Há paladinos da ética?

BrasilSerá que é possível afirmar a existência de paladinos da ética? Antes de responderem a tal questão, é bom lembrar que a palavra “paladino” no contexto utilizado pretende representar um “guerreiro fervoroso da ética” que será responsável pela implementação de uma realidade consentânea com os valores decorrentes da ética esperada, seja lá o que isso signifique!

A pauta ética veio à tona com as manifestações populares. Ao menos a partir daquelas pacíficas, realizadas em junho de 2013. O que se seguiu foi um cenário de baderna e destruição que apenas retira legitimidade daqueles que querem, efetivamente, lutar por ideais democráticos, a fim de consolidar um sistema com maior representatividade e destituir do poder, por meios legítimos e legais, corruptos mandatários do povo.

Se perguntarmos a um grupo de pessoas, dificilmente alguma delas dirá que não é a favor da ética. Muitas avaliarão modos diversos de chegar a um mesmo objetivo. Outras, mais comprometidas com a simples tomada do poder, se limitarão a ocultar seus reais interesses e, num primeiro momento, surgirão como defensores da pauta ética.

Esse último grupo já é conhecido na política brasileira. Muitos daqueles que lutaram contra a ditadura, vestidos com as roupas da democracia, alcançaram o poder e, atualmente, pretendem estabelecer a ditadura que lhes convêm. Seguem, como a Igreja fez na Idade Média, a perseguir opositores, adjetivando-os de fascistas, quando, a bem da verdade, exercem o pior fascismo que existe, qual seja, o velado. Aquele que se mostra às câmeras travestido de ideal democrático, mas que, essencialmente, está comprometido com o sujo autoritarismo dos regimes soviéticos stalinistas cujos resultados foram ainda piores do que os havidos ao tempo da ditadura militar brasileira.

Vivemos um momento perigoso, no qual a ideologia de um ou de alguns partidos políticos, avessos à democracia e sedentos pelo poder, delineia seus projetos de perpetuação sob os auspícios de uma sociedade incapaz de perceber os riscos de tais movimentos. Manejam jovens que sonham com um país melhor, da mesma maneira que foram, em grande medida, manipulados por ideólogos que nada tinham de democratas.

Tal situação é real e extremamente deletéria. Representa um instante no qual, mesmo os defensores da democracia, se aliam a medidas que implicam enorme prejuízo à liberdade dos cidadãos brasileiros. Há algum tempo a liberdade de pensamento deixou de ser um direito fundamental para ocupar um espaço de menor importância. Atualmente, vale mais a perpetuação de um regime que monta conchavos com antigos inimigos para tomar irrestritamente o poder.

Por outro lado, esse instante também pode dar margem ao surgimento dos “hipócritas de plantão”. Dos sofistas, “salvadores da pátria” que se apresentam como almas ilibadas. Sujeitos que se valem do caos para se lançarem como “senhores da ética e da razão”. Olvidam-se, contudo, que ética pressupõe raciocínio e deve se pautar em valores coletivos, jamais em qualquer forma de “moral individual”. Vivemos uma época de extremos, na qual os dois lados procuram capitalizar, politicamente, os resultados desse impasse.

Assim como os “autodenominados democratas” da década de 60 estão longe de pretender, uma vez alçados ao poder, a manutenção e consolidação da democracia, oportunistas de plantão poderão surgir como baluartes da ética. Tal qual o Partido dos Trabalhadores já tentou fazer e, posteriormente, foi desmascarado com o caso mensalão e escândalos que se seguiram.

É preciso atenção neste momento delicado da política brasileira. O primeiro passo é acordar para os sérios riscos pelos quais passa a democracia brasileira. O segundo, afastar hipócritas que se valem de sofismas para construírem uma imagem ilibada que resgate a confiança popular, a ponto de chegar onde almejam para então seguirem planos de índole pessoal.

Em geral, pessoas comprometidas com a ética não procuram surgir como “salvadores da pátria”. Democratas de verdade sabem que pessoas não são maiores do que instituições. Não é possível que o Brasil prossiga com essa carência que apenas parece encontrar conforto na existência de um “falso mito da verdade e da ética”.

A ética é matéria que depende de construção social. Não há paladinos da ética! Há, isto sim, democratas que procuram esclarecer a população e ensinar os meios oferecidos pelo regime democrático para a veiculação de ideias e propostas. Essa carência de liderança não pode ser substituída pela eterna dependência de líderes individuais que se apoiam em políticas populistas, ainda que queiram a implementação da ética. Já seria um grande passo o surgimento de alguém que, sabendo-se menor do que o Estado e do que o interesse público, conseguisse congregar esforços para um futuro mais ético e próspero para esta pátria tão sofrida!

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e da Faculdade de Direito da Universidade Paulista, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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Uma resposta

  1. Seu texto me faz lembrar que existe um buraco muito mais abaixo..”A Luta pelo Poder” não, não a obra consagrada de Rudolf , a luta , no sentido da ganância. E , essa ganância não se limita ao fato da aquisição do que vem a ser material, também do controle sobre o outro, o domínio. E qual a forma mais eficaz de se manter esse domínio?desde que existe sociedade, existe também a necessidade de controla-la a favor de seu soberano, seja déspota , seja este representante do povo. Não existe como tu bem disse Paladinos da ética, concordo. Mas os que tentam ser, desde o inicio dos tempos, se transformam em algozes. E a estes, nunca foram dignos do trono ou do cargo público. Líder, não é aquele pronto a servir? nossa democracia é carente de pessoas com esse coração. “De servo”. Estes sim, são dignos, sem precisar de titulos. Quando encontrarmos estes tais, mesmo que não queiram, esse titulo receberão.

    E uma sugestão..escreva mais um livro!
    Tem porque , e tem leitores! 🙂

    abraços!.

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