O preparo venceu o improviso…Não tinha como ser diferente!

BrasilTorci para a seleção brasileira em todos os jogos. Vi a vontade dos jogadores de trazerem a vitória para a população em sua própria pátria. Observei a garra de Júlio César e David Luiz. Na partida contra o Chile, porém, notei que o Brasil estava alicerçado apenas na vontade. Sabemos, entretanto, que vontade não é tudo na vida. Há coisas que não basta querer; é preciso fazer por merecer. Em suma, “é para quem pode e não para quem quer”.

Não me lembro de ter visto, em pouco mais de três décadas, seleções brasileiras que tenham dado o devido valor ao preparo, à técnica e à estratégia. A “canarinho” sempre foi um “show de emoção”, uma “locomotiva do coração”. Mas técnica e integração jamais foram o forte da seleção brasileira. A desta Copa dava prova disso a cada jogo. Uma vez mais, o Brasil era um amontoado de estrelas. Talentos individuais que brilhavam de maneira isolada ao longo dos jogos. Por isso atribuímos a vitória sobre o Chile às defesas de Júlio César, mesmo sabendo que tínhamos jogadores muito melhores, caso individualmente considerados.

Ao longo da primeira fase comentei com diversos amigos e em redes sociais que faltava ao Brasil “espírito de equipe” e integração tática. Essa é a tarefa primordial de um treinador. Ele é o grande “executivo” que deve conhecer suas peças e trabalhar com cada uma delas de maneira integrada. Por trás do comando de toda e qualquer seleção deve haver boa gestão. É preciso planejamento e não improviso. É preciso fé, mas não apenas fé!

Muito se disse acerca da derrota de ontem (08.07.14) para a Alemanha. Derrota inesquecível e, quiçá, insuperável. Tomar 7 gols em uma semifinal de Copa do Mundo é algo improvável. Entretanto, foi o que ocorreu. Não se deve falar em “politização da Copa”, ainda que o evento tenha sido politizado, sobretudo pelo governo federal que esperava a vitória para facilitar o pleito de outubro de 2014. Todavia, é bastante possível e até adequado fazer uma breve comparação entre a seleção e a sociedade brasileira.

Escrevo há alguns meses que o país é uma Nação de torcedores e não de cidadãos. A gente dá mais valor à emoção do que à razão. Há nisso um aspecto cultural. Quando falamos que “Deus é brasileiro”, mais do que demonstrar fé, aparentamos incompetência. Deus é a grande tábua de salvação dos incompetentes – ao menos como a expressão é utilizada no Brasil. A derrota para a Alemanha é uma lição a todos nós. É um aprendizado que nos permite avaliar o valor que existe no todo. Apresenta a capacidade que conquistaremos se “jogarmos como equipe”. Talento individual dificilmente leva um país adiante. Não há “salvador da pátria”, há trabalho, educação e empenho em prol de objetivos bem definidos. Vencer a Copa, assim como construir um país, é um grande projeto.

A seleção é reflexo de nossa sociedade. Muitas vezes, ao longo de minha trajetória acadêmica, ouvi colegas se gabando de não estudar e conseguir passar de ano. Nisso está escondido o “jeitinho” que prefere a “malandragem” ao esforço. Somos o país em que os craques da bola não treinam. Afinal, eles não precisam! Somos o país no qual ler resenhas é “lucro”, pois se economiza tempo. É a economia burra! A economia em detrimento da competência. Tudo é festa, é farra, é um grande carnaval.

Alemanha e Holanda são duas seleções maravilhosas. Perdemos para uma seleção que fez a “lição de casa”. Não resolveu “colar” para se dar bem na prova. Estudou o jogo brasileiro e, certamente, soube se aproveitar de nosso claro desequilíbrio emocional. Até acredito em milagres, mas há casos nos quais negligenciamos a ponto de impedir que aconteçam. A seleção brasileira de 2014 é exemplo disso.

Muitos que criticam a seleção não percebem o quanto dessa “malemolência” existe em suas próprias vidas. O jogo Brasil x Alemanha é episódio a ser estudado em cursos universitários. Ali notamos a ausência da sinergia, o abalo que emoções acarretam e a falta de preparo. Alemanha e Holanda jogam como “relógios suíços”. Têm técnica e privilegiam a estratégia. Não dão show. Vencem e ponto! Sabem que o futebol não é um esporte individual. Curiosamente, a sociedade alemã e a sociedade holandesa demonstram um grau de desenvolvimento superior ao nosso, ao menos quando se trata de cidadania.

A “cordialidade” do brasileiro nos faz torcedores apenas em ocasiões positivas. Ela é capaz de cegar a torcida a ponto de não observarmos que o Brasil, pelo que jogou, chegou longe demais. A vergonha dos 7 x 1 só não é maior do que a vergonha de nos depararmos, dia após dia, com uma cultura do “menor esforço”. A “lei de Gerson” prossegue firme e forte. O estudioso é o “nerd”. O trabalhador é o “burro de carga”. O sindicalista do “oba-oba” é o grande messias desta Nação de torcedores. O que suborna o guarda é o “esperto da vez”. Assim caminhamos para um futuro ainda mais tenebroso.

Há pouco tempo ouvíamos um presidente que utilizava o futebol como metáfora para tudo. Ele confundiu, e ainda confunde, o futebol com o país. Ele foi pródigo ao dar exemplos no sentido de que o estudo não era garantia de futuro. Criticou universitários e até magistrados, como se estudar fosse uma forma de oprimir, pois, para ele, quem luta é opressor e quem aproveita sem empenho é vencedor. A que se deve isso? Má-fé e ignorância.

A partida Brasil x Alemanha joga na nossa cara que o trabalho árduo sempre vence a esperteza. Os pequenos deslizes da seleção me fazem lembrar os deslizes diários de nossa sociedade em termos éticos. A gente negligencia em assuntos de fundamental importância à garantia de uma sociedade democrática. Tem gente que ainda dá mais valor a um homem do que a uma instituição democrática. Se não acordarmos para esse fato, a tragédia será ainda maior. Nossa derrota não se dará numa partida de futebol. Perderemos, ainda mais, no campo estratégico da cidadania. Que bom que o brasileiro é descontraído. Porém, já escrevi isto neste blog, o grande problema está em ser descontraído o tempo todo, pois descontração pressupõe instantes de seriedade.

Enquanto nos comportarmos como uma Nação de torcedores, do dia para a noite colheremos derrotas mais amargas do que a de ontem em face da Alemanha. Está na hora de parar de concluir frases com “se Deus quiser” e passar a trabalhar de maneira planejada por um país melhor. Essa é uma lição de casa a todos os brasileiros. Não se trata de política, pois esta é o resultado da sociedade. Quero ver o Brasil mostrar a força que tem na formação de uma democracia sólida com cidadãos conscientes. Quando esse dia chegar, colheremos vitórias e derrotas nos campos como fatos naturais da vida. Nesse momento, seremos uma sociedade de cidadãos e, para estes, o futebol está longe de ser uma prioridade.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e da Faculdade de Direito da Universidade Paulista, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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