FHC, LULA e DILMA: entre a razão e a emoção

Decidir escrever este texto não foi fácil. O tema que pretendo abordar não me parece passível de redução às ínfimas linhas às quais me proponho. Por mais que minha atitude possa esbarrar em algum “ato falho”, sobretudo em virtude da restrição que a comunicação em um blog impõe a quem quer que seja, tentarei expor, ainda que brevemente, reflexões ou tópicos que devem ser encarados por todos aqueles que contam com algum sentimento de cidadania, no exato sentido de “pertencer a um Estado-Nação” e com ele se preocupar.

O sociólogo Luiz Werneck Vianna, professor pesquisador da PUC-RJ, escreveu um artigo no jornal “O Estado de São Paulo” (“Lula, Dilma e o repertório Keynesiano-Westfaliano”) e deu uma interessante entrevista à Folha de São Paulo a respeito das mudanças no cenário político institucional no atual governo Dilma. Não escrevo este texto para comentar o artigo ou a entrevista do referido docente, mas confesso que neles encontrei boa parte daquilo que tenho pensado ultimamente acerca do atual governo. Minha intenção é parabenizá-lo e afirmar que muitos dos seus argumentos deveriam ser verdadeiramente refletidos, pois serão indispensáveis à formação de um projeto de longo prazo para o Brasil que queremos.

Ao lado do recente artigo e da entrevista do citado professor, devo comentar que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso esteve no programa “Roda Viva” e apresentou-se como um político ponderado. Ao acompanhar o referido programa, observei que FHC, cuja inteligência é indiscutível, tem adotado um comportamento bem mais ameno nos últimos anos. Relaciono essa mudança de postura a dois fatores. O primeiro deles diz respeito ao “tsunami de popularidade” do ex-presidente Lula, fato consumado que ninguém pode negar. O segundo refere-se à necessidade de reaproximar o PSDB da população, mostrando-se um partido unido e sensato, por mais difícil que isso seja na atual conjuntura interna da sigla, cujo caráter beligerante é por todos conhecido.

Fernando Henrique Cardoso não mudou! O que ele pensa e prega é relativamente o mesmo que sempre pensou e pregou. Porém, penso que até na esteira da experiência populista do fenômeno Lula, o intelectual compreendeu a necessidade de falar de maneira mais popular e carismática. Afirmo, por outro lado, que nunca fui fã do populismo ou dos líderes carismáticos, pois tratar a política com exclusiva carga emocional é uma estratégia que pode nos levar a caminhos de inegável autoritarismo. Porém, não desconheço a necessidade de permear com alguma dose de paixão o racionalismo acadêmico de intelectuais como FHC, sob pena de jamais serem compreendidos.

Nessa linha, penso que oito anos de governo Lula, cuja popularidade é inegável, foram imprescindíveis à viabilização da eleição de Dilma e de seu tecnicismo ou, no mínimo, racionalismo. Dilma não precisa contar com o mesmo carisma de Lula, pois o apoio deste a sua candidatura acabou por revesti-la com essa paixão de seu antecessor. Dilma é inquestionavelmente mais objetiva, menos popular, em suma, demonstra um perfil que se faz necessário à condução de qualquer país.

O lado negativo da popularidade reside na incapacidade da maioria dos líderes carismáticos lidar com o nefasto efeito dessa paixão, a qual transborda para todos os setores sociais, incluindo-se instituições como o Legislativo e o próprio Judiciário, afastando a racionalidade necessária a importantes processos de mudança do país, fazendo de tudo uma enorme ovação.

Exemplo disso é a forma como foi e tem sido tratada a realização da Copa do Mundo. A inegável alegria de Lula quando da escolha da sede do evento, cuja sinceridade não discuto, pois Lula é mesmo um integrante do povo, demonstra esse fato. O governo transfere a paixão que conduz o futebol para a organização de um evento desse porte que demanda uma enormidade de recursos públicos e privados. Tratar esse tema com a mesma paixão com a qual foi recebida a notícia da decisão sobre a sede é extremamente perigoso.

