Dostoiévski e a novela “Uma criatura dócil”: mais uma lição da mediocridade do “homem do subsolo”

Escrevi um texto neste blog sobre vaidade e orgulho tomando por base a obra de Dostoiévski, especialmente a exuberante novela “Memórias do subsolo”. O autor russo é conhecido por seus grandes romances, tais como “Crime e Castigo”, “O idiota” etc. Todos devem ser lidos, pois além de serem essenciais, ensinam muito acerca da essência humana. Por outro lado, suas novelas,  sempre rápidas e não menos geniais, tomam muitas das características desse “homem do subsolo” e prosseguem esmiuçando o universo psíquico desse grande personagem.

Dostoiévski consegue, como poucos, abordar os dramas internos de uma personalidade obsecada pela aprovação e, por conseguinte, preocupada com a forma como o mundo externo avalia sua conduta. Tudo gira em torno de personagens centrais que parecem querer controlar, na ânsia de um egocentrismo doentio, embora carente de autoestima, as diversas análises que cada conduta propicia em quem a observa.

O drama interior é a grande tônica da obra do autor. Basta lembrar as quase “convulsivas” crises de consciência do protagonista de “Crime e castigo” sempre buscando uma justificativa para seus deslizes. Há, constantemente, a apresentação de algo mais grave com a única intenção de amenizar aquilo que foi cometido, perpetrado.

Acabo de ler mais uma das novelas desse inexcedível gênio. Trata-se da curta novela “Uma criatura dócil”. Não me cabe tirar o prazer da leitura, mas apenas instigar o internauta que porventura se depare com este breve texto. “Uma criatura dócil” é mais uma oportunidade para nos deleitarmos com a narrativa de um “homem do subsolo”, agora em relação à forma como procura subjugar sua esposa e tenta esconder os fantasmas de seu passado.

Essa relação homem-mulher se apresenta rica, pois o silencioso comportamento da jovem esposa é capaz de criar as mais profundas amarguras no marido. Esse silêncio apavora e dá ensejo a uma série de “ciclos inventivos” que fazem com que o marido sofra e se sinta no controle da relação. O narrador apresenta a “certeza dos inseguros”, tentando afirmar-se a partir de uma leitura que apenas existe em sua individualidade doentia. Todo ato é ato em relação a si mesmo, assim como tudo que se passa no ambiente externo acaba por ser avaliado como ação voltada contra o narrador. Em outras palavras, a insignificância evidente é subvertida e adquire, como sói ocorrer em narrativas de “homens do subsolo”, ampla relevância.

Uma vez mais, o gigante russo das letras que transbordam inquietude nos traz aspectos evidentes que caracterizam boa parte da mediocridade humana. Vaidade e orgulho são elementos também presentes nessa novela, a demonstrar a influência que exercem na incapacidade humana de encarar francamente a realidade. Em menos de cem páginas, vislumbramos um conflito que procura subjulgar o outro, sem se dar conta que é exatamente a existência alheia que confere a “pseudoimportância” daquele que assume a posição de opressor. É o eterno embate que apenas aflora a insegurança humana, apresentada como fértil terreno para semear condutas vaidosas e orgulhosas.

Dostoiévski deve ser revisitado com maior frequência por grande parte dos indivíduos. Aliás, ele é a voz que deve lembrar a mediocridade dos comportamentos desprovidos de humildade, fundados na prepotência advinda da insegurança. Ele é o estalo que nos coloca em sintonia com a certeza de que o conhecimento é movido pela eterna dúvida e que a arrogância é a falsa certeza que nos joga para a infinita ignorância!

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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