Reflexões sobre a visita do Papa: há muito mais do que a humildade de Francisco

Papa FranciscoAnalisar a visita do Papa ao Rio de Janeiro não é tarefa fácil. Para alguns, ficou a emoção, a humildade, a união dos católicos. Para outros, o gasto de dinheiro público de um Estado laico para receber o líder de uma religião determinada, as manifestações anti-homofobia, em prol das mulheres e, até, em “favor das vadias”.

Uma coisa é avaliar a personalidade do Papa Francisco. Quanto a isso, não há muito debate. O Papa é uma figura humilde e popular. Talvez seja o perfil ideal para resgatar os fiéis da Igreja Católica que, assim como a política, “perdeu representatividade” nas últimas décadas, por se mostrar distante da realidade dos católicos. Francisco chega para propiciar a união do rebanho ao Pastor e resgatar o amor e a importância da humildade e da solidariedade, ainda que esse não seja o tom das atitudes reveladas pelo Vaticano enquanto pessoa política.

A Igreja não é o Papa Francisco, e este não é a Igreja. A instituição, demasiadamente humana, precisa de inegáveis mudanças. Não me refiro aqui à quebra ou revisão de dogmas, pois não dá para exigir que uma religião baseada em escrituras que contam com mais de 2000 anos liberalize tudo. O que se pode afirmar é a clara separação entre decisões do Estado e decisões da Igreja, respeitando-se ambas. Aliás, as escrituras não estão sujeitas à emenda, como se dá com a Constituição Federal.

Por mais que o Papa tenha trazido a atmosfera de paz e fraternidade durante a Jornada Mundial da Juventude, sua atitude está longe de refletir a da grande maioria de clérigos. Não ignoro que, como grande líder da Igreja, o Papa possa sensibilizar todos os membros e conseguir promover as mudanças necessárias na instituição que representa. Porém, há muito a ser feito, ainda que a escolha de jesuíta com pinta de franciscano tenha representado um enorme passo em direção às melhorias esperadas.

Temos que avaliar, também, a organização para receber o Papa. Como o Brasil, futura sede da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, recebeu o líder da Igreja Católica? De maneira desastrada! Os desencontros dos governos federal, estadual e municipal em relação ao trajeto e à segurança do Papa demonstraram o amadorismo do Poder Público em nosso país.

Conseguiram colocar o Papa na faixa dos ônibus em plena Avenida Presidente Vargas. Tiraram o Papa do avião e resolveram lhe propiciar um “choque de brasilidade”: o trânsito das metrópoles brasileiras. Francisco, dono de humildade indiscutível, tirou de letra esse deslize da organização. Abriu os vidros de um carro simples e sem blindagem e atendeu os populares. O tropeço foi bom apenas para o Papa, já que escancarou o despreparo da Administração Pública brasileira.

Não bastasse esse primeiro deslize, a vigília ocorreria em Mangaratiba. Havia sido reservado um amplo terreno para que ela acontecesse. A Administração Pública, contudo, esqueceu que chão de terra, quando chove, vira barro. O local do evento, após algumas trovoadas, acabou um verdadeiro lamaçal. Resultado: a vigília ocorreu na praia de Copacabana. Aqui, mais uma trapalhada, primeiro foi informado que os fiéis não deveriam acampar na praia. Depois, aguardar na praia era o recomentado.

Tudo isso nos faz refletir sobre a capacidade nacional para sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Nossos gestores públicos são incompetentes. Se não temos preparo por parte dos governos para a realização de eventos como a visita do Papa, imaginem em relação aos de 2014 e 2016!

A Administração Pública neste país está cada dia mais um grande circo. Dentre muitas das palhaçadas encenadas no picadeiro pelos homens públicos, lembro uma protagonizada pelo Governador Sérgio Cabral. Segundo ele, faltava-lhe um pouco de humildade. A partir de agora, sob a influência do Papa, ele receberá os manifestantes que ocupam as ruas do Leblon. A coisa está tão feia, que um Governador de Estado tem coragem de falar uma baboseira dessas. O que falta não é humildade. Falta competência, falta ética, falta vontade política, falta respeito ao interesse público, falta vergonha na cara. É isso que falta!

