A religião e seu “desvio de função”

ImagemA religião tem sido tema frequente de reflexões por parte de diversos setores da sociedade.  Os temas religiosos ganham espaço na mídia a partir dos conflitos surgidos a partir de seus dogmas. A assunção da presidência da comissão de direitos humanos da Câmara Federal por parte do Deputado Marco Feliciano apenas reforçou os debates acerca dos mais diversos temas, sobretudo aqueles ligados à união homossexual (ou homoafetiva), ao aborto etc. Aspectos que rivalizam correntes conservadoras e liberais-progressistas, sendo certo que ambas merecem respeito, ao contrário do que muitos fazem.

Perece-me, contudo, que a religião deixou de ser aquilo que, em tese, deveria ser. A meu ver, a religião deveria cumprir um papel relevante – verdadeira função social – à existência humana. Afinal, buscamos nas doutrinas religiosas uma resposta em grande parte filosófica sobre os dilemas humanos que não podemos explicar. Vida, morte, moral, angústia, dor, são alguns dos elementos que poderiam encontrar vazão no curso dos diversos rios da teologia.

Sempre defendi que o estudo religioso, desde que bem compreendido e empreendido por seres humanos pensantes, não leva a outra conduta senão à reflexão filosófica. Religião, segundo minha modesta visão, implica retiro sem o qual o equilíbrio espiritual não se mostra viável. Jamais compreendi o fenômeno religioso como mera “muleta” para aqueles que sofrem e, sem esperança, buscam curar sua dor nos diversos credos. Penso a religião como forma de pensamento que, no mais das vezes, traz a angústia de nos sabermos carentes das características atribuídas às divindades, tais como: onipresença, onisciência e onipotência. A religião, cuja etimologia nos remete ao “religar”, procura uma resposta aos dilemas humanos e, para que elas se mostrem viáveis, impõe-se encara-los, tarefa por vezes árdua e sofrida.

Mas o que pretendo com este texto? Simples! Quero demonstrar que a religião está “desfocada”. Perdeu o rumo que lhe seria natural. Ocupou espaços que já deveriam ter sido conferidos ao Estado, à educação e à instrução. Encontrou na inércia do Poder a brecha necessária para se perpetuar, não como filosofia ou doutrina, mas sim como instituição excessivamente humana. Deixou de trazer à baila a importância do retiro e da reflexão e se transformou naquilo que de nada serve, isto é, na moda dos cultos repletos de espetáculo e sensacionalismo, sem essência real.

Esse fenômeno não é nacional. Os conflitos do Oriente Médio apenas apresentam quão humana se tornou a dimensão religiosa. Homens se matam em busca da afirmação de sua crença, como se essa fosse a real função da religião; VENCER! Confundem a razão emanada da reflexão com a paixão proveniente de uma divisão que despreza o Estado laico e busca impor quem tem mais força.

Felizmente, o Brasil não chega a tais extremos, mas também conta com essa dicotomia que apenas atesta nossa primariedade em termos de liberdade de crença. A forma como progressistas combatem a religião e a maneira como religiosos atacam os liberais-progressistas, seja por meio de protestos, seja através de discursos deploráveis na mídia, atestam essa realidade.

A religião, esta é a realidade, está muito humana. Institucionalizou-se nos mais diversos tipos de igrejas e conferiu poderes desmedidos a líderes que buscam popularidade e não a efetiva construção do aspecto espiritual que tanta falta faz aos seres humanos. Parte disso se reflete na “mercantilização dos credos”. Templos faraônicos são criados e explorados comercialmente. Esse também não é fenômeno atual, basta notar a passagem em que Jesus expulsa os comerciantes do templo. Todavia, é inegável o forte aumento dessa realidade no mundo hodierno. Para constatar essa realidade, basta visitar a Catedral de Nossa Senhora Aparecida que, como católico, visitei e notei o desvirtuamento afirmado.

Líderes religiosos não pensam duas vezes em aumentar o número de fiéis, ainda que isso se dê em detrimento de valores básicos à construção de uma sociedade livre e democrática. Tornaram-se lideranças políticas que buscam, como podem, retomar o poder estatal que lhes impôs certo afastamento. Pior, fazem isso a partir de um pensamento absolutamente deturpado daquilo que se deve entender por religião. Partidarizam a divindade e vendem verdades jamais ditas ou escritas.

Nessa busca infinda de poder, a religião incorpora o que há de mais desprezível no ser humano. Atua de maneira gananciosa, em franca oposição a tudo aquilo que deveria considerar em seus misteres. Divide o mundo entre os que são fiéis e os que não compartilham a mesma crença, como se não merecessem o respeito que se deve dar a todo ser humano.

Nesse jogo de poder, perdemos todos. Sobretudo por ser inegável o desvio de função das religiões. O braço que poderia contribuir à compreensão da existência humana presta-se a rivalizar com o Poder constituído, colocando em pauta temas impertinentes à formação de um Estado Democrático. A opinião religiosa deve ser ouvida, mas, para que isso ocorra, precisa ser proferida no ambiente democrático, jamais através da imposição de lideranças que apenas provam a constatada deturpação. Uma pena!

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e da Faculdade de Direito da Universidade Paulista, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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