20 anos sem Ayrton Senna

Ayrton SennaHá vinte anos o Brasil sente a dor da ausência de um de seus mais célebres filhos: Ayrton Senna. Em 1º de maio de 1994, a Nação recebeu a triste notícia do falecimento desse grande brasileiro. Eu, com pouco mais de 10 anos nessa época, mas já tendo por hábito a leitura e a escrita, lembro-me de ter preparado um texto – claramente infantil, mas inegavelmente real para com meus sentimentos – sobre a vida e a importância de Ayrton Senna (sobre aquilo que dele conhecia).

Recordo-me que constei naquelas linhas que Senna deixou a vida na posição que sempre almejou e mereceu: o 1º lugar. Consignei que com ele estavam milhares de brasileiros que vibravam com suas vitórias e esqueciam parte das dores advindas de um país desigual.

Hoje, duas décadas após aquele primeiro texto, resolvi preparar estas breves reflexões. Senna sempre foi – ao menos para mim – real motivo para torcer e acompanhar treinos e corridas de Fórmula 1. Senna me fazia, ainda criança, acordar cedo aos domingos e, a depender do país em que o GP se realizava, dormir tarde. Quando criança, era apaixonado por automóveis e leitor assíduo de revistas como “Quatro Rodas” e AutoEsporte”.

Atualmente, minhas prioridades mudaram. Mas jamais foi alterada a admiração que sentia por Ayrton Senna. Não me refiro apenas ao esportista que me fazia acompanhar os GP´s de Fórmula 1. Refiro-me, sobretudo, ao grande ser humano. Após a morte de Senna, a atenção que passei a destinar ao esporte nacional sofreu clara diminuição. Não vislumbro em quase nenhum atleta a vontade e o patriotismo que vislumbrava em Ayrton Senna “do Brasil”.

Ao longo desses vinte anos, notei que o Brasil sofre com clara ausência de memória. Não temos heróis nacionais ou verdadeiros ídolos. Quando os temos, a “baixa política” que contemplamos se vale da “celebridade” e faz uma troca irresponsável entre os papéis exercidos por ídolos do esporte e agentes políticos. No mais das vezes, partidos descomprometidos com o bem público, cooptam esses ídolos do esporte ou, ainda pior, “as celebridades dos 5 minutos de fama” para alavancarem votos no sistema proporcional do Poder Legislativo.

Senna foi e sempre será um ídolo do esporte e um exemplo de ser humano. O Instituto presidido por sua irmã realiza boa parte do compromisso social que Ayrton Senna praticava ao longo de sua vida. Senna, ouso afirmar, estaria fora do rótulo de ídolos que não serviriam à política. A razão é simples. À política servem aqueles que nutrem valores voltados à ética e ao bem comum. Isso Senna tinha de sobra.

A realidade que vivemos é bastante triste. Afinal, é difícil encontrar um ídolo ou uma celebridade nacional que esteja atenta aos reclames sociais que podem ser garantidos por meio da atividade política. Eis a razão pela qual sou contrário à filiação de tais pessoas a partidos políticos como meros “puxadores de voto”.

A lógica que vivemos do “mundo das celebridades” – aliada ao imediatismo e ao consumismo – deturpa todos os cenários sociais. Agentes públicos, tais como magistrados, promotores, parlamentares e detentores de mandato eletivo para cargos no Executivo, ao invés de exercerem o cargo que ocupam e cumprirem a missão institucional que a Constituição lhes confere, preferem, neste país em que cumprir o dever já é “muito bem-vindo”, valer-se das funções institucionais para se tornarem maiores do que a própria instituição. Esse expediente aniquila a democracia, pois, em tal regime político, as instituições são maiores do que qualquer um de seus ocupantes. São as garantias institucionais que permitem a coexistência democrática.

Neste 1º de maio de 2014, devemos contemplar e homenagear a memória de Ayrton Senna. Ele jamais faria o que muitos ídolos ou celebridades fazem em termos políticos. Ele nunca se prestaria àquilo que boa parte dos partidos políticos nacionais tentam fazer com esses indivíduos.

Senna, para além de esportista, era um belo exemplo de cidadão. Infelizmente, os 20 anos da morte de Ayrton Senna fazem com que me lembre – alteradas minhas prioridades nutridas ao longo da infância – da inegável deficiência de cidadania que o Brasil enfrenta. Parte disso pode ser atribuída a dois claros fatores, quais sejam: 1) o despreparo e o descompromisso de nossos ídolos e celebridades para com o papel político que deveriam exercer; e, 2) o famigerado populismo que leva em conta a popularidade ao invés da competência.

Por todas essas razões, Ayrton Senna faz e sempre fará grande falta. É ausência que jamais será superada no esporte brasileiro e, para além disso, é ausência que muita falta nos faz em termos de cidadania, de exemplo daquilo que se deve entender por cidadão consciente de suas responsabilidades.

Noto, com alegria, que meu texto de 20 anos atrás não continha nenhum equívoco. Apreciava o esportista brasileiro, concedendo-lhe todos os méritos a que fazia jus. O presente texto – redigido após duas décadas – apenas acrescenta que Ayrton Senna – ele sim! – para além de um esportista, era um ser humano de bem, um verdadeiro cidadão. Esteja em paz, cidadão brasileiro!

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e da Faculdade de Direito da Universidade Paulista, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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Uma resposta

  1. Belo texto. Parabéns mestre!!!!! sábias palavras

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