Uma reflexão natalina…

É muito comum ouvirmos um dito popular no sentido de que “futebol, política e religião não se discute”. Quanto ao futebol, não tenho dúvida acerca do fato de que a única discussão possível diz respeito à destreza técnica de jogadores e treinadores. Ninguém conseguirá avaliar o conteúdo emocional inerente à idolatria ao time “A” ou ao time “B”.

No que atine à política, não podemos avaliar outros aspectos, a não ser as técnicas empregadas na condução da coisa pública, finalidade última das atividades a ela ligadas. Este blog contem alguns textos, creio que a maioria conta com reflexões políticas apartidárias, na medida em que não se mostra possível uma análise sobre o “gostar” de um partido “A” ou “B”, até porque não se trata de simplesmente de gostar, como muitos brasileiros costumam fazer, mas sim de entender e contestar determinadas ideologias e práticas políticas delas decorrentes.

No que tange à religião, muitos afirmam que não é passível de discussão por estar atrelada à profissão de fé. Esta, ao contrário de qualquer dos outros dois temas (futebol e política) não comporta sequer uma avaliação de sua técnica, já que resta atrelada a determinados e inquestionáveis mandamentos (dogmas) que norteiam o pensamento religioso professado pelos fiéis. Em outras palavras, ninguém avaliará se o catolicismo é melhor ou pior do que o espiritismo ou se há prevalência técnica de uma dessas religiões sobre a outra. A teologia, por exemplo, estuda as religiões, a fim de compreendê-las e de questionar comportamentos tomados em nome de cada uma delas, mas não para necessariamente contestá-las. Quando falamos que religião também não se discute, referimo-nos, portanto, à forma fervorosa que domina os fiéis na defesa de suas posições religiosas, fato que deu causa a inúmeras guerras.

Mas por que estou tratando desse tema? Pior, por que me valho do título “Uma reflexão natalina…” para abordar esses aspectos que parecem tão estranhos ao Natal? Simples! Ao contrário de muitos indivíduos que contemplam o Natal como mais um instante de consumo desenfreado ou momento determinado para o exercício da solidariedade, quero tratar do espírito do Natal e, para isso, tomarei por base o núcleo do pensamento de qualquer religião ou da maioria delas.

De início, cabe afirmar que o homem busca na religião um complemento. Há aflições humanas que não se aquietam através de elementos do campo físico, mas sim por meio de questões próprias à metafísica, isto é, que extrapolam o campo de compreensão de ciências propriamente humanas. Muitos homens, dentre os quais me incluo, dependem da profissão de fé, pois entendem que os elementos físicos não bastam à construção de nossa vida, sendo importante crer em algo maior que confere sentido à existência.

Por mais que exista uma pluralidade de religiões, aquelas que podemos chamar de predominantes estão alicerçadas em valores básicos de fé, esperança, amor e caridade. Nosso país é composto por inúmeros católicos e evangélicos, havendo também número considerável de pessoas que creem no espiritismo, que seguem a doutrina judaica etc. Todos tem em comum esses princípios elementares à convivência e à própria realização de um sentimento humanista. Concebido à imagem e semelhança de Deus, cabe ao homem fazer o bem e lutar pela construção de uma vida justa e solidária.

Poderíamos perfeitamente discutir a efetiva busca dos objetivos traçados por todas essas religiões. Talvez essa discussão, muita mais do que possível, seja verdadeiramente necessária. Porém, esse debate praticamente não existe. As pessoas, fiéis ou não, preferem discutir a validade ou o peso de cada uma dessas religiões, numa atitude irracional que tem por finalidade fazer prevalecer uma religião à outra. Fica de lado o diálogo acerca das formas de se alcançar as benesses decorrentes da essência de todas essas religiões.

A célebre frase de Marx no sentido de que: “A religião é o ópio do povo”, representa uma importante constatação do desvirtuamento da forma de se encarar a religião, o que permanece até hoje. Não se deve confundir religião com obscurantismo, por mais que a forma como os homens a professam acabe por conduzir os fiéis a esse perigoso caminho. Na religião católica, por exemplo, temos lições de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino que demonstram ser perfeitamente possível e até mesmo imprescindível a reflexão por parte dos fiéis. É inegável a relação entre filosofia e religião, sendo esta fruto de inegável exercício filosófico.

A religião se torna, de fato, o ópio do povo quando a instituição que a protege e ministra aos fiéis, seja ela a igreja, um centro espírita ou uma sinagoga, distancia-se dos ideais essencialmente norteadores da crença professada e volta-se às questões inegavelmente humanas. Nesse sentido, o poder que líderes espirituais têm em suas mãos é inegável, uma vez que a profissão de fé acaba por credenciá-los, por vezes de maneira irrefletida, perante toda a comunidade. O que dizem é verdade e ponto! Por esse e por outros motivos, ao invés da religião servir à construção de uma sociedade mais igualitária na qual prevaleça a tolerância, o amor ao próximo e a solidariedade, revela-se como um time de futebol ou partido político, impondo aos fiéis o dever de defender a religião contra qualquer um que em face dela se levante.

Todo esse movimento irrefletido, muito além de religioso, é exageradamente humano, no pior sentido que a expressão possa ter. Em que pese o núcleo norteador de cada uma das religiões, as quais, afastadas divergências acerca das escrituras sobre as quais se fundam, encontram inegável semelhança nos valores que pregam, a luta religiosa continua a existir e a finalidade última da adoção de uma religião fica mais difícil de ser atingida, pois o homem está cada vez mais mundano, preocupando-se com sentimentos que nada tem de universais.

