Os “pseudointelectuais” desta Nação de torcedores

PseudointelectuaisInicialmente, devo afirmar que vejo a vida acadêmica com grande amor. Tenho enorme satisfação ao dar aulas para estudantes universitários que escolheram o Direito como profissão. Além disso, esclareço que não me oponho a movimentos sociais. Para que meus leitores possam se certificar disso, basta ler parte dos textos que já escrevi e publiquei.

Já me manifestei sobre os tais “rolezinhos” e este texto não buscará avaliar esses eventos. Quero apenas alertar para um fenômeno antigo e perigoso. Os fatos, denominados “rolezinhos”, têm acontecido com alguma frequência. Muitos “pseudointelectuais” apostam suas fichas em determinadas causas. A grande maioria quer fazer crer que os fatos se devem à exclusão social. Isto é, que os rolezinhos têm uma dimensão política.

Por que os chamo de “pseudointelectuais”? Porque a grande maioria não conhece um integrante sequer desses rolezinhos. Opinam de “orelhada”, tentando credenciar teses construídas no frio ambiente acadêmico, distantes dos fatos.

Jornais noticiaram que a intenção inicial dos que fazem os rolezinhos era apenas buscar uma forma de lazer. Se esta for a real intenção, tudo isso vai ao encontro daquilo que sempre defendi acerca da necessidade de construção de mais espaços públicos para o exercício da cidadania. Daí a defender a invasão descontrolada de shoppings, culminando em atos ilícitos vai uma longa distância.

O problema reside na arrogância típica do ambiente acadêmico. “Pseudointelectuais” buscam vestir todos esses eventos com as vestes da ideologia de meados do século XIX que aprenderam nos bancos acadêmicos pelas mãos de algum apaixonado irreflexivo. Tudo é luta de classes, ainda que o marxismo tenha sido forjado em período distante e bastante distinto do atual. Creio que nem mesmo Marx seria tão assertivo como seus “pseudodiscípulos”.

Os tais “pseudointelectuais” não apenas buscam vestir os fatos em favor de uma ideologia constante de uma dissertação de mestrado ou tese de doutorado da qual são autores. Vão além! Querem, às vezes sem ouvir todos os lados, disseminar uma atmosfera de ódio que divide a sociedade entre ricos e pobres, bons e maus, atitude que não ajuda em nada a resolver qualquer problema verdadeiramente social. Aliás, são pródigos em fazer isso. Moram bem, dirigem veículos de luxo, matriculam os filhos nas melhores escolas, mas prosseguem propalando um ideal socialista ou, ainda pior, comunista, que apenas dificulta a vida de seus alunos. Afinal, os mestres não se oferecem a ir fazer um rolezinho ou enfrentar qualquer espécie de manifestação.

Isso pode ser observado desde os tempos da ditadura militar. Os professores viraram políticos de renome, enquanto os alunos, relegados à luta armada, morreram pregando o ideal que seus mestres esqueceram de cumprir quando chegaram ao poder. Sempre se mostraram intelectuais intocáveis que preferiram o exílio à luta por democracia.

O Brasil é uma Nação de torcedores. A cidadania fica em segundo plano. Muita gente veste a camisa da seleção brasileira, como fará na Copa, mas não atenta para os deveres que a condição de cidadão impõe. Gostam da galera, do tumulto! Adoram juntar a turma para dar um “rolê”. Mas é exatamente essa ingênua e até irrelevante – senão ignorante! – pretensão que tem sido lida por alguns “pseudointelectuais” como ato político que revela a luta de classes.

Os mais desavisados integrantes dos rolezinhos acabam abraçando esse ideal, ainda que dele nada entendam. São, em última análise, manipulados por pessoas que querem tirar algum proveito da situação. Indivíduos que buscam romper a ordem para alçarem postos mais elevados no Poder e, lá chegando, esquecerem-se daqueles que um dia os apoiaram. Essa estratégia é mais do que conhecida no Brasil e no mundo.

Neste domingo, um shopping carioca frustrou a ocorrência de um desses rolezinhos. Fez algo bastante simples: não abriu as portas! Afinal, o shopping, ainda que seja espaço aberto ao público, é mantido pela iniciativa privada e, de acordo com o princípio da livre iniciativa, pode abrir ou não. Os rolezistas, que estavam em menor quantidade até mesmo do que jornalistas que foram cobrir o evento – o que prova a baixa adesão e nenhuma pretensão política -, tentaram politizar a situação. Como politizam? Afirmando que a conduta do shopping materializa o apartheid brasileiro. Isso é apenas aceitável nessas mentes, “pseudointelectuais”, que se apressam em estereotipar esses eventos.

A conduta dessa gente que busca politizar os eventos apenas demonstra para a sociedade a parte ruim do mundo acadêmico. Qualquer um que já passou por bancos acadêmicos sabe bem que a academia está repleta de professores descomprometidos com o saber. Preferem usar a sala de aula como forma de impor ou fazer uma lavagem cerebral em alunos que ingressam nas faculdades. Ao invés de incitarem a reflexão, oferecem respostas antigas a problemas complexos e atuais que não podem ser resolvidos com ideologias de meados do século XIX.

Este texto, mais do que se opor aos rolezinhos, busca alertar para a estratégia que alguns “pseudointelectuais” e partidos políticos têm realizado em face da massa de jovens que sequer refletiu acerca dessas questões. Infelizmente, sobretudo na área das ciências humanas, há professores que preferem discípulos a estudantes reais. Docentes que teimam em fazer da sala de aula um ambiente de recrutamento de “estudantes/militantes” que os ajudem a divulgar suas velhas ideias, muitas das quais falidas desde o início da década de 90. Não preparam os alunos para o hoje e para o amanhã, mas sim para reproduzir as ideias do ontem.

Se não nos tornarmos uma Nação de cidadãos, prosseguiremos como um país de torcedores que, ao invés de refletirem acerca dos fatos, simplesmente aderem a uma ideologia transmitida ou imposta, sem sequer pensar a respeito da procedência ou não do pensamento defendido.

Amo o ambiente acadêmico, mas sou obrigado a reconhecer que, na maior parte das vezes, professores se transformam em ditadores. Ao invés de acreditarem na democracia no ambiente de ensino, valem-se da posição de docentes para impor aquilo que pensam. Não cumprem a divina missão de todo e qualquer mestre: fazer pensar! Por essas e outras, somos mais torcedores do que cidadãos.

Por mais que os “pseudointelectuais” teimem em chamar os rolezinhos de “movimentos políticos”, manifestações sociais, ouso divergir. A razão é simples. Qualquer manifestação deve contar com plena consciência acerca das razões pelas quais se manifesta. Além disso, quem as observa deve saber a respeito do que elas versam. Desde junho de 2013, qualquer evento no Brasil que junte mais de cem pessoas vira objeto de aposta desses “pseudointelectuais”, os quais, afirmando uma causa ou outra, buscam alavancar a carreira acadêmica, mas esquecem que a causa só será conhecida através de muito estudo a respeito dos fatos. Uma pena essa estratégia de estereotipar tudo de acordo com velhas e ultrapassadas ideologias!

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e da Faculdade de Direito da Universidade Paulista, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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