“A civilização do espetáculo” e o extermínio da cultura

Vargas LllosaMario Vargas Llosa escreveu, entre muitas obras geniais, “A civilização do espetáculo”. Trata-se de um livro de leitura fácil que está acessível a todos. Acabo de relê-lo. Ele me proporciona reflexões que pretendo compartilhar neste texto. O título já nos permite vislumbrar qual é o objeto da obra. É claro que o autor avaliará a civilização do espetáculo. Mas como faz essa análise? O que representa essa civilização? Ela se opõe a algo?

Vargas Llosa vem ao encontro da aflição de todos aqueles que não se acostumam com o hábito atual de simplesmente assistir (dentre os quais me incluo!). Já perceberam que somos espectadores de quase tudo? A evolução tecnológica nos trouxe benesses inegáveis. Com um “clique” conseguimos saber o que ocorre em qualquer parte do mundo. Conhecemos biografias e, os mais preguiçosos, obtêm material mais do que suficiente para trabalhos escolares. Contudo, será que esse avanço é integralmente positivo?

Há alguns anos, se alguém quisesse buscar uma informação, essa pesquisa passava por longas horas em bibliotecas. Livros e mais livros traziam o material para a elaboração do trabalho. Não havia um mecanismo no qual bastava “clicar” e tudo aparecia pronto como mágica. É claro que a tecnologia nos poupa trabalho. Eu sou prova disso. A jurisprudência dos tribunais é facilmente acessada pelo computador. A questão está em compreender que obter informação não é construir conhecimento.

No exercício da docência, deparo-me com alunos que são capazes de dar a resposta esperada. Poucos, porém, conseguem ir além dela. Por que? Porque na sociedade da informação o conhecimento acaba ficando de lado. Mecanismos de busca são capazes de me trazer informações, mas jamais poderão me apresentar o raciocínio que necessito para defender uma causa na advocacia. Do mesmo modo, se quero fazer uma pesquisa acadêmica, a internet pode ser instrumento, mas jamais será um mecanismo conclusivo.

A razão disso é bastante óbvia. A internet é um grande arquivo de informações. O conhecimento, entretanto, depende da reflexão individual. A civilização do espetáculo, além de passar pelo empobrecimento da cultura, cria seres humanos acostumados a obter as coisas prontas. Aniquila aquilo que nos diferencia dos irracionais: a reflexão. Perdemos a capacidade de refletir sobre aquilo que nos chega.

Ao longo do livro é contada a história pessoal de um sujeito que teve excelente formação e seguiu para o mundo da “alta tecnologia”. Em um determinado momento, esse sujeito se deu conta de que não conseguia encarar a leitura de um livro. Ele simplesmente não encontrava meios de se concentrar na narrativa. Por que? Porque ele foi vítima desse processo. A rápida resposta que obtemos na internet nos faz negligenciar o dever de refletir. Os artifícios audiovisuais ganham espaço e o livro, o texto, e a reflexão que deles decorrem perde seu valor.

Tenho muitos alunos que preferem as “vídeo aulas” às aulas com professor em sala. Culpa deles? Não só! Eles cresceram em uma sociedade que vive o “espetáculo do audiovisual”. Muitos não são instigados a refletir. Apenas imitam aquilo que é divulgado na televisão ou na internet. O mundo atual, a civilização do espetáculo comentada no livro, não faz com que os seres humanos reflitam sobre aquilo com que têm contato.

Essa questão é deveras complexa. Na civilização do espetáculo, o que se assiste é regra. Não há um filtro reflexivo. Em termos políticos, essa civilização abre mão da ideologia e aceita a propaganda como “a alma do negócio”. Em grande medida, esse expediente sempre foi usado como forma de doutrinar alunos em salas de aula. Afinal, se o professor só passa uma linha de pensamento, inevitavelmente, os alunos a adotarão ou rechaçarão. Mas apenas haverá esse “juízo de aceitar ou não” o que lhes é passado.

A cultura deve estar além disso. A função de um professor é conferir aos alunos oportunidade de refletir e concluir a respeito de temas relevantes. Da mesma forma, a função do autor de livros não é, no estilo da “auto-ajuda”, apresentar uma “filosofia fluida” para acalmar as inquietudes dos leitores. A vida é dura, sempre será. Estamos nela como seres políticos e não como espectadores. Não nos cabe apenas afirmar o que é certo e o que é errado como se escolhêssemos times de futebol para torcer.

O campo do conhecimento depende de profunda reflexão. Vivemos uma crise nessa seara. As gerações estão crescendo com o imediatismo da internet, com a “era do clique”. Milhares de anos de conhecimento são trocados por resenhas baratas e criminosas que circulam na internet. Os clássicos de filosofia, como afirmado acima, são diluídos em livros de “auto-ajuda”. Eis o desserviço que a literatura atual representa à sociedade. Conferimos preço alto àquilo que não tem valor nenhum.

Preço e valor são conceitos que merecem maior atenção. Nem tudo que é “caro” é valoroso, ainda que valioso em termos econômicos. O valor prossegue com as obras que estimulam o pensar. Contudo, na civilização do espetáculo, o ser humano, cansado das mazelas da vida, busca entretenimento e não reflexão. Ele quer assistir o próximo episódio da novela da 8h e não refletir sobre a crise nacional. Ele quer torcer pela seleção e não pensar sobre os desmandos que envolvem a realização da Copa no Brasil.

É essa atitude de espectador, que fulmina todas as Nações, que levará o mundo a dias ainda piores. Não se trata de pessimismo, mas sim de um grave alerta. Por trás da civilização do espetáculo está a política do “pão e circo”, da manipulação das massas. A forma como banalizam a cultura, a política e até mesmo o sexo é uma demonstração da deletéria época que vivemos. Cultura é tudo aquilo que vende e que tem altos preços; política é resultado da propaganda oficial e não da reflexão individual; sexo é tão instintivo quanto o acasalamento de dois animais, excluindo-se todos os sentidos que conferem valor ao ato. Cabe-nos refletir acerca desses fatos. Assim, cabe-me recomendar a leitura da obra que deu ensejo a este texto.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e da Faculdade de Direito da Universidade Paulista, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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