Cabe àqueles que ainda não foram afetados por essa triste tendência revelar aos demais que qualquer religião deve voltar-se à realização do bem em prol do próximo. Não ousaria chamar religioso qualquer ato ou sentimento que atente contra o bem-estar de quem quer que seja. Não são poucos os exemplos que vi ao longo do ano que ora se finda de inúmeros católicos, espíritas, evangélicos etc., que cobiçaram os mais diversos bens alheios, que não amaram o próximo como a si mesmos, que simplesmente invejaram o sucesso do outro, que buscaram o prestígio pessoal em detrimento do bem-estar alheio, que desmereceram as conquistas alheias como forma de afirmar o valor de si mesmos, que preferiram condenar a desculpar etc.

Sempre tive enorme admiração pela época do Natal. Criado segundo os preceitos da religião católica, recebi lições de solidariedade, justiça e paz, mas poucas vezes vi os homens aplicarem esses ensinamentos em seus cotidianos. Era e é muito mais frequente vislumbrar o ato de julgar, numa atitude claramente intolerante. Noto que o Natal está cada vez mais mercantilizado, até mesmo por parte daqueles que não professam a fé católica. Muitos não acreditam no nascimento de Jesus, mas ainda assim, por conveniência social, entram no “espírito natalino” e passam a consumir a maior variedade de produtos, muitas vezes desprezíveis ou inúteis, apenas para “não deixarem passar em branco esse momento”.

Saibam que é exatamente esse comportamento que faz do Natal um momento sem qualquer sentido relevante, como deveria ter. Transformar o Natal no instante em que fazemos uma festa e trocamos presentes faz de um questionável elemento acessório o elemento principal.

O Natal, muito além de uma comemoração daqueles que professam a religião católica, traduz um momento de inegável espiritualidade. Devemos aproveitar esse instante para reviver e refletir aqueles ideais quase que unânimes a todas as religiões. Nosso dever, longe de comprar produtos e presentear parentes e amigos, reside na contemplação da força que decorre do maior milagre da vida humana: o nascimento! Crendo ou não no nascimento de Jesus, brindemos a beleza da vida que se vislumbra nesse milagroso ato. O Natal se transformou em uma festa de aniversário na qual nos esquecemos do aniversariante!

Ah sim! Há aqueles que não acreditam no nascimento de Jesus e, por isso, não comemoram a data, salvo através dos impulsos consumistas que se tornaram o elemento principal desse instante. Pois bem! Àqueles que não creem em Jesus como o filho de Deus, além de devotar meu integral respeito pela crença que professam, peço que, ao invés de simplesmente ingressarem no movimento que faz do Natal uma época de consumo, procedam a um momento de reflexão e revejam cada instante vivido ao longo do ano que se finda. Vislumbrem em suas ações aquilo que deve ser mantido e o que deve ser eliminado. Busquem em si mesmos o perdão àqueles sentimentos humanos que os fizeram alguém menor, como a inveja, a cobiça, o ódio etc.

Toda essa reflexão sugerida há de se apegar aos reais valores que cada um de nós encontra no cerne da religião professada. Mesmo aqueles que não professem qualquer religião, ao menos vislumbrem na dignidade da pessoa humana o valor central de nossa vida e de nossa sociedade, pois esse valor também pode ser considerado nuclear a qualquer crença, ainda que muitas delas sejam aplicadas de maneira contrária a tudo que possamos chamar de digno, o que é fruto desse triste desvirtuamento dos valores universais.

Permitam que os valores inerentes a todo e qualquer pensamento voltado à esperança, à fé, à caridade e ao amor estejam presentes ao longo de seus dias, pois só assim será possível apaziguar seus corações. “Fazer o bem sem ver a quem” é um dos modos mais profícuos de promovermos o que há de melhor na essência humana, na esteira do que fizeram aqueles que até hoje são lembrados como seres humanos solidários, justos e fraternos, independentemente da religião professada.

Façam de suas vidas um contínuo exercício de tolerância e perdão, deixando de lado os vícios da alma humana que tanto nos afastam da intensa energia emanada de tudo que se possa chamar de verdadeiramente divino. Olhem para o céu e, crendo em Deus, vejam a imensidão de tudo o que Ele criou. Não acreditando em Deus, constatem quão pequeno é o tamanho do homem perante as coisas do mundo e jamais se esqueçam que, ainda sendo tão diminuto, sempre será possível tomar atitudes de inegável grandeza em prol do próximo.

Agradeço o apoio e incentivo de todos aqueles que destinaram parte de seu tempo à leitura dos singelos textos que publico neste blog. Consigno meus sinceros votos de Feliz Natal e próspero Ano Novo, rogando a Deus pela saúde, paz e alegria de cada um de vocês. Que a misericórdia divina viabilize o aprimoramento de cada um de nós, afastando-nos dos vícios que fazem mal à nossa alma. Que a Providência nos dê a consciência necessária para praticar o bem, amando o próximo e compreendendo que nossa permanência neste mundo apenas se legitima através da semeadura de valores e sentimentos que sirvam à construção de uma sociedade mais livre, justa e solidária, na qual a tolerância e o respeito sejam a regra.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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