O Prefeito Eduardo Paes, conhecido folião do carnaval carioca – sem qualquer demérito em relação a isso – deu entrevistas nas quais reconhecia os deslizes de autoridades da esfera municipal. Eduardo Paes é o político com a maior capacidade de se desculpar, ainda que pouco faça para alterar a realidade desastrosa do município do Rio de Janeiro. Chegou a sugerir que estava aprendendo com os erros!

Curiosa essa saída. Aqui no Estado de São Paulo, logo que o PRB foi chamado para integrar o governo, o escolhido para ocupar uma pasta estadual também disse que nada entendia a respeito do posto que assumia – para isso basta ver seu currículo – mas que tinha a virtude de aprender rápido. Fica a pergunta: a Administração Pública é “test-drive” para incompetentes? Parece que sim, até porque muitos incompetentes, para os quais as portas da iniciativa privada estão fechadas, resolvem viver do Estado, no famoso “mamar nas tetas do governo”. Conheço vários!

Por fim, resta avaliar o efeito causado no povo fiel pela visita do Papa. O estado de carência da população brasileira ficou evidente nas imagens que demonstravam a passagem do Papa pela comunidade de Varginha. A única rua utilizada pelo comboio papal foi prontamente asfaltada. A paróquia visitada por Sua Santidade foi reformada e apenas casas “regulares” – “melhorzinhas” – foram incluídas dentre as que o Papa poderia visitar.

O povo, ao qual o Estado brasileiro dá as costas há muito tempo, via a chegada do Papa na comunidade como um milagre. Como se, do dia para a noite, tudo fosse mudar. Isso é o resultado de uma condição comum aos indivíduos mais excluídos, qual seja, eles não acreditam mais no Estado como fonte de solução de seus problemas. Ouso afirmar que eles não se sentem parte do Estado.

A sociedade brasileira, sobretudo a parcela mais carente, vê o Estado como um terceiro. Alguém que pode atrapalhar ou melhorar a vida dos indivíduos. Se não atrapalhar já está bom! Não se consideram parte do Estado, ao que se nota a crise da cidadania. A eventual melhora de vida pela ação do Estado se apresenta travestida do mais odioso populismo. Um assistencialismo que não tira ninguém da miséria, apenas tenta disfarçá-la. Afinal, ninguém deixa a miséria por comprar um carro, uma televisão ou uma geladeira com redução de IPI em 120 meses.

A miséria à qual me refiro é a miserabilidade em termos de cidadania. O Estado brasileiro não cria cidadãos. Ao contrário, leva à Administração Pública os interesses dos detentores do poder econômico, emprestando dinheiro para “figurões de fachada” como Eike Batista, e distraem a massa que mais precisa de educação, saúde e habitação por meio de programas assistencialistas que não se preocupam em conferir estrutura à vida dos beneficiários.

Vi com tristeza um senhor, morador da comunidade de Varginha, que passou a noite, debaixo de chuva, em frente ao palco que seria ocupado pelo Papa. Para ele, a visita do pontífice era um milagre. Claro que é um milagre! É mais fácil o Papa visitar a comunidade de Varginha do que o governo estadual do Rio de Janeiro conferir dignidade aos moradores dessa mesma comunidade.

Ao fim e ao cabo, nada contra o Papa Francisco. Aliás, muito a favor dele! Símbolo de humildade, mas líder de uma instituição demasiadamente humana e pouco espiritualizada. Por isso Francisco pede que os fiéis rezem por ele. A missão de espiritualizar a Igreja Católica só não é mais difícil do que moralizar a política brasileira. Afinal, o brasileiro esquecido pelo Estado ainda vê como milagre a visita do Papa, mas “nem por milagre” acredita na moralização da política nacional.

Precisamos tornar a tal moralização um milagre possível! Todavia, não adianta apenas rezar na solidão de quartos e templos. Precisamos de mudança pelos e para os brasileiros. Ação efetiva em prol da ética e não da depredação ou da anarquia. Já que o “gigante acordou”, que busque aprender a canalizar a energia acumulada durante longos anos de sono profundo e conhecer quais são as regras do jogo do Estado Democrático de Direito.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e da Faculdade de Direito da Universidade Paulista, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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