele não se esforçou para isso!), Dilma se mostra com perfil mais ponderado. Não me entendam mal! Minha avaliação diz respeito ao perfil pessoal desses dois ocupantes do Palácio da Alvorada e não das medidas adotadas em cada um de seus governos.

Dilma exerce uma liderança avessa às grandes manifestações emocionais, por mais que se emocione no exercício de seu cargo, como pudemos ver no evento que formalizou o programa que confere benesses às crianças portadoras de deficiência. Essa sincera comoção de nossa presidente serve à demonstração de que um político pode ser objetivo e firme sem perder a humanidade ou sensibilidade.

Esse perfil de Dilma também traz implicações relevantes à organização institucional do Estado brasileiro. Por mais que ainda estejamos longe de um verdadeiro projeto de longo prazo, as atitudes do atual governo parecem seguir caminhos que consideram e conhecem o cenário global. O Executivo federal, ainda que a contragosto (não se sabe!), consegue desmontar aquele universo carismático que foi construído ao redor de Lula, sem necessariamente perder sua base. Começa a desaparecer aquela impressão do “tudo pode”, típica de instantes passionais, para surgir um momento em que as regras devem ser respeitadas e as instituições preservadas. Repito: não sei se esse movimento é intencional ou consequência dos fatos, mas ele é visível e merece ser avaliado.

Após oito anos de um governo que administrou o país com o coração pulsando em suas mãos, conseguindo o que queria através da comoção, noto que passamos a viver um instante de maior racionalismo, a ponto de a atual presidente, ao contrário de seu antecessor, admitir qualidades de FHC. Tal fato também reflete o maior índice de racionalismo que move a atual gestão.

FHC, por mais que eu mesmo discorde de boa parte das medidas que adotou ao tempo de seu governo, é um político de inegável capacidade e teve sua importância para a construção do que hoje vivemos. Lula jamais reconheceu esse fato, pois onde há excesso de emoção tende a faltar a necessária razão. FHC, por seu turno, também assumia um papel passional perante a liderança de Lula, sendo certo que suas colocações jogavam esse jogo do rir e chorar.

Ocorre, porém, que no campo da paixão Lula está sozinho. Não adianta querer competir com esse líder carismático, ao menos nesse terreno que ele domina. Por isso mesmo, creio, FHC adotou um comportamento bem mais ponderado. No programa “Roda Viva” esse novo posicionamento ficou muito claro. Sem perder as qualidades de importante sociólogo, FHC banhou-se com uma dose de “homem comum”. Deixou os ares que tanto conhece do meio acadêmico e aproximou-se da linha “povo”.

A mudança na forma com que FHC se apresenta é importantíssima à continuidade de seu próprio partido. O PSDB, como já tive oportunidade de escrever neste blog, é, sobretudo, uma sigla que conta com inúmeros acadêmicos. O PT também tem muita gente desse mesmo mundo, porém, são intelectuais “mais humanos”, no sentido de “menos divinos”. A intelectualidade tucana sempre se mostrou como algo inatingível para os mortais e, com isso, afastou-se do povo. Além disso, construiu uma perigosa “fogueira de vaidades” no interior do próprio partido, cujos integrantes são, em boa medida, indivíduos com ego de magnitude considerável. Esqueceram-se que política se faz com e para o povo. São excelentes quadros políticos que poderiam ajudar a construção de um Brasil melhor, mas têm dificuldade de se desvencilharem dessa “pompa acadêmica”.

Felizmente, FHC percebeu essa realidade e, ao que parece, tratou de reformatar-se. Chegou até mesmo a reconhecer a proximidade do PSDB em relação ao PT. Fato com o qual concordo sob o ponto de vista ideológico, por mais que a avaliação das atitudes e coligações me faça simplesmente duvidar dessa afirmada proximidade. De qualquer modo, enquanto não tivermos uma profunda reforma política, continuaremos a viver as contradições das alianças partidárias. Prosseguirá a existência de “partidos coadjuvantes” que não são nada do ponto de vista ideológico, revelando-se apenas uma associação que pretende viver das benesses advindas do apoio ao governo.

Quando a política é regida apenas pela emoção, e essa é uma realidade nacional conhecida, os embates acabam se revelando como brigas infantis. Trata-se da eterna discussão que envolve inúmeros acadêmicos acerca da direita e da esquerda. Os “de direita” repelem até uma maçã por ser vermelha; os “de esquerda” fulminam qualquer interlocutor que ouse usar a palavra liberalismo. Observe-se que não estou a defender o fim de posições de direita ou de esquerda. Ao contrário, esses são os dois lados que devem ser considerados na cartilha de qualquer partido político que se pretenda com mínima seriedade. Afirmo, porém, que direita e esquerda não podem se tratar como dois times de futebol. Essa é outra consequência do afastamento do racionalismo, com adoção da paixão em discussões sérias e necessárias ao destino do país.

