O chopp de FHC na Sapucaí e o falso moralismo!

FHC carnavalO carnaval é um traço da cultura nacional. Mais…É um patrimônio do Brasil! Claro que o “apartheid” dos sambódromos é reflexo da mercantilização do folclore nacional. Sou a favor de “todo mundo junto e misturado”. Quem gosta de samba, gosta do povo, pois é o povo que ensaia o carnaval o ano inteiro. São milhares de indivíduos que se entregam de corpo e alma à preparação desse evento, chova ou faça sol.

Não é incomum os jornalistas encontrarem foliões político. Fernando Henrique Cardoso foi um deles durante o desfile do Salgueiro na Sapucaí. Outros políticos mais jovens, tais como Sérgio Cabral, Eduardo Paes e Aécio Neves também são peças essenciais ao carnaval carioca. Não dá para pensar um político que almeje o Planalto ou qualquer cargo nesta federação tupiniquim que simplesmente abomine o carnaval. Abominar o carnaval é abominar a cultura nacional!

Claro que todos temos nossas preferências. Eu, por exemplo, adoro as marchinhas que fizeram minha infância, mas não deixo de apreciar o espetáculo do carnaval carioca, paulista e do bom frevo pernambucano. Afinal, a festa de Momo é um instante em que todos nos fraternizamos. É um momento em que não temos ou não deveríamos ter cargos ou condição socioeconômica. Trata-se de um marco na história nacional!

Quem vai a um sambódromo não está ali para ser exemplo de pureza e sobriedade. Pode sim tomar uma cervejinha e cantar o samba enredo das escolas. Pode ter paixões que trazem da infância. Mangueira e Portela são exemplos de escolas que, mais do que agremiações, são Nações, Comunidades que promovem os velhos encontros da “velha guarda”. Vila Isabel teve Noel Rosa e Martinho da Vila! Não dá para passar batido por isso.

Fernando Henrique Cardoso, entrevistado como dito acima, teve um copo de chopp (acredito!) sumariamente retirado por algum “assessor”. Que raio de assessor é esse? Aparecer na TV com 80 anos de idade, ostentando a eterna posição de presidente, impede que apreciemos um chopp? Que falso moralismo é esse? Será que um “Barão de Higienópolis” achou popular demais FHC com um chopp na mão na grade da Sapucaí? Eu adorei! Ele é gente como a gente!

Como “bom folião”, não acho nada demais. Aliás, jamais vi FHC alterado na condução do país. Ao contrário de outros que passaram pelo Planalto. Para não cogitar da passagem de Lula (evitando polêmicas!), lembro-me de Jânio Quadros que, segundo contam, ao revisitar a Faculdade de Direito do Largo São Francisco foi chamado por um “bedel” pelo apelido, um “tanto etílico”, que tinha ao tempo da graduação. Ainda assim, fora as doideiras moralistas de Jânio, ele era desprezível? Não me parece! Filólogo de primeira! O que abomino na figura de Jânio é o falso moralismo e o populismo que norteou, entre outros, o governo Lula.

Mais do que a imprensa que deu esse furo de reportagem, e do que FHC que não se acanhou com o copo na mão, o que deve ficar para reflexão é o posicionamento do tal assessor. Transparência já! Kennedy, nos EUA, jamais foi um símbolo de sobriedade e nem por isso deixou de fazer um bom governo. Aliás, o ex-presidente americano, segundo consta, foi assassinado por poderosos que contrariou ao longo de seu governo.

Político, assim como qualquer cidadão, ao menos numa democracia, deve ser um representante do povo. Saber ser popular sem ser populista! É claro que há limites legais para a bebida, mas não me parece que o copinho de FHC fosse um exemplo tão diabólico como pareceu ao assessor que lhe retirou a “água que passarinho não bebe” das mãos. Creio que o assessor, em vista da atitude ridícula, estava pior do que o ex-presidente. Ele sim devia estar mal!

O país precisa de homens preparados e não de moralistas ou, pior, de falsos moralistas! A democracia se faz entre humanos e para humanos. Boa parte dos nomes cultuados na política e no direito gostam da “marvada”. Se esse hábito não atrapalhar a condução das atribuições funcionais, o que há de mal? Tem hora para tudo, não?

