Escola: um espaço que não deve dar margem ao autoritarismo!

ProfessorA educação é um fenômeno que conta com dois polos. Um deles é ocupado pelos professores e o outro pelos alunos. Ambos sempre aprendem! Os alunos se deparam com o conteúdo transmitido pelo mestre. O professor aprende a ensinar e tem a certeza de que essa missão se confunde com um eterno aprender.

A docência é uma arte que alguns podem nascer com certa tendência, mas que não fecha suas portas àqueles que queiram dar os primeiros passos. É preciso seriedade e disciplina, mas, sobretudo humildade! Muitas vezes, sobretudo nas faculdades de Direito, deparamo-nos com professores que confundem educação e autoritarismo. A vaidade e o orgulho, trazidos, no mais das vezes, das vitórias profissionais que esses docentes alcançaram, acabam por transformar “facilitadores do aprendizado” em verdadeiros ditadores.

A Ciência Jurídica traz, em alguma medida, certa disciplina e formalismo aos operadores do direito. Porém, ensinar uma matéria jurídica não pode prescindir dessa clara constatação. Um professor de graduação, na maior parte das vezes defrontado com jovens na faixa de 20 anos, não pode iniciar suas atividades sem avaliar a realidade de seus alunos. Em suma, deve ser capaz de se despir de seu fator etário e de seu brilhantismo intelectual, abrir mão de entraves entre as gerações e, com humildade suprema (muitas vezes absoluta abnegação!) entregar-se ao ensino.

Venho de uma família de professores. Meu avô foi delegado de ensino e advogado. Dentre muitas das ideias que pregava, expunha que para existir aprendizado, o aluno deve ser alguém que esteja de bem consigo mesmo. A tarefa do professor, seja em um colégio ou numa faculdade, passa por apresentar aos alunos caminhos para uma vida melhor, com mais instrução. Educação é poder para os que a recebem! Passa por entender os dilemas da geração de discentes que se encontra à sua frente.

Ensinar está cada vez mais difícil, devo admitir. Afinal, atualmente os alunos têm inúmeros elementos propiciadores de dispersão. Um simples telefone celular coloca o mundo nas mãos do aprendiz. Se o professor não conseguir chamar a atenção para a matéria, certamente será derrotado pelos meios modernos de comunicação ou pelo “bom e velho” cochilo em sala de aula. Uma estratégia/desafio é diminuir o tempo de aula sem perder a qualidade e o conteúdo. Está provado que as gerações atuais têm dificuldade de concentração por períodos superiores a 60 ou 70 minutos (olha que estou alargando a média!).

Noto, sobretudo por parte de professores mais velhos e, por isso, com maior conhecimento, certa dificuldade para admitir situações que podem não ser tão absurdas como parecem. Ainda existem aqueles que não admitem aluno com boné em sala de aula, e, pior, os que pretendem cerrar as portas da sala de aula para que os atrasados não possam entrar e os presentes não possam sair. Isso é o mesmo que se declarar derrotado na missão de ensinar!

Essa atitude, longe de se mostrar “disciplinadora”, impõe verdadeira e irreparável sanção aos alunos. Confunde autoridade com autoritarismo. Autoridade se conquista através de legitimidade e, para um professor, a legitimidade surge por meio da qualidade de suas aulas, do respeito destinado aos alunos e do eterno exercício da tolerância. Paulo Freire sempre falou disso! Não apenas nesse sentido, escreveu um livro sobre a “pedagogia da tolerância”.

Para todo e qualquer orador, seja professor ou palestrante, impõe-se conhecer seu público. O que pensam? Quais são os valores? Sem essa reflexão, dificilmente os discentes destinarão atenção às aulas. Um exemplo: se o caso implica ministrar uma palestra a juízes,  promotores e advogados, a maior parte dos exemplos dados em sala serão aqueles técnicos da vida forense com um humor sutil. Já se estivermos falando de alunos de graduação em direito (que é minha área!), os quais estão quase sempre na faixa dos 20 anos, esses exemplos e esse humor refinado sequer serão compreendidos. Precisa-se de algo mais real à vida dos alunos!

A falta de adequação entre o professor e o público alvo gera conflitos. O professor não pode esquecer do tempo em que era aluno de graduação. Não pode querer que os alunos tenham a maturidade que ele apenas atingiu com o tempo, ainda que já tenha um histórico de maturação precoce. Tem a obrigação de promover, por todos os meios possíveis, o amadurecimento da turma à qual ministra suas aulas. Para isso, não é necessário “avacalhar” o ensino tratando os alunos como ignorantes e deixando de transmitir, com profunda seriedade, a matéria que lhe cabe. Esse ajuste de convívio se impõe sem prejuízo do conteúdo programático.

Se o professor entra em sala de aula menosprezando seu público, o qual está ali e, só por isso, acaba por prestigiá-lo e com ele aprender, não tenham a menor dúvida de que os alunos também menosprezarão o professor. Esse comportamento do mestre está distante da humildade necessária. Por outro lado, se o professor se mostrar aberto e sinceramente preocupado em entender a realidade dos alunos e transmitir a matéria, o cenário será muito mais prolífico.

Nos casos mais extremos, quando os alunos simplesmente ignoram a “disciplina mínima” para que o professor ministre suas aulas, mais do que impor castigos, deve-se tentar atuar de forma pacífica. Exemplo: deixar a sala de aula afirmando que não há condições de ensino e afirmando que os alunos deverão “correr atrás” da matéria, pois está dada. A legitimidade passa pela atitude de demonstrar a importante função do professor e não seu poder de punição. O temor é antipedagógico!

Enfim, estas são breves reflexões, a fim de que as escolas e faculdades não se tornem presídios. O ambiente de aprendizado jamais poderá se dar sem uma boa dose de liberdade. A autoridade que garante a disciplina deve buscar sua força nessa legitimidade que decorre do reconhecimento de sua atribuição e qualidade, sem que isso implique “dores de ego” decorrentes de vaidade e orgulho! Até porque, numa sala em que há um único professor e dezenas de alunos, declarar guerra é o caminho mais curto para a derrota da missão docente! Professor eficiente nunca é esquecido e, ainda que seja desrespeitado, sempre haverá um aluno para defendê-lo, pois, ao menos para este, acabou por conquistar legitimidade!

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor Universitário, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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