Isso continua a ocorrer, uma vez que a escolha de “Ronaldo fenômeno” como um dos gestores da Copa do Mundo no Brasil representa um modo de manter viva no povo a chama da paixão futebolística, confundindo a execução de obras complexas e milionárias com a emoção de uma partida de futebol. Não estou questionando a capacidade administrativa de Ronaldo, mas sim a intenção dos “poderosos da Copa” em indicá-lo ao cargo que hoje ocupa. Ronaldo bem poderia surpreender os que “eventualmente” têm interesses escusos no evento, atuando de maneira técnica, proba e conforme ao interesse público.

Essa paixão que move os preparativos para a Copa do Mundo certamente se revelará prejudicial aos interesses nacionais. Uma coisa é assistir com o coração na mão uma partida entre Brasil e Argentina; outra coisa, bem diferente, é agir da mesma forma nos anos que antecedem o evento “tão esperado”, durante os quais uma “montanha de dinheiro” será investida e, possivelmente, desviada. Tudo em nome da “emoção” que norteia o país do futebol!

Em que pesem todos esses fatos envolvendo o evento que chancelará a “política do pão e circo” em que se encontra travestido o futebol no “país do futebol”, há alguns avanços importantes no que concerne à mudança de comportamento da ocupante do Poder Executivo. Se Lula era 100% paixão, e isso é a representação do ser humano Lula (ele não se esforçou para isso!), Dilma se mostra com perfil mais ponderado. Não me entendam mal! Minha avaliação diz respeito ao perfil pessoal desses dois ocupantes do Palácio da Alvorada e não das medidas adotadas em cada um de seus governos.

Dilma exerce uma liderança avessa às grandes manifestações emocionais, por mais que se emocione no exercício de seu cargo, como pudemos ver no evento que formalizou o programa que confere benesses às crianças portadoras de deficiência. Essa sincera comoção de nossa presidente serve à demonstração de que um político pode ser objetivo e firme sem perder a humanidade ou sensibilidade.

Esse perfil de Dilma também traz implicações relevantes à organização institucional do Estado brasileiro. Por mais que ainda estejamos longe de um verdadeiro projeto de longo prazo, as atitudes do atual governo parecem seguir caminhos que consideram e conhecem o cenário global. O Executivo federal, ainda que a contragosto (não se sabe!), consegue desmontar aquele universo carismático que foi construído ao redor de Lula, sem necessariamente perder sua base. Começa a desaparecer aquela impressão do “tudo pode”, típica de instantes passionais, para surgir um momento em que as regras devem ser respeitadas e as instituições preservadas. Repito: não sei se esse movimento é intencional ou consequência dos fatos, mas ele é visível e merece ser avaliado.

Após oito anos de um governo que administrou o país com o coração pulsando em suas mãos, conseguindo o que queria através da comoção, noto que passamos a viver um instante de maior racionalismo, a ponto de a atual presidente, ao contrário de seu antecessor, admitir qualidades de FHC. Tal fato também reflete o maior índice de racionalismo que move a atual gestão.

FHC, por mais que eu mesmo discorde de boa parte das medidas que adotou ao tempo de seu governo, é um político de inegável capacidade e teve sua importância para a construção do que hoje vivemos. Lula jamais reconheceu esse fato, pois onde há excesso de emoção tende a faltar a necessária razão. FHC, por seu turno, também assumia um papel passional perante a liderança de Lula, sendo certo que suas colocações jogavam esse jogo do rir e chorar.

Ocorre, porém, que no campo da paixão Lula está sozinho. Não adianta querer competir com esse líder carismático, ao menos nesse terreno que ele domina. Por isso mesmo, creio, FHC adotou um comportamento bem mais ponderado. No programa “Roda Viva” esse novo posicionamento ficou muito claro. Sem perder as qualidades de importante sociólogo, FHC banhou-se com uma dose de “homem comum”. Deixou os ares que tanto conhece do meio acadêmico e aproximou-se da linha “povo”.

A mudança na forma com que FHC se apresenta é importantíssima à continuidade de seu próprio partido. O PSDB, como já tive oportunidade de escrever neste blog, é, sobretudo, uma sigla que conta com inúmeros acadêmicos. O PT também tem muita gente desse mesmo mundo, porém, são intelectuais “mais humanos”, no sentido de “menos divinos”. A intelectualidade tucana sempre se mostrou como algo inatingível para os mortais e, com isso, afastou-se do povo. Além disso, construiu uma perigosa “fogueira de vaidades” no interior do próprio partido, cujos integrantes são, em boa medida, indivíduos com ego de magnitude considerável. Esqueceram-se que política se faz com e para o povo. São excelentes quadros políticos que poderiam ajudar a construção de um Brasil melhor, mas têm dificuldade de se desvencilharem dessa “pompa acadêmica”.

