A democracia, a revolução e a juventude! Cuidado para não ser “massa de manobra”!

Manifestação violentaSempre me posiciono a favor da democracia e assim prosseguirei. Ao longo de minha formação pude ler (e ainda leio!) obras políticas, jurídicas, econômicas e sociológicas das mais diversas linhas de pensamento. Não acredito em um regime liberal puro, ao menos no Brasil atual. Creio que o liberalismo, ao menos em países com nosso grau de subdesenvolvimento é um objetivo a ser conquistado com alguma intervenção do Estado. Este apenas utiliza a intervenção para garantir maior igualdade material, sem tocar nos direitos de liberdade. Isso é bem diferente do que tem sido feito pelo governo Dilma.

Fui jovem e sei o fascínio que o “ideal revolucionário” confere a essa fase da vida. Quando lemos Marx, ficamos seduzidos por aquela espécie de “motivação fraterna” que quer defender os marginalizados. Precisