A república de Aécio Neves

Aécio Neves Leblon

Aécio Neves é um nome conhecido para a corrida presidencial de 2014. O político e senador mineiro jamais escondeu sua intenção de chegar ao Planalto, ainda que nunca tenha feito desse objetivo – ao menos declaradamente ou, à moda de José Serra – um desejo pessoal inafastável. Diferente de José Serra, Aécio foi forjado nas lições da política mineira. Sabe articular e evita desgastes desnecessários.

A recente ascensão à presidência do PSDB concedeu a Aécio a chance de falar não apenas como líder da sigla, mas também como possível – provável – candidato à presidência. Antes mesmo de presidir o PSDB, Aécio já era conduzido por FHC aos círculos de empresários e intelectuais, muitos deles ligados à equipe econômica do governo do ex-presidente.

Agrada-me a habilidade política de Aécio Neves e sua inegável experiência no Legislativo e no Executivo. A presidência da Câmara dos Deputados demonstrou o estilo conciliador que conhece a necessidade de avanços sem ignorar as veredas sinuosas por meio das quais se dá o arranjo político em prol de objetivos verdadeiramente nacionais.

Apesar de conhecer todos esses fatores, li – com certo receio, confesso! – as investidas de Aécio Neves em relação a Luciano Huck e Bernardinho para um deles se candidatar a governador pelo Rio de Janeiro. Não sei se as notícias são verídicas, mas penso que são. Aliás, a fonte chega a informar que FHC teria dado a ideia. Esta última parte me parece inverossímil. Será mesmo que FHC, apesar das recentes alterações no perfil da sociedade civil, pensa ser positiva a vinculação de um candidato à presidência às famigeradas “personalidades”, atitude tristemente capitaneada por partidos tenebrosos como PR, PRB e PTB?

Será mesmo que a República de Aécio será a dos amigos do Leblon? Tendo em vista as qualidades e habilidades que vislumbro no político mineiro, ouso afirmar que: creio que não! Parece-me que, confirmada a inverídica participação de FHC no convite às personalidades, o ex-presidente pode alterar a ordem que Aécio pretende dar à sua caminhada. Afinal, se continuar nesse passo, que não reconheço e em cuja veracidade não aposto, Accioly e Calainho serão ministros e isso não me parece positivo!

Aécio tem algo muito bom. Ao contrário de José Serra, que coleciona inimizades, Aécio nutre amizades e é um político tipicamente “articulador”, à moda de FHC. É certo que Aécio está longe de alcançar a profundidade intelectual de Fernando Henrique Cardoso. O que realmente parece existir em Aécio é boa liderança e facilidade de articulação. Aécio jamais será alguém próximo ao mundo acadêmico. Seu ideal, e é preciso que tenhamos políticos assim, é mais pragmático, sem desprezar o capital intelectual que faz a diferença em qualquer plano e execução de governo.

Porém, chegou a hora de Aécio notar que suas amizades mais próximas, ainda que se mostrem empresários bem sucedidos, não são o caminho para um país melhor. A Administração Pública pede mais! Pede homens preparados como o silencioso Antônio Anastasia que, atualmente, faz Minas Gerais e se mostra um homem público promissor. Anastasia proferiu palestra no Insper em São Paulo e foi reconhecido por lideranças políticas e intelectuais como alguém bastante capaz. Aécio pode ser tudo, mas jamais me pareceu imprudente nas escolhas políticas. Afinal, fez um bom governo em Minas Gerais e conseguiu fazer seu sucessor.

Todavia, o rol íntimo de Aécio não se apresenta a saída de seus desafios. Não dá para arranjar ministros apenas na noite do Leblon, em Jurerê Internacional ou nos jantares e almoços da família Huck em Angra dos Reis. Aécio terá que encontrar gente da academia – refiro-me à universitária -, gente instruída que cultiva o estudo como caminho para a sabedoria. FHC pode dar uma ajuda nisso! A amizade, valor extremo na vida de Aécio – e é bom que assim seja, pois a lealdade é virtude que anda mal na vida pública – não lhe dará os ministros e candidatos que pretende.

Muitos sugerem que Aécio tem que deixar de ser playboy para chegar à presidência. Um amigo chegou a comentar comigo que Aécio precisa parar de ser visto na saída do Camarote Brahma e começar a ser encontrado em locais mais tradicionais, como nas igrejas de Minas. Sou contra essa ideia! Creio que exageros são incompatíveis com a vida de um presidente da República que leva consigo a imagem do país que preside. Porém, não penso que um candidato precise buscar mudança de personalidade para presidir um país. Ficará aos eleitores a tarefa de afirmar se ele é ou não digno de alcançar esse posto. Nesse aspecto, se Lula conseguiu, Aécio também poderá chegar lá, sem que tenha que se mascarar como alguns falsos moralistas sustentam.

O que Aécio precisa – e deve – saber é que há um exército de brasileiros preparados, ainda que não filiados a partidos políticos, para exercer as mais altas funções neste país. Competência nem sempre – quase nunca – está unida à política partidária. Cabe a Aécio, com sua conhecida capacidade de arregimentar bons quadros, buscar nesse universo anônimo os próceres de uma República próspera. Temos milhares de brasileiros que buscam conhecer e dar o melhor de si a este país que tanto sofre. O problema, a meu ver, é que são milhares que não gozam da fama de um Luciano Huck ou de um Bernardinho, tão caros a Aécio! Nada contra ambos, que fique claro! “Mas cada um no seu quadrado”!

Quem quiser ser presidente deste país, como Aécio quer – e espero que chegue lá – necessitará abrir os olhos para uma plêiade de brasileiros que têm muito a contribuir. Gente que leu os clássicos, as estatísticas nacionais e estrangeiras, e que conhece a história deste país sofrido. Gente que andou de norte a sul para entender as mazelas do “ser brasileiro”. E olha que para quem leu os clássicos não está muito diferente dos últimos 70 anos, salvo em relação à economia, ponto nevrálgico na República!

Infelizmente, um “lata velha” ou um “lar, doce lar” – quadros do programa de Luciano Huck – ou mesmo um campeonato de vôlei não traduzem o que o país precisa. Antes apenas isso servisse ao conhecimento das pluralidades de nossa pátria. Mas não! O Brasil é muito mais complexo do que pontos no IBOPE ou aplausos e medalhas nas quadras! Entender o país, a administração pública, demanda estudo e, no mais das vezes, isso se dá longe das câmeras de TV, nos “solitários gabinetes de estudo”! FHC sabe bem disso, e é bom que Aécio note esse fato. O Brasil não se fará com aplausos, mas com estudo!

A caminhada de Aécio apenas se inicia. Contudo, a busca por famosos jamais encontrará o que o Brasil precisa. Ele é um bom executivo. Uma capacidade política para organizar pastas, secretarias e ministérios, em prol de um objetivo público. Seu governo em Minas Gerais prova isso! Mas nem todo famoso é capaz de compreender as vicissitudes de um povo como o brasileiro. Se levar essa ideia de que o famoso é a solução, não demorará para encontrar a derrota. Não tenho dúvida de que Aécio sabe disso!

Que o senador mineiro descubra essa realidade antes de partir à presidência. Que saiba, o que é difícil na conhecida amizade dos anos 80, discernir entre os amigos de noite e os parceiros de governo. Mais do que um “grupo baladeiro”, precisamos de uma equipe de trabalho. Isso não se encontra dentre os que curtem a noite! Antes, estará entre os que vivem à noite! Vivem pensando em um país, vivem a madrugada – viram a madrugada – atrás de respostas aos problemas da vida nacional.

Como boêmio que vive à noite e não vive a noite (apenas), posso afirmar que nosso país foi forjado por aqueles que, mesmo numa mesa de bar, pensavam a pátria. É preciso que Aécio, iluminado pelo espírito de Tancredo Neves, aprenda a manter as amizades no lugar correto e busque conhecer os milhares de brasileiros que, amantes da social democracia, querem um país mais livre, justo e solidário.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e da Faculdade de Direito da Universidade Paulista, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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