A greve dos motoristas de caminhões tanque

Não me valerei deste texto para discutir a fundo quais são os reais motivos da greve identificada em seu título. Não pretendo analisar se as razões dos motoristas são justas ou não; não quero me ater a mais essa postura do prefeito Gilberto Kassab, ainda que não possa deixar de antecipar um dado para reflexão, no sentido de que a medida me parece um daqueles “paliativos” típicos de políticos alinhados ao modo de Odorico Paraguaçu. O intento volta-se à repentina e falsa impressão de que as ruas de São Paulo foram milagrosamente desafogadas em ano eleitoral por uma medida do “prefeito vai e volta”.

Enfim, Kassab é problema dos eleitores e as pesquisas de satisfação já delineiam o que os paulistanos tem pensado acerca de sua administração. O que me importa neste texto é o “fato greve” como causa de um caos poucas vezes visto na cidade de São Paulo. Na noite desta 3ª feira (06.03.12) pude notar algo que não via desde a época da “inflação galopante”, quando os proprietários de veículos ficavam horas em filas para abastecer o tanque de seus carros com gasolina mais barata. Os postos de gasolina – claro que aqueles que ainda tinham um restinho de combustível em seus tanques de armazenamento – estavam absolutamente abarrotados de motoristas “sedentos” por alguns litros.

No trajeto feito entre o bairro do Alto da Boa Vista e a região do Parque do Ibirapuera a cena se repetiu em quase todos os postos. Eu mesmo testei esse estado de coisas. Observei um único posto do percurso sem nenhum carro na “fila de espera” e, curioso, indaguei o frentista a respeito do motivo dessa ausência. Obviamente, estava em um posto que já não tinha nenhum mililitro de combustível para saciar a “sede” de motores das máquinas que movem os homens na selva de pedra paulistana.

A propósito do cenário constatado, lembrei-me de um de meus autores prediletos. José Saramago, ao menos para aqueles que compreendem e admiram o estilo do autor, é o literato adequado ao delineamento de situações caóticas como a ocorrida na cidade de São Paulo. Lembremos obras como: “Ensaio sobre a cegueira”; “Ensaio sobre a lucidez”; “intermitências da morte”. Todas elas partem de uma situação inusitada que transforma a vida dos indivíduos e faz com que sejam obrigados a repensar a vida que levam. Saramago é imbatível na capacidade de construir e analisar o possível comportamento humano em condições caóticas.

Vislumbrar a preocupação causada pela escassez de combustível nos postos de gasolina aos cidadãos paulistanos é quase como viver, isto é, ser personagem em mais uma obra provinda do gênio de José Saramago. Dois aspectos básicos desse estado de coisas parecem de imprescindível análise. O primeiro diz respeito à “força” depositada nas mãos de motoristas de caminhões que transportam combustíveis; o segundo é causa do primeiro, consistindo no enorme valor e relação de dependência dos indivíduos em relação aos combustíveis.

Noto que os motoristas, ao procurarem de forma desesperada os postos de gasolina, agiram em respeito à preocupação mais egoística ligada aos fatos, qual seja, a possibilidade de ficarem com seus carros parados sem poder utilizá-los ao longo dos próximos dias. Ora, seria exigir muito do ser humano médio refletir sobre as consequências da falta de combustíveis em relação à continuidade de uma série de atividades muito mais necessárias do que o transporte individual de pessoas. Como nas obras de Saramago, o fato individual emerge imediatamente nessas situações caóticas.

A constatação da assustadora possibilidade de não poder sair com o próprio veículo no dia seguinte é algo imensamente preocupante ao “proprietário tradicional”. Mas imaginemos a aflição do motorista de taxi que depende de seu automóvel para ganhar seu sustento e, ao entrar em um posto de gasolina, depara-se com dezenas de outros motoristas, muitos dos quais proprietários de 3 ou 4 automóveis, sob a desculpa de que em São Paulo há rodízio. Ora, esse afortunado retira a chance do motorista de taxi buscar alguns litros de combustível para prosseguir com sua profissão e acaba demonstrando uma competição individualista e oculta que sempre emerge nesse estado de coisas.