Felizmente, FHC percebeu essa realidade e, ao que parece, tratou de reformatar-se. Chegou até mesmo a reconhecer a proximidade do PSDB em relação ao PT. Fato com o qual concordo sob o ponto de vista ideológico, por mais que a avaliação das atitudes e coligações me faça simplesmente duvidar dessa afirmada proximidade. De qualquer modo, enquanto não tivermos uma profunda reforma política, continuaremos a viver as contradições das alianças partidárias. Prosseguirá a existência de “partidos coadjuvantes” que não são nada do ponto de vista ideológico, revelando-se apenas uma associação que pretende viver das benesses advindas do apoio ao governo.

Quando a política é regida apenas pela emoção, e essa é uma realidade nacional conhecida, os embates acabam se revelando como brigas infantis. Trata-se da eterna discussão que envolve inúmeros acadêmicos acerca da direita e da esquerda. Os “de direita” repelem até uma maçã por ser vermelha; os “de esquerda” fulminam qualquer interlocutor que ouse usar a palavra liberalismo. Observe-se que não estou a defender o fim de posições de direita ou de esquerda. Ao contrário, esses são os dois lados que devem ser considerados na cartilha de qualquer partido político que se pretenda com mínima seriedade. Afirmo, porém, que direita e esquerda não podem se tratar como dois times de futebol. Essa é outra consequência do afastamento do racionalismo, com adoção da paixão em discussões sérias e necessárias ao destino do país.

Em face de todos esses fatos, estou cada vez mais convencido de que a política apenas seguirá rumos razoáveis quando os envolvidos pararem de se comportar de maneira pueril. Não deve prevalecer a lógica do: “se não está comigo, está contra mim”. Se quisermos construir um país verdadeiramente livre, justo e solidário, precisaremos abolir esse maniqueísmo que reside mais na emoção do que na razão. A grandeza dos políticos não está nos grandes feitos, mas, sobretudo, na capacidade de reconhecerem os feitos de outros. Enquanto vivermos em um país que teima em tratar questões de Estado como questões de governo, jamais poderemos contar com um projeto de longo prazo, tão necessário a essa nova fase nacional.

Não dá mais para ficarmos atrelados à pobreza das discussões que envolvem a bipolaridade da política nacional entre PSDB e PT. Não há mais espaço para adjetivarmos tucanos como os responsáveis pelas “privatizações” como se isso fosse necessariamente ruim, e chamarmos os petistas de “petralhas”, como se a corrupção não fosse um problema suprapartidário, mas sim o único legado do PT. Esse tipo de posicionamento, “data venia” daqueles que o adotam, é digno de uma criança de 6 anos de idade.

Como sabemos, a política é a “arte do possível”. Nenhuma mudança se dará de maneira imediata e sempre dependerá do grau de educação e politização da população envolvida. Porém, se queremos um país melhor para a geração do porvir, devemos primar por uma maturidade nesse tipo de discussão. Política é coisa séria! Se agirmos de maneira exclusivamente emocional nesse campo, perpetraremos as maiores arbitrariedades. Se formos estritamente racionais, acabaremos destituídos do humanismo e da sensibilidade que nos compõem enquanto seres humanos. A ação deve levar em conta: ética, conhecimento, razão e paixão de maneira equilibrada, técnica e preocupação com a coisa pública.

Para finalizar, lembro uma passagem da obra de Aristóteles, a demonstrar que a virtude se encontra na temperança. Para sermos razoáveis, impõe-se conhecer, sem que isso afaste a possibilidade de sentir. Diz Aristóteles:  “Todo indivíduo julga corretamente os assuntos com os quais está familiarizado e conhece, sendo deles um bom juiz. Para que possa, portanto, julgar um assunto particular, é preciso que o indivíduo tenha sido instruído nesse assunto; para ser um bom juiz em geral é mister que tenha recebido uma educação completa”.

Temo ter desviado do objetivo inicial. Porém, o que realmente importa é que expus, brevemente, alguns dos pontos que me preocupam na continuidade de nossa Nação. O Brasil vive um momento importante e precisa saber aproveitá-lo.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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