Chico Anysio e a perenidade de sua obra

Chico Anysio morreu aos 80 anos! Essa é a manchete com a qual me deparei na tarde deste 23 de março de 2012. Morrer…Está aí um verbo ao qual Chico Anysio está absolutamente imune. Como admitir que alguém que deu vida a mais de 200 personagens possa ser vitimado pela morte? Como atribuir tamanho poder à ceifadora de vidas deste plano terreno? Não me parece viável que uma única morte consiga levar centenas de indivíduos, cada qual com a sua personalidade que tanto lhe caracteriza. Não me soa razoável que à morte seja lícito retirar de nosso plano uma plêiade de indivíduos que, ao longo da vida de seu criador, acabaram por cultivar vida própria.

Salomé, Bozó, todos aqueles nordestinos, dezenas de religiosos, outros tantos voltados à caracterização dos inúmeros estilos que povoam a cultura nacional, habitando os lares das mais distintas famílias, mas sempre restritos aos mesmos tipos, os quais foram inigualavelmente captados e concebidos com extrema originalidade por um gênio chamado Francisco. Centenas de personagens, cada um deles focado em determinado contexto, reveladores de inúmeros fatos que, por mais que ensejassem o riso, tendo em vista a dose de humor de seu criador, jamais deixaram de denunciar as mazelas de nosso país e os temperos de cada uma de suas regiões, de cada uma de suas relações.

Chico Anysio, esse homem cujo nome, não o artístico, consta de uma certidão de óbito, foi capaz de alegrar as mais diversas gerações. Eu mesmo sou prova disso! Aprendi a apreciar a vida e obra desse gênio pelas mãos de meus avós. Não foram poucas as vezes que, na carinhosa companhia de todos eles, contemplei os programas advindos do gênio desse cearense. Quantas e quantas vezes acompanhei os episódios de programas “Anysianos” ao lado de meus pais e, posteriormente, na companhia de amigos, naquela fase em que a liberdade já nos concede a livre escolha e, por sabermos a qualidade de trabalhos como o desenvolvido por Chico Anysio, permanecemos espectadores fiéis desse grande brasileiro.

Um ser humano que dava constantemente lições a todos que acompanhavam sua carreira. Um humorista que não baseava sua obra no humor desprezível que hoje faz tanto sucesso. Um humor que se volta a um indivíduo como uma arma a um alvo. Com Chico era diferente! Ele não precisava desmerecer quem quer que fosse para subir o degrau da fama, pois o que o punha no ápice da escada dos humoristas era exatamente a forma humilde com que lidava com o fruto de sua genialidade, tal como fez Charles Chaplin. Chico Anysio não precisou bater em alguém para alcançar o reconhecimento do público, pois a satisfação de seus espectadores residia na singela forma com que criava seus personagens, traduzindo em cada um deles não o indivíduo “A” ou “B”, mas uma determinada classe, fosse ela profissional, socioeconômica, religiosa, de homens machistas ou de mulheres idosas.

Chico contribuiu com o desenvolvimento nacional a partir do acervo de sua mente genial. Buscou instigar a reflexão dos espectadores sem necessitar de qualquer instante de agressão. Nutriu-se de tudo que há de melhor em termos de cultura, não para sagrar-se um erudito, como muitos que se afastam do povo a partir da genialidade que se autoatribuem. Com Chico Anysio foi diferente!

Residia em sua simplicidade e na perspicácia de analisar as mais singelas relações humanas o grande mérito de suas criações. Chico foi um cronista que se valeu do humor como instrumento para passar alegria ao espectador, ainda que retratando tristes realidades da vida nacional. O humor lhe era algo fundamental, uma vez que se traduzia em profícua maneira de transmitir impressões e ensejar reflexões. Era por meio desse instrumento que Chico Anysio não encontrava qualquer barreira para entrar na casa de todo e qualquer brasileiro, alegrando a família com um humor inteligente que se mostra escasso na era do stand up apegado a piadas preconceituosas e agressões desmedidas.

Por todo esse legado, retomo o início desta breve mensagem para afirmar que nem à morte é possível apagar a trajetória de centenas de personagens criados por Chico Anysio. Infelizmente, o grande criador foi levado para o reino da Criação, sendo imperioso reconhecer o peso que nos trará sua ausência. Felizmente, contudo, a maneira pródiga com a qual concebeu tantos personagens infligirá, até mesmo à morte, a certeza de que jamais será viável retirar deste mundo terreno a vida de cada um deles. A obra de Chico Anysio sobrevive de maneira inabalável!

Que Deus receba de abraços abertos esse filho que nos deu tanta alegria! Que os formados na escola de Chico Anysio não se olvidem do exemplo de cultura e hombridade que esse artista brasileiro nos legou. Que os novos humoristas, tão acostumados aos aplausos de pequenas plateias em shows de formato stand up, compreendam que a maior genialidade está em fazer humor não a partir da vida de “A” ou “B”, mas por meio do processo criativo que colocava Chico Anysio em patamar distinto de todo aquele que pretenda se sagrar na arte de fazer rir e, sobretudo, a partir do riso, fazer refletir. A plateia de Chico o saúda com caloroso aplauso passível de ser ouvido e sentido em qualquer plano, na medida em que não se reduz ao encontro de duas mãos, mas recebe dose extra do coração de cada um dos que assim se comportam, num exercício sincero de extrema gratidão.

Salve Chico Anysio!

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor Universitário, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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Uma resposta

  1. Linda homenagem! O Chico Anysio deve estar muito feliz, afinal nos deixou um grande legado, assim merecedor de palavras tão doces e de grande valor.

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