A análise da obra de Dr. Sócrates: um médico de almas no mundo do futebol!

Hoje o Brasil perdeu um de seus grandes filhos. Dr. Sócrates faleceu na madrugada deste 04 de dezembro na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Albert Einstein. Não nos cabe fazer uma homenagem de sorte a idolatrar esse homem que já deixa a vida com a imagem inexcedível de um grande ídolo brasileiro. Não tenho dúvida de que o presente que podemos dar à memória de Sócrates é trabalharmos na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.

Afirmo isso porque Dr. Sócrates era, acima de tudo, um ser humano político, humilde e solidário. Tanto que não se mostrava confortável quando era merecidamente homenageado. Não que se revelasse contrariado nesses instantes, mas não pensava ser merecedor dessa idolatria e nisso residia boa parte de seu merecimento, pois os grandes homens não conseguem vislumbrar a importância de si mesmos, na medida em que avaliam a conduta que adotam em suas vidas como circunstância natural de sua personalidade. Em outras palavras, Dr. Sócrates não se atribuía toda a relevância que o povo lhe conferia, pois, para ele, era aquele o único modo de ser.

Tendo em vista todos esses traços que delineavam a personalidade desse filho do Brasil que tanto nos honra, não ficarei a elogiar o jogador Sócrates ou o médico Dr. Sócrates. Creio que a análise mais profícua, até para seguir o pensamento que o analisado pregava, reside na avaliação do cidadão Dr. Sócrates, fazendo-o em contraposição ao que tenho observado em relação a maior parcela dos cidadãos brasileiros.

A vida desse cidadão tem início no interior de São Paulo. Apesar de nascido em Belém do Pará, é no interior paulista que constrói sua personalidade. Seus pais lhe conferem o nome de um dos marcos da filosofia, afinal, existiram os pré-socráticos e os socráticos. Essa divisão poderia ter sido conferida à legião de jogadores de futebol que viveram antes e depois do Dr. Sócrates. Porém, ao menos para a maioria dos jogadores, faltou a instrução que deu base à construção da “cidadania e consciência socrática”.

Ele se divertia com o futebol, jogava no Botafogo de Ribeirão Preto, mas, em paralelo, cursava medicina. Sempre viu nesta última atividade o futuro e naquela o passatempo. Tal exemplo dá prova de que o valor de um homem, muito além de suas façanhas físicas, reside na forma como nutre sua alma. Esta somente pode se nutrir através da atividade intelectual. Esse é o motivo pelo qual a omissão do Estado no que concerne às políticas públicas relativas à educação talvez seja o crime de maior gravidade em uma sociedade que se pretenda democrática.

Quando o próprio Estado retira do indivíduo a possibilidade de buscar a nutrição de sua alma através da educação, acaba por lhe cercear a liberdade, uma vez que o discernimento obtido através desse meio é um dos pressupostos para uma vida livre. Não há liberdade onde a fome ainda mata e o pensamento livre é inviabilizado pela ausência de sua matéria-prima, qual seja, o conhecimento.

É falacioso afirmar que à garantia da liberdade basta a previsão de tal direito no texto constitucional. Liberdade é direito fundamental de primeira geração, mas, sabemos, para viabilizar-se, depende de uma série de outros direitos, os quais se encontram dentre direitos fundamentais de segunda geração, direitos sociais ou direitos de igualdade. Em suma, o ser humano não pode ser livre enquanto estiver atado pelas necessidades mais vitais e desprovido do insumo (o conhecimento) através do qual forjará sua personalidade.

Nesse contexto, uma das maiores qualidades de qualquer ser humano é conseguir conscientizar indivíduos a respeito desses fatos. Trata-se de uma forma de conferir cidadania aos outros. Dr. Sócrates tinha plena clareza a respeito de todos esses fatos e, com indubitável perspicácia, conseguiu levar para o seio de um clube de futebol os conceitos elementares da democracia. Serviu de centro a todos os jogadores de seu time, de sorte a tornar-se um astro ao redor do qual orbitavam os demais. Talvez tenha sido essa a razão que o levou a capitão da seleção brasileira. Viu em cada ser humano com que dividia o gramado mais um irmão e trabalhou para transformar o maior número deles em verdadeiros cidadãos.

Criador de um novo e melhor paradigma nos campos de futebol, Dr. Sócrates demonstrou que o papel de ídolos esportivos, muito mais do que servirem de exemplo por suas habilidades futebolísticas, há de voltar-se à conscientização e construção da cidadania. Demonstrou a importância da política e o papel que devemos exercer no âmbito de uma sociedade democrática.

Não se deixou levar por preocupações supérfluas com o futuro de um campeonato, sabendo encará-las com a exata dimensão que tinham, sem perder o profissionalismo que norteou sua carreira. Lembrava em suas entrevistas que o que o entristecia não eram esses fatos inegavelmente diminutos se comparados à fome, à falta de instrução do povo, à importância da construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. Essa característica fazia dele um homem diferente no mundo do futebol.

