A ânsia e o tempo…

OcupadoHá um dado da juventude – e não apenas dessa fase – que é muito claro: a ansiedade! Dificilmente nos deparamos com jovens pacientes, calmos em relação às suas pretensões. Querem tudo para já, sobretudo quando inseridos numa sociedade em que o tempo é “agora”. Esse não é um reflexo da era da internet e das redes sociais. É característica da juventude. Eu mesmo, que já ultrapassei a linha dos 30, muitas vezes me pego angustiado pelo tempo das coisas que não acompanham a ânsia de realizar meus projetos.

Olhando para a trajetória que fizemos, desde que não tenhamos permanecido inertes, vislumbramos os avanços que nossas atitudes propiciaram em nossas vidas. A questão, porém, é que a juventude conhece para-brisa, mas apenas o tempo nos mostra a importância do retrovisor! É absolutamente natural que o jovem, como a criança, mire o destino e não o caminho percorrido. Aliás, é bom que assim seja, pois “quem vive de passado é museu”.

Porém, há um tempo natural para tudo! Nem tudo, ou quase nada, é para ontem! A vida nos demonstra caminhos que merecem atenção ao serem percorridos e que, muito mais do que nossos destinos, ensinam-nos a compreender a importância desse amadurecimento constante. O conflito de gerações também decorre desse fato. Afinal, pais olham a vida de seus filhos cientes daquilo que já percorreram. Filhos olham a vida de seus pais como se ela fosse um marasmo, a mesmice de tudo que não querem.

Na adolescência, refutamos os ensinamentos que promanam de nossos ascendentes. Atribuímos um certo “ranço” a tudo que nos dizem, ainda que muitos dos conselhos sejam perfeitamente aplicáveis, às vezes como atalhos, à nossa existência. Contudo, a natureza humana pede esse conflito geracional, sob pena de estagnar a evolução natural.

As recentes manifestações demonstram muitos aspectos no campo político. Comentei boa parte deles em textos já publicados neste blog. Porém, gostaria de me ater a essa tal questão “da ânsia e do tempo”. No afã da busca de realizações, esquecemos do papel que o tempo exerce enquanto colocamos algo para cozinhar. Um simples feijão não fica pronto de uma hora para outra. Demanda tempo! Da mesma forma, um cidadão, um jurista, um engenheiro e um médico jamais serão forjados em poucos dias de estudo.

A vida humana é uma evolução que deve encontrar a certeza, em nossas mentes, de que tudo tem seu tempo. É claro que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, ou que, “está provado, quem espera nunca alcança”. Esses trechos de Geraldo Vandré e Chico Buarque não ignoram o tempo; apenas afastam a inércia.

O tempo não é acessório que excluímos de acordo com nossa vontade. É pressuposto da existência e não pode ser ignorado, sob pena de cairmos em profunda desilusão. Por essas razões, assim como um livro apenas se conclui com o traçar das letras no papel, a vida se conclui com as atitudes diárias que fazem parte de um grande processo evolutivo. Não adianta procurar, em vão, atalhos, muitos dos quais perigosos. Não forjamos um ser por meios tecnológicos. Nessa luta diária, o preparo, o estudo e a paciência – jamais a inércia – são componentes inexoráveis.

Assim, por mais aflitivo que isso possa parecer, saibamos a importância do tempo para “cozinhar nossos projetos” e a relevância que cada instante tem na construção de nossa personalidade. Ansiar por algo é positivo, desde que a “ânsia fumegante” não encontre um “balde de água fria” naquilo que o tempo natural das coisas representa em nossas vidas.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e da Faculdade de Direito da Universidade Paulista, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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Uma resposta

  1. Texto admirável!!!Puro ,verdadeiro….Com toda certeza só com a experiência dos ¨janeiros¨da vida é que reconhecemos tal fato!
    Zita

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