Em face de todos esses fatos, estou cada vez mais convencido de que a política apenas seguirá rumos razoáveis quando os envolvidos pararem de se comportar de maneira pueril. Não deve prevalecer a lógica do: “se não está comigo, está contra mim”. Se quisermos construir um país verdadeiramente livre, justo e solidário, precisaremos abolir esse maniqueísmo que reside mais na emoção do que na razão. A grandeza dos políticos não está nos grandes feitos, mas, sobretudo, na capacidade de reconhecerem os feitos de outros. Enquanto vivermos em um país que teima em tratar questões de Estado como questões de governo, jamais poderemos contar com um projeto de longo prazo, tão necessário a essa nova fase nacional.

Não dá mais para ficarmos atrelados à pobreza das discussões que envolvem a bipolaridade da política nacional entre PSDB e PT. Não há mais espaço para adjetivarmos tucanos como os responsáveis pelas “privatizações” como se isso fosse necessariamente ruim, e chamarmos os petistas de “petralhas”, como se a corrupção não fosse um problema suprapartidário, mas sim o único legado do PT. Esse tipo de posicionamento, “data venia” daqueles que o adotam, é digno de uma criança de 6 anos de idade.

Como sabemos, a política é a “arte do possível”. Nenhuma mudança se dará de maneira imediata e sempre dependerá do grau de educação e politização da população envolvida. Porém, se queremos um país melhor para a geração do porvir, devemos primar por uma maturidade nesse tipo de discussão. Política é coisa séria! Se agirmos de maneira exclusivamente emocional nesse campo, perpetraremos as maiores arbitrariedades. Se formos estritamente racionais, acabaremos destituídos do humanismo e da sensibilidade que nos compõem enquanto seres humanos. A ação deve levar em conta: ética, conhecimento, razão e paixão de maneira equilibrada, técnica e preocupação com a coisa pública.

Para finalizar, lembro uma passagem da obra de Aristóteles, a demonstrar que a virtude se encontra na temperança. Para sermos razoáveis, impõe-se conhecer, sem que isso afaste a possibilidade de sentir. Diz Aristóteles:  “Todo indivíduo julga corretamente os assuntos com os quais está familiarizado e conhece, sendo deles um bom juiz. Para que possa, portanto, julgar um assunto particular, é preciso que o indivíduo tenha sido instruído nesse assunto; para ser um bom juiz em geral é mister que tenha recebido uma educação completa”.

Temo ter desviado do objetivo inicial. Porém, o que realmente importa é que expus, brevemente, alguns dos pontos que me preocupam na continuidade de nossa Nação. O Brasil vive um momento importante e precisa saber aproveitá-lo.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

A análise da obra de Dr. Sócrates: um médico de almas no mundo do futebol!

Hoje o Brasil perdeu um de seus grandes filhos. Dr. Sócrates faleceu na madrugada deste 04 de dezembro na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Albert Einstein. Não nos cabe fazer uma homenagem de sorte a idolatrar esse homem que já deixa a vida com a imagem inexcedível de um grande ídolo brasileiro. Não tenho dúvida de que o presente que podemos dar à memória de Sócrates é trabalharmos na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.

Afirmo isso porque Dr. Sócrates era, acima de tudo, um ser humano político, humilde e solidário. Tanto que não se mostrava confortável quando era merecidamente homenageado. Não que se revelasse contrariado nesses instantes, mas não pensava ser merecedor dessa idolatria e nisso residia boa parte de seu merecimento, pois os grandes homens não conseguem vislumbrar a importância de si mesmos, na medida em que avaliam a conduta que adotam em suas vidas como circunstância natural de sua personalidade. Em outras palavras, Dr. Sócrates não se atribuía toda a relevância que o povo lhe conferia, pois, para ele, era aquele o único modo de ser.

Tendo em vista todos esses traços que delineavam a personalidade desse filho do Brasil que tanto nos honra, não ficarei a elogiar o jogador Sócrates ou o médico Dr. Sócrates. Creio que a análise mais profícua, até para seguir o pensamento que o analisado pregava, reside na avaliação do cidadão Dr. Sócrates, fazendo-o em contraposição ao que tenho observado em relação a maior parcela dos cidadãos brasileiros.