Muita falta nos fará o Dr. Sócrates, sobretudo se considerarmos os tristes rumos que tem tomado o mundo do futebol. Longe das “lições socráticas”, o universo da bola está cada vez mais caracterizado como a política do pão e circo. A diversão toma o lugar da seriedade e serve de véu para ocultar diversas irregularidades que apenas contribuem à manutenção do status quo. Nesse sentido, lembremos a renúncia fiscal para a construção de estádios privados; os escândalos advindos da CBF e seus contratos milionários; a espúria relação entre políticos e o mundo do futebol; a realização de gastos com a Copa do Mundo de 2014, apesar das deficiências estruturais de nosso país, as quais seriam inegavelmente melhoradas se recebessem os significativos investimentos destinados a esse evento.

Muitos se orgulham quando o Brasil é denominado país do futebol. Isso até poderia ensejar tal sentimento, desde que fosse apenas mais um dado. Porém, essa característica é a nota central ligada a qualquer lembrança acerca de nosso país. Quando permitimos que o futebol ocupe o papel central, abrimos espaço à política de pão e circo, à idolatria exagerada de inúmeros atletas que, ao contrário do Dr. Sócrates, não conseguem vislumbrar a relevância que têm ao desenvolvimento de uma nação.

Perdem-se em meio a notícias de noitadas e orgias. É esse o exemplo que queremos dar aos jovens? Devemos permitir a construção de uma imagem no sentido de que o jogador de futebol, no país do futebol, é um ser acima dos demais? Nosso ídolo não se comportava dessa maneira, apontando seus erros e afirmando que ninguém deveria acompanhá-lo em seus vícios, mas apenas em suas virtudes.

Por essas razões, creio que a triste partida do Dr. Sócrates também deve ensejar uma postura reflexiva dos atletas que estão em atividade. Um ídolo deve ter plena noção da função que há de exercer. Inúmeros jovens se espelham em pessoas com notoriedade. Nisso reside o brilhantismo que parecia tão natural a esse cidadão dos campos de futebol. Ele sempre buscou descer do pedestal que a idolatria do povo lhe conferia para demonstrar à sociedade que, antes de ser um ídolo, era um cidadão como qualquer um de nós. Um cidadão que servia de exemplo ao se preocupar com o que realmente importa. Trabalhando por um país melhor, ciente de que a missão de cada um de nós, ao contrário de se consubstanciar na simples e egoísta majoração do patrimônio pessoal, consiste na realização de algo maior que logre perpetuar-se em prol da coletividade.

Quando o Dr. Sócrates subia nos palanques das “Diretas já!” demonstrava ao povo o caminho para a cidadania. Dava a firme declaração de que a política não é apenas campo para políticos, mas para seres políticos. Nesse sentido, todos os cidadãos são seres políticos e, como tais, devem interessar-se pela política, sob pena de não poderem gozar as benesses da democracia. Esta, ao menos no modelo brasileiro, implica o governo de todos por intermédio de representantes. Um povo desprovido de cidadania, ainda que o Estado em que viva se diga democrático, jamais viverá a democracia, na medida em que se mostra indiferente à política e aos rumos que políticos conferem à nação.

As atitudes do Dr. Sócrates davam o tom do que realmente importa à vida em sociedade. Ele utilizou a maior paixão do brasileiro, o futebol, para difundir a relevância da democracia, da política e da cidadania. Conseguiu atingir considerável número de indivíduos, utilizando a condição de ídolo como meio à transformação de brasileiros em verdadeiros cidadãos. Não fez da posição de atleta uma forma de se mostrar acima de quem quer que seja ou legitimado a praticar atos de ostentação.

Dr. Sócrates, ao contrário da maioria dos atletas de futebol, demonstrou que a cidadania deve anteceder qualquer outra condição. Conseguiu divulgar, no meio mais improvável, o futebol, que a democracia está acima de qualquer diversão e que todos os cidadãos têm um objetivo que supera qualquer pretensão individual, qual seja, a busca do bem-estar coletivo. Demonstrou que, assim como no futebol, para se jogar o jogo da democracia, precisamos ser craques na cidadania e, para isso, conhecer as regras do jogo. Provou a necessidade de sabermos que a política é o campo onde se joga a democracia e que, caso não nos habilitemos a jogá-la vestindo a camisa da cidadania, figuraremos como meros “botões” que são movidos por mãos autoritárias que por nós jogam o jogo.

A “lição socrática” precisa ser eternamente lembrada e prontamente aplicada. A conscientização através da educação aparece como o principal caminho para tomarmos as rédeas desse processo, sendo o maior presente à memória do Dr. Sócrates. Não podemos permitir que a política continue a ser vista como um meio de promoção e enriquecimento pessoal, tal qual se dá hoje em dia. Devemos mudar a situação atual, deixando a condição de peças do jogo para atingirmos o posto de jogadores. Para isso, durmam com a certeza de que, na democracia, se você se afasta do jogo por não gostar da política, alguém o jogará e você apenas sofrerá as consequências.

Dr. Sócrates, descanse em paz e tenha a certeza de que seu exemplo sempre será por nós lembrado! Não duvide do cumprimento de sua função na passagem por este plano terreno! Seu conhecimento técnico serviu à cura dos males físicos. Seu exemplo servirá de remédio à alma de todos aqueles que atentarem para a relevância de vestirmos a camisa da cidadania e, cientes das regras políticas, jogarmos o jogo da democracia! Deus o abençoe e muito obrigado pela função exercida!

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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