Oportuno mencionar que roda na internet um vídeo em que Aécio estaria embriagado nas noites cariocas. Ainda que não fique claro se tratar do senador mineiro, o que pretendem fazer com isso? Negar o progresso que Aécio promoveu em Minas Gerais? Resgatar o falso moralismo e confundir eficiência com a retidão da vida pessoal? Perdoem-me se pareço extrapolar as raias da racionalidade, porém, creio que o Brasil precisa de líderes reais e não construídos por marqueteiros.

A biografia de Getúlio tem inúmeras passagens nas quais os convidados do Presidente se dirigiam à Biblioteca do Catete para fumar cigarros e charutos e beber um licor (sabemos que não ficava só no licor!). Isso desfaz a imagem de Getúlio como político? Não! O que deve servir de crítica é a imposição do Estado Novo, por meio de uma ditadura que não poupou ninguém, ainda que nada tivessem a ver com a política de esquerda que o Plano Cohen buscou rechaçar. O Getulismo, com o famigerado populismo, implicou inúmeras injustiças! São esses os atos que contam!

Para comentar uma questão ainda mais direta, devo lembrar o caso de Aécio Neves na Blitz da Lei Seca no RJ. Certamente o fato será relembrado durante a futura campanha presidencial de 2014. Aécio, no final das contas, foi penalizado, pois dirigia com a CNH vencida. Com base nisso e na recusa de passar pelo bafômetro, muitos especulam que o político mineiro dirigia após beber. Essa certeza ninguém pode ter! Aécio foi sancionado porque estava com a CNH vencida. Quanto ao bafômetro, ao menos naquela época, era essencial à comprovação da embriaguez do condutor e, como sabemos, ninguém é obrigado a produzir prova contra si.

É claro que o exemplo de Aécio, ao dirigir com a CNH vencida, é absolutamente censurável. Demonstra um descuido, mas jamais pode servir à afirmação de que o senador estava embriagado ao volante. Aécio era um condutor inabilitado e, assim, pediu que um taxista conduzisse seu veículo. Foi isso! Num país como o Brasil, a conduta do senador foi irreparável. Afinal, quantos teriam tentado se valer da condição política para afrontar a autoridade dos fiscais da blitz? Isso, ao que consta, Aécio não fez!

Enfim, a lei é para todos. Sempre que alguém a infringe, deve responder como qualquer cidadão. Seja um jovem advogado como eu, seja um senador como Aécio. Agora, confundir isso com o falso moralismo reinante na era do “politicamente correto” é absurdo! Se a campanha de 2014 entrar por essas vias, Lula não sobrará incólume como querem e, talvez, José Serra se torne o auge da sobriedade, com suas tentativas frustradas de se popularizar em cima de um skate (isso é deprimente!)! Alguém quer isso? Prefiro a novidade! Prefiro Aécio!

Este país precisa encarar os fatos como são. Precisa deixar aquela velha história do sr. da Casagrande que adorava visitar a Senzala. Aquele tempo em que existiam “falsos santos da moral” que, no ambiente calado de suas casas, perpetravam barbaridades. Vejam a Igreja Católica e os casos de pedofilia. É isso que queremos? Parece-me que o caminho para a democracia é o da transparência e não o do falso moralismo e do autoritarismo.

Para aqueles que lerem este texto e, em razão de paixões não perceberem meu intuito, afirmo que sou a favor da lei seca e, por exemplo, contrário à legalização da maconha no estágio em que estamos. Essa posição, porém, não me impede de defender a derrocada do falso moralismo que apenas afasta a lei da sociedade e dá ensejo a normas como a “Lei Myrian Rios” que já comentei aqui.

Quero homens responsáveis à frente de nosso país. Mais isso não impede a figura de um namorador ou de um ex-presidente que toma seu chopp acompanhando o desfile do Salgueiro. Pontífice só no Vaticano, com as escrituras milenares! Lá sim a moral se impõe, pois, do contrário, estará acabada a tradição de uma religião cujos “legisladores” já se foram há muito tempo.

Assim, combinemos: política com transparência, ok? Se o chopp de FHC é motivo de repreensão, o que faremos do país da cerveja? Vamos policiar os bares para servir apenas água benta? Pelo amor de Deus!  Temos preocupações maiores para construir uma verdadeira democracia com liberdade e bem-estar social!

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor Universitário, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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