Pensemos, também, no caos decorrente desses fatos em relação aos veículos verdadeiramente imprescindíveis ao equilíbrio e permanência da vida de nossa cidade. Afinal, viaturas de polícia, caminhões de bombeiro, ambulâncias, ônibus, serão afetados do mesmo modo que o particular. Claro que a imensa maioria dos motoristas se valerá da máxima “antes ele do que eu”; afinal, não ter gasolina no tanque do carro em uma cidade como São Paulo, ao menos na visão daqueles que tem o veículo no mesmo patamar de essencialidade do oxigênio, é quase a morte.

Todos esses fatos e parte dessas singelas reflexões demonstram uma única coisa. Somos quase que adestrados à dependência de alguns insumos e produtos. O condicionamento de uma cidade como São Paulo nos leva a crer na impossibilidade de levarmos uma vida desprovida, por exemplo, do automóvel, sem notarmos que também reside nessa dependência a inércia do poder público em relação ao desenvolvimento de meios eficazes de transporte coletivo. Esquecemos que não nascemos “motorizados” e que existem meios alternativos de locomoção, sobretudo àqueles que conseguiram concentrar sua vida pessoal e profissional em um raio de poucos quilômetros.

Por outro lado, não podemos ignorar que uma cidade como São Paulo, sem qualquer planejamento urbano, tem inúmeras distorções que somente podem ser equalizadas através do uso de meios de transporte, coletivos ou não, dependentes dos combustíveis tradicionais. Infelizmente, a grande São Paulo, com seus inúmeros municípios conurbados, ainda aparece como um conglomerado de “cidades dormitórios”. São poucos aqueles que poderiam fazer o trajeto entre a casa e o trabalho sem o auxílio de transporte individual ou coletivo.

Não ignoro nenhum desses pontos. Minha avaliação, contudo, dirige-se àqueles que conseguiram concentrar sua vida em um pequeno raio e, ainda assim, não lograram desvencilhar-se desse sentimento de dependência. Isso não é exclusividade dos veículos automotores. Observamos o mesmo fenômeno em relação à dependência desenvolvida com o uso do celular. Costumo dizer que, especificamente quanto ao celular, representa uma enorme “alforria” o poder que vislumbramos em virtude da possibilidade de apertar o botão “off”. Nesse instante, aparentemente nos desligamos de um mundo frenético e irrefletido e retomamos o aspecto mais humano de nossas vidas. Em rápidas palavras, deixamos o lado máquina e voltamos a respirar a atmosfera humana.

Como afirmado no início, este breve texto não pretende analisar politicamente os fatos que constituem seu objeto. Minha única intenção é demonstrar o comportamento humano em “situações de caos”, lembrando as obras daquele que, a meu ver, foi quem melhor definiu esses instantes. Saramago é o gênio desses momentos! Em “Ensaio sobre a cegueira” trouxe a lume o comportamento cego que temos, ainda que providos de visão; em “Ensaio sobre a lucidez”, faz uma crítica à concepção política que delineamos enquanto sociedade, questionando o afastamento da população em relação ao único elemento que viabiliza a política: a legitimidade, demonstrando que a “profissionalização” dos políticos lhes retira a preocupação com a verdadeira função que devem exercer; em “Intermitências da morte”, avalia o receio do homem em relação à certeza de seu fim e demonstra a importância do evento morte.

Talvez o caos observado com a falta de combustíveis em postos nos seja o caminho mais rápido à apreciação de nossa dependência, bem como à compreensão de que não nascemos motorizados e podemos nos adaptar de algum modo. Quando falamos em preservação ambiental, por exemplo, um dos pontos de inegável relevância reside na reflexão acerca de nossos hábitos, sendo certo que um deles é o uso ininterrupto de automóveis, mesmo quando nos dirigimos à padaria a poucos metros de nossas casas.

Trocando em miúdos, há instantes em que o caos pode nos ensinar muito. Feliz daquele que se vale dessa oportunidade para observar o grau de irracionalidade que imprimimos em nossas vidas. O hábito nos escraviza e o problema se agrava no seio de uma sociedade que tem por essência condicionar seus cidadãos. A mídia afasta cada vez mais o maior poder que temos enquanto seres humanos, consubstanciado na capacidade de reflexão. Para que não nos tornemos autômatos, urge refletir sobre tudo que admitimos como estritamente necessário, sob pena de exterminarmos nosso liberdade em prol de uma “pseudorracionalidade”.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor Universitário, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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