Os mistérios da vida!

Já escrevi alguns textos sobre a vida neste blog. Há um pouco de tudo. Falo da vaidade e do orgulho, da falsa impressão da eternidade, entre outros temas. Hoje, deparando-me, uma vez mais, com a absoluta falta de onipotência humana, noto quão frívolas são as ambições terrenas. A eterna supremacia do TER em relação à divina sensação do SER.

Neste texto não pretendo me estender demais. Afinal, a constatação que faço é possível a todos aqueles que reconheçam o que de mais natural há na vida: seu término! Longe de mim buscar qualquer espécie de realidade cruel. Antes, falo sobre a atualidade da vida. Dizia Vinicius de Moraes que “a gente mal nasce e começa a morrer”! Querem acerto maior?

A medicina pode se especializar e buscar a eternidade do ser humano, porém, Saramago já lembrava em “Intermitências da morte”, que o fim da vida é inexorável. Os médicos até podem, com suas descobertas, “jogá-la um pouco mais para lá”. Mas exterminá-la, jamais conseguirão! Aliás, extinguir a certeza da morte, como bem lembra Saramago, implicará a certeza, talvez mais temível, de eternidade da existência humana. Uma vida que, apesar de muito prazerosa e apreciável, também precisa do FIM para que lhe destinemos o devido valor.

Hoje falava com alguns amigos sobre os famigerados “fatores de risco”. Em breve síntese, são eles o excesso de gordura na dieta, o excesso de bebidas alcoólicas, o fumo, dentre outros tantos. Se avaliarmos com tranquilidade, o simples fato de bebericarmos um copo de refrigerante já pode nos deixar mais próximos do fim. Afinal, esse recipiente tem mais açúcar do que muito “doce verdadeiramente doce”. Os dietéticos, apesar de propícios para a manutenção do peso, estão longe de se revelarem algo saudável. Ao contrário, muitos afirmam que os tais “refrigerantes zero” são ainda piores.

O que fazer nessa ânsia por mais vida? Ao fim e ao cabo, deixar de viver! Conclusão: não há segredo que nos possa conduzir por mais anos nesta Terra. Mistérios há quando avaliamos pessoas que tiveram uma excelente vida, sem abrir mão de boa parte dos fatores de risco, e que chegaram aos 90 anos.

A busca pela eternidade, moda que marca nossos dias, dá provas de que quase nada do muito que é dito se apresenta real. Ninguém explica, salvo com a “culpa atribuída ao estresse”, o infarto de uma pessoa absolutamente saudável. Com hábitos saudáveis! Nesses momentos, ainda há aqueles que afirmam, “sorte dele que não bebia, não fumava e não comia gordura”! Será? Será mesmo que foi a ausência dessas substâncias que propiciou a passagem pelo ataque cardíaco ou foi exatamente essa mesma ausência, com acúmulo de estresse que lhe decorre, que promoveu o infarto?

É claro, é mais do que óbvio, que a inexistência dos fatores de risco há de propiciar uma vida mais longa. Porém, quando esses mesmos fatores se revelam meios de relaxamento temperado, talvez não sejam eles a causa de todos os males. Afinal, muitos prosseguem com medicamentos para tudo, sobretudo para depressão, sem notarem que simplesmente não vivem! Entregam-se às obrigações e não se permitem nada que lhes retire desse caminho. Não se permitem um instante de lazer, um momento de descontração.

Nossa “Era”, a par de se mostrar a moda contra os vícios, também se revela a partida dos saudáveis. Não foram poucas as vezes que me deparei com a partida de pessoas insuspeitas. Vida correta, hábitos saudáveis e morte precoce. Por outro lado, as vítimas sempre buscavam a perfeição e ambicionavam os mais altos postos na carreira. Levavam às costas o dever do sustento de uma família, o qual acaba se reduzindo à percepção de uma mísera pensão quando da partida.

Mais do que viver com um “autopoliciamento” excessivo, cabe-nos VIVER! Fazer aquilo que nos dá alguma forma de prazer, desde que o prazer não seja nosso único foco. Descontrair apenas toma sentido se levarmos uma vida minimamente séria, capaz de produzir algo ao mundo no qual vivemos. Mas, viver, está longe de ser um processo de escravidão no qual nos privamos de tudo que gostamos em vista da vida longa.

