PSDB: o dia seguinte à derrota em SP

Inicio este texto afirmando que não me dirijo àqueles que pretendam um debate emocional, advindo do passageiro instante da vitória. Passado o momento eleitoral, durante o qual um “tsunami de emoções” toma parte da sociedade civil, há muito a pensar em prol da democracia que pretendemos. A derrota tucana em SP, apesar de uma diferença de “acanhada expressão”, demonstra fatos que devem ser considerados pela Social Democracia, sob pena de restarem arrasadas quaisquer pretensões futuras.

É bom esclarecer que não me prendo à famigerada “política neoliberal” segundo a qual muitos avaliam os governos de FHC e, no mais das vezes, agem de maneira lamentavelmente reducionista. Penso, ao contrário, que o liberalismo não é o “bicho papão” pintado pela esquerda radical, nem o “caminho certo” pregado pela direita conservadora. A política de hoje há de humanizar o capitalismo. Eis a mais alta missão! Não me apego aos “órfãos do comunismo”, às “viúvas do socialismo” ou aos “intransigentes nazifascistas”.

Ouso afirmar que privatizações não implicam, necessariamente, o “famigerado neoliberalismo”, pois é inegável que tal opção ampliou o acesso de muitos cidadãos aos mais distintos recursos. Não tenho a menor dúvida acerca da incapacidade do Estado em relação ao desenvolvimento de políticas de inclusão em determinadas áreas, salvo quanto àquelas atinentes à saúde, educação, moradia etc. Por esse motivo, sinto falta de justificativas do PSDB em relação às críticas que lhe são dirigidas. Fez…pois que defenda e apresente as razões para ter feito! Calar ou omitir é caminho aberto à derrota!

Jamais me filiarei aos argumentos que simplificam essas questões. Assertivas que ignoram o “macro” e preferem se atentar a condutas, escondendo, propositalmente, paixões político-partidárias que apenas afetam a reflexão racional acerca dos fatos. Por outro lado, não nego que a Social Democracia está muito distante das propostas que ensejaram a fundação do PSDB. Talvez o maior equívoco tucano tenha sido aproximar-se, demasiadamente, da direita, olvidando-se das plataformas que motivaram o seu próprio surgimento. Triste a afirmação de FHC, ao assumir o governo, no sentido de que esquecessem o que ele havia escrito em sua trajetória acadêmica.

Assim, mais do que renovar, o PSDB precisa repensar-se. Não se trata de modificar seus anseios, mas de retomar aquilo que sempre foi defendido por tucanos históricos tais como André Franco Montoro e Mário Covas. O PSDB, ao longo de sua trajetória, desvinculou-se do “S” que contém em sua sigla. Tucanos, sempre agindo como “vaidosos intelectuais”, perderam-se na busca de um projeto sem a necessária dose de “humanização”. A política é a arte de conduzir o interesse público e, ainda que isso tenha sido levado em conta em muitos governos psdbistas, resta claro o desligamento do povo, o baixo apelo popular.

Fernando Henrique Cardoso – a quem atribuo o dever e a capacidade de tal “repensar” –  abordado enquanto se dirigia à seção eleitoral, afirmou que o PSDB precisa renovar suas ideias. Será que é o caso de renovar suas ideias ou de simplesmente resgatá-las? Resumo o futuro do PSDB em duas palavras: resgate e renovação. RESGATE dos ideais que propiciaram seu surgimento e RENOVAÇÃO de seus quadros.

Impõe-se a retomada de um posicionamento de centro esquerda, amenizando-se na teoria e na prática, ações de direita que apenas causaram crise de identidade. Renovação de seus quadros, pois a insistência de nomes desgastados lhe custará a perda de posições importantes à sua continuidade.

A eleição de SP é prova disso. Mais do que a vitória do programa político petista, venceu a eleição a rejeição ao candidato tucano e a herança do governo Kassab. José Serra, ainda que politicamente preparado – preparo este que lhe garantiu a candidatura nas prévias – não tem a aprovação popular necessária à vitória em eleição de tal porte.

Ainda que tendo sido o mais votado no 1º turno, Serra não se firma em cenários mais estreitos, como o 2º turno com Haddad. O resultado obtido nas urnas, porém, com mais de 40% das intenções de votos válidos, deve ser considerado pelo PSDB como um bom sinal. Afinal, em pese a referida insistência e a ineficiência da administração de Kassab, a população ainda vê a sigla tucana como uma opção.

O embate PT X PSDB no 1º turno permitiu a inaceitável projeção de Russomanno. Felizmente, ao final da apuração do turno inicial notou-se que a candidatura do referido candidato não se manteve como o esperado. Esse eterno embate, essa “bipolarização da política”, pode nos trazer prejuízos inestimáveis. Em virtude dessa “birra” entre tucanos e petistas, quase foi levado ao 2º turno um político que, a meu ver, não tem o menor preparo para administrar a maior cidade do país. Era apenas visto por parte dos eleitores como o novo! Novo? Em quê? É produto de políticas ultrapassadas! Basta ver sua trajetória.

Independentemente de partido ou filiação partidária, sustento que a vitória, ao menos para a cidade de SP, foi a presença de dois políticos respeitáveis no 2º turno. Há restrições em relação a ambos, mas seria pior a presença de Russomanno, a partir de um “racha” absurdo entre dois partidos com trajetória na política nacional. Nesse contexto, interessante lembrar que PT e PSDB brigaram pelo apoio de Kassab e, nessa época, afirmei que a herança do atual prefeito seria o sepultamento de qualquer candidato que dele se aproximasse.

Em vista da candidatura de Serra, Kassab apoiou o PSDB. Outro erro tucano, por mais que ele tenha sido o sucessor de Serra na prefeitura. Melhor para o PT que, ainda que ao lado de Maluf, sagrou-se vencedor com um candidato cuja imagem não apresentava a rejeição da opção psdbista. Triste notar, porém, que Kassab é cortejado pelo governo federal do PT e, certa e brevemente, será “presenteado” com algum ministério importante.

Será que esse é o caminho? Será que a militância petista gritará com a força de sempre quando esse projeto se efetivar? O “higienista paulistano” será bem recebido nos braços do PT, ou sofrerá as mesmas restrições que o partido do governo federal lhe destinou nas eleições municipais de SP? Espero coerência de parte daqueles que se dizem a favor do social! Kassab não pode ou, não deveria, ser bem recebido no governo federal, por tudo que fez em SP.

Ao PSDB, todavia, fica uma lição e uma missão. A lição é a derrota da insistência em nomes desgastados. A missão se consubstancia na retomada dos verdadeiros ideais da social democracia e na renovação de seus quadros, apagando a “fogueira de vaidades”, “baixando a cauda de inúmeros pavões-tucanos”, a fim de que energia nova surja. Afinal, a Social Democracia, teoricamente concebida, ainda é uma das mais profícuas ideologias políticas, cujos traços são claramente perceptíveis nos governos de Lula e Dilma. O PT soube se adequar para, em 2003, sagrar-se vencedor nas eleições presidenciais. O PSDB, porém, ficou refém de seus históricos caciques, preso a questões de vaidade que inviabilizaram até mesmo uma oposição respeitável.

A cogitada aliança PSB-PSDB para 2014 pode ser uma via de acesso. Porém, impõe-se a correta e prudente avaliação dos resultados das eleições municipais de 2012. Não dá para errar de novo! A democracia brasileira perderá muito com a redução da ideologia tucana dentre aquelas representadas por partidos como DEM e PSD.

Falta coragem ao PSDB para resgatar sua ideologia e renovar seus quadros, até porque os avanços sociais e econômicos, com adensamento da classe média, pedem ajustes típicos da social democracia, evitando-se a continuidade da triste “esmola institucional” que nada cobra em troca daqueles que a recebem. Redistribuir sim…desde que se promova a igualdade material e se cobre uma atitude empreendedora de parte dos beneficiados.

Nessa trajetória, tucanos renomados ficarão nos bastidores em prol da continuidade da real ideologia social democrática. Será que há desprendimento suficiente para isso? Espero que sim, pois há jovens e competentes quadros no interior da Social Democracia Brasileira para assumir os desafios que a política brasileira apresenta.

Falta ao PSDB destemor para lançar um nome que se mostre capaz de sensibilizar aqueles que mais precisam do auxílio do Estado, sem causar receio aos que se dedicam à iniciativa privada. Isto é social democracia! Uma aliança entre todos os setores sociais e econômicos, a fim de que seja executado um projeto político que, à margem do “populismo barato” que se apega à figura do “pai dos pobres”, apresente-se como alternativa para conduzir o Brasil aos degraus mais elevados da democracia.

Sinto falta de um nome que não simbolize “aversão ao popular” e, ao mesmo tempo, consiga trazer para o lado do Estado os setores produtivos. Esse papel, não há como negar, foi exercido pelo governo Lula, sobretudo com a aliança que permitiu José Alencar como vice de sua chapa.

Trata-se disso! A Social Democracia precisa ser popular sem ser populista e ser desenvolvimentista sem implicar aliança com pretensões conservadoras que afetem o crescimento social. Há espaço para o ressurgimento da social democracia como ideologia forte e capaz de levar o país a patamares mais elevados de desenvolvimento econômico e social. Enquanto a própria sigla não nota esse vácuo, outros partidos se apropriam desse espaço e angariam eleitores tucanos que se apresentam carentes daquele PSDB histórico de Montoro e Covas.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor Universitário, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

 

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