A vida desse cidadão tem início no interior de São Paulo. Apesar de nascido em Belém do Pará, é no interior paulista que constrói sua personalidade. Seus pais lhe conferem o nome de um dos marcos da filosofia, afinal, existiram os pré-socráticos e os socráticos. Essa divisão poderia ter sido conferida à legião de jogadores de futebol que viveram antes e depois do Dr. Sócrates. Porém, ao menos para a maioria dos jogadores, faltou a instrução que deu base à construção da “cidadania e consciência socrática”.

Ele se divertia com o futebol, jogava no Botafogo de Ribeirão Preto, mas, em paralelo, cursava medicina. Sempre viu nesta última atividade o futuro e naquela o passatempo. Tal exemplo dá prova de que o valor de um homem, muito além de suas façanhas físicas, reside na forma como nutre sua alma. Esta somente pode se nutrir através da atividade intelectual. Esse é o motivo pelo qual a omissão do Estado no que concerne às políticas públicas relativas à educação talvez seja o crime de maior gravidade em uma sociedade que se pretenda democrática.

Quando o próprio Estado retira do indivíduo a possibilidade de buscar a nutrição de sua alma através da educação, acaba por lhe cercear a liberdade, uma vez que o discernimento obtido através desse meio é um dos pressupostos para uma vida livre. Não há liberdade onde a fome ainda mata e o pensamento livre é inviabilizado pela ausência de sua matéria-prima, qual seja, o conhecimento.

É falacioso afirmar que à garantia da liberdade basta a previsão de tal direito no texto constitucional. Liberdade é direito fundamental de primeira geração, mas, sabemos, para viabilizar-se, depende de uma série de outros direitos, os quais se encontram dentre direitos fundamentais de segunda geração, direitos sociais ou direitos de igualdade. Em suma, o ser humano não pode ser livre enquanto estiver atado pelas necessidades mais vitais e desprovido do insumo (o conhecimento) através do qual forjará sua personalidade.

Nesse contexto, uma das maiores qualidades de qualquer ser humano é conseguir conscientizar indivíduos a respeito desses fatos. Trata-se de uma forma de conferir cidadania aos outros. Dr. Sócrates tinha plena clareza a respeito de todos esses fatos e, com indubitável perspicácia, conseguiu levar para o seio de um clube de futebol os conceitos elementares da democracia. Serviu de centro a todos os jogadores de seu time, de sorte a tornar-se um astro ao redor do qual orbitavam os demais. Talvez tenha sido essa a razão que o levou a capitão da seleção brasileira. Viu em cada ser humano com que dividia o gramado mais um irmão e trabalhou para transformar o maior número deles em verdadeiros cidadãos.

Criador de um novo e melhor paradigma nos campos de futebol, Dr. Sócrates demonstrou que o papel de ídolos esportivos, muito mais do que servirem de exemplo por suas habilidades futebolísticas, há de voltar-se à conscientização e construção da cidadania. Demonstrou a importância da política e o papel que devemos exercer no âmbito de uma sociedade democrática.

Não se deixou levar por preocupações supérfluas com o futuro de um campeonato, sabendo encará-las com a exata dimensão que tinham, sem perder o profissionalismo que norteou sua carreira. Lembrava em suas entrevistas que o que o entristecia não eram esses fatos inegavelmente diminutos se comparados à fome, à falta de instrução do povo, à importância da construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. Essa característica fazia dele um homem diferente no mundo do futebol.

Muita falta nos fará o Dr. Sócrates, sobretudo se considerarmos os tristes rumos que tem tomado o mundo do futebol. Longe das “lições socráticas”, o universo da bola está cada vez mais caracterizado como a política do pão e circo. A diversão toma o lugar da seriedade e serve de véu para ocultar diversas irregularidades que apenas contribuem à manutenção do status quo. Nesse sentido, lembremos a renúncia fiscal para a construção de estádios privados; os escândalos advindos da CBF e seus contratos milionários; a espúria relação entre políticos e o mundo do futebol; a realização de gastos com a Copa do Mundo de 2014, apesar das deficiências estruturais de nosso país, as quais seriam inegavelmente melhoradas se recebessem os significativos investimentos destinados a esse evento.