A dignidade da vida humana não pode inibir a busca de momentos de alegria. A dignidade da morte humana há de aceitar eventuais deslizes de uma “vida vivida”. Revelo a motivação deste texto: um idoso se prostra sobre uma cama de hospital. Do alto de seus 90 anos, depara-se com um médico que indaga: “Sr., desde quando fuma?” Ao que obtém a resposta: “Fumava quando jovem!” Como afirmado, o idoso, quase centenário, analisa o médico como quem diz: “Fumar me trouxe até aqui? Mas isso é bom ou ruim?” Em suma, “se não tivesse fumado viveria mais ou menos, dr.?” O médico, com sua sapiência científica inabalável, certamente afirmará: “Mais, é claro!” Será? – pergunto!

Aí eu pergunto: dr., seria mais do mesmo ou um “mais qualitativo”? Em que termos o abandono do vício foi positivo, na medida em que, aos 90 anos, pergunta-se a respeito da permanência do hábito? Seria melhor ter prosseguido? Privou-se de algo que não fez tamanha diferença como pensava?

Este texto, longe de servir de idolatria aos vícios humanos, presta-se à reflexão sobre aquilo que verdadeiramente queremos. As privações que diuturnamente nos impomos são impostas esperando algo divino em troca ou apenas revelam uma sincera vontade? Se você estiver na primeira hipótese, tenho uma triste afirmação: ainda que deixe aquilo que lhe apraz e que o mundo estigmatiza como vício, não há qualquer garantia acerca da sua permanência. Mais: toda essa sua devoção pela vida pode se concretizar em um processo de estresse que lhe custará mais anos do que aqueles “perdidos” com uma vida politicamente incorreta.

Moral da história: antes de buscarem a eternidade, sem se darem conta de que é coisa impossível, vejam o “custo-benefício” das escolhas que fazem, sob pena de, ao final, culparem um médico que passou a vida toda dizendo que seus hábitos eram prejudiciais. A escolha é séria, talvez irreversível, mas, certamente, impagável. Não há nada na vida como fazer aquilo que nos apraz! Tudo que for excessivo é condenável, até mesmo atos que demonstrem uma insana busca pelo saudável. Afinal, no mais das vezes, a medicina “dá os seus reversos” e demonstra que boa parte daquilo que afirmou não reflete a realidade.

Repito: jamais seria leviano a ponto de apoiar qualquer espécie de cultivo dos “fatores de risco”. Porém, cabe-me lembrar, tendo em vista a pouca idade que tenho, que, no mais das vezes, as coisas não são exatamente como o homem ousa afirmar com uma certa “pompa divina”. Há exemplos concretos disso: Vinicius de Moraes e Oscar Niemeyer. Vidas longe do “politicamente correto”, mas próximas daquilo que seus titulares entendiam como certo. Viveram e, dignamente, morreram, legando-nos uma trajetória incrível com as mais maravilhosas obras do gênero humano.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e da Faculdade de Direito da Universidade Paulista, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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Uma resposta

  1. Viver..é tudo que almejamos e o que tão pouco fazemos!. Ora, dirão os viventes …o que fazemos então neste exato momento?há uma diferença clara, entre estar vivo e apreciar a vida. Se não me engano, foi Dalai Lama que disse, “Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver.” algo assim, não me lembro tão bem ao pé da letra a citação, mas essa é a essência!.Hoje, na nossa corrida desenfreada por mais “dias” mais tempo, nos faz deixar de lado o mais importante : “o momento de agora” e é neste exato lugar que podemos fazer de fato alguma coisa. Procuramos viver apenas em nossa mente, imaginamos como seria se fizessemos isso ou aquilo, ou como seria se tivessemos feito? ainda há tempo de fazer, para no derradeiro suspirar de nossa vida tão breve um agradecimento ao Pai Divinoem memória do que de fato realizamos em vida.Creio, que é isso que Ele espera de nós…valorizar cada segundo do hoje!.

    Luiz, muito bom seu texto..costumo dizer que aos melhores escritores bastam um coração de carne e uma caneta!

    Excelente texto!.

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