José Saramago: a eterna reflexão sobre a vida humana

José Saramago ocupa posição de destaquesaramago dentre meus autores prediletos. Por mais que muitos leitores estranhem a maneira “ininterrupta” de escrever escolhida pelo mestre português, não demora muito para que o prazer da leitura nos traga o conforto com esse estilo próprio, para não dizer único.

Ainda que o estilo de Saramago não seja uma unanimidade, creio que ninguém discordará que suas obras são objeto de profunda reflexão. A maior parte de seus livros, senão a totalidade, nos leva a refletir sobre a existência. Basta lembrar de alguns títulos e já será possível constatar esse fato. “Ensaio sobre a cegueira”, “Ensaio sobre a Lucidez”, “Intermitências da morte”, “O evangelho segundo Jesus Cristo”, entre tantos outros, apresentam aspectos da vida humana que merecem reflexão vertical.

Não quero escrever sobre nenhuma das obras acima referidas. Todas têm o brilho próprio do autor. Porém, permito-me tomar por objeto deste breve comentário o livro “A Caverna”. Nele, Saramago faz uma clara crítica ao “lado consumista” da vida humana. Por meio de diversas imagens, constrói com clareza o cerceamento que a compulsão por consumir impõe aos seres humanos. Aponta, com argúcia, os aspectos do consumismo desenfreado que nos colocam reféns do mercado. Mostra, ao final, que a vida humana, por mais difícil que possa parecer, não está atrelada a esses pontos que tanto escravizam a sociedade hodierna.

Jamais cometeria a indelicadeza de contar o enredo do livro, sobretudo o belo final. Minha ideia é apenas motivar a leitura por parte dos amigos e amigas que tiverem interesse em gastar alguns minutos neste texto. Assim, cabe-me afirmar que os protagonistas são indivíduos humildes, artesãos que ganham a vida com a venda de materiais produzidos em “olaria familiar”.  Comercializam louças com um grande “Centro” de comércio que lhes retira a possibilidade de manter relações comerciais com outros consumidores. O mito da “exclusividade”.

Esse “Centro”, cujo delineamento dá clara demonstração de que se trata de um ambiente que oprime a liberdade e a individualidade, impondo padrões irrefletidos, passa a ser visto como um elemento fundamental à manutenção da vida. Todos querem morar no Centro ou com ele manter relações. Há quem opte por residir em cubículos sem luz natural apenas para estar nesse “espaço especial”. Isso me lembra determinado Shopping da cidade de São Paulo, localizado em meio a grandes torres residenciais. Qual é a maravilha de viver ao lado, dentro ou tão perto de um Shopping? Sinceramente, deconheço!

As sensações mais naturais da vida humana são produzidas artificialmente no interior do “Centro”. Chuva, sol, vento, são forjados em salas, enquanto indivíduos se deliciam, como se jamais tivessem tido contato com algo parecido. Há clara demonstração da ignorância que o consumismo traz. Algo na linha do “como não tenho um celular x, y ou z”; “como meu carro não liga sem que eu precise estar dentro dele”; “como vivo em uma casa cujas luzes não podem ser acessas do meu trabalho”. São indagações oriundas de propagandas que apenas nos induzem a consumir e nos impedem de refletir.

Por todas essas razões e, abstendo-me de contar mais desse belo livro, sugiro a leitura dessa obra de Saramago. Aliás, José Saramago merece ser lido e relido. Assim, mesmo para os que já leram, fica a sugestão de uma releitura. Afinal, como já ensinava Nelson Rodrigues – ao que me permito adaptar a expressão do mestre com minhas singelas palavras – a releitura é ainda mais importante do que a leitura em si.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor Universitário, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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