Muitos se orgulham quando o Brasil é denominado país do futebol. Isso até poderia ensejar tal sentimento, desde que fosse apenas mais um dado. Porém, essa característica é a nota central ligada a qualquer lembrança acerca de nosso país. Quando permitimos que o futebol ocupe o papel central, abrimos espaço à política de pão e circo, à idolatria exagerada de inúmeros atletas que, ao contrário do Dr. Sócrates, não conseguem vislumbrar a relevância que têm ao desenvolvimento de uma nação.

Perdem-se em meio a notícias de noitadas e orgias. É esse o exemplo que queremos dar aos jovens? Devemos permitir a construção de uma imagem no sentido de que o jogador de futebol, no país do futebol, é um ser acima dos demais? Nosso ídolo não se comportava dessa maneira, apontando seus erros e afirmando que ninguém deveria acompanhá-lo em seus vícios, mas apenas em suas virtudes.

Por essas razões, creio que a triste partida do Dr. Sócrates também deve ensejar uma postura reflexiva dos atletas que estão em atividade. Um ídolo deve ter plena noção da função que há de exercer. Inúmeros jovens se espelham em pessoas com notoriedade. Nisso reside o brilhantismo que parecia tão natural a esse cidadão dos campos de futebol. Ele sempre buscou descer do pedestal que a idolatria do povo lhe conferia para demonstrar à sociedade que, antes de ser um ídolo, era um cidadão como qualquer um de nós. Um cidadão que servia de exemplo ao se preocupar com o que realmente importa. Trabalhando por um país melhor, ciente de que a missão de cada um de nós, ao contrário de se consubstanciar na simples e egoísta majoração do patrimônio pessoal, consiste na realização de algo maior que logre perpetuar-se em prol da coletividade.

Quando o Dr. Sócrates subia nos palanques das “Diretas já!” demonstrava ao povo o caminho para a cidadania. Dava a firme declaração de que a política não é apenas campo para políticos, mas para seres políticos. Nesse sentido, todos os cidadãos são seres políticos e, como tais, devem interessar-se pela política, sob pena de não poderem gozar as benesses da democracia. Esta, ao menos no modelo brasileiro, implica o governo de todos por intermédio de representantes. Um povo desprovido de cidadania, ainda que o Estado em que viva se diga democrático, jamais viverá a democracia, na medida em que se mostra indiferente à política e aos rumos que políticos conferem à nação.

As atitudes do Dr. Sócrates davam o tom do que realmente importa à vida em sociedade. Ele utilizou a maior paixão do brasileiro, o futebol, para difundir a relevância da democracia, da política e da cidadania. Conseguiu atingir considerável número de indivíduos, utilizando a condição de ídolo como meio à transformação de brasileiros em verdadeiros cidadãos. Não fez da posição de atleta uma forma de se mostrar acima de quem quer que seja ou legitimado a praticar atos de ostentação.

Dr. Sócrates, ao contrário da maioria dos atletas de futebol, demonstrou que a cidadania deve anteceder qualquer outra condição. Conseguiu divulgar, no meio mais improvável, o futebol, que a democracia está acima de qualquer diversão e que todos os cidadãos têm um objetivo que supera qualquer pretensão individual, qual seja, a busca do bem-estar coletivo. Demonstrou que, assim como no futebol, para se jogar o jogo da democracia, precisamos ser craques na cidadania e, para isso, conhecer as regras do jogo. Provou a necessidade de sabermos que a política é o campo onde se joga a democracia e que, caso não nos habilitemos a jogá-la vestindo a camisa da cidadania, figuraremos como meros “botões” que são movidos por mãos autoritárias que por nós jogam o jogo.

A “lição socrática” precisa ser eternamente lembrada e prontamente aplicada. A conscientização através da educação aparece como o principal caminho para tomarmos as rédeas desse processo, sendo o maior presente à memória do Dr. Sócrates. Não podemos permitir que a política continue a ser vista como um meio de promoção e enriquecimento pessoal, tal qual se dá hoje em dia. Devemos mudar a situação atual, deixando a condição de peças do jogo para atingirmos o posto de jogadores. Para isso, durmam com a certeza de que, na democracia, se você se afasta do jogo por não gostar da política, alguém o jogará e você apenas sofrerá as consequências.

Dr. Sócrates, descanse em paz e tenha a certeza de que seu exemplo sempre será por nós lembrado! Não duvide do cumprimento de sua função na passagem por este plano terreno! Seu conhecimento técnico serviu à cura dos males físicos. Seu exemplo servirá de remédio à alma de todos aqueles que atentarem para a relevância de vestirmos a camisa da cidadania e, cientes das regras políticas, jogarmos o jogo da democracia! Deus o abençoe e muito obrigado pela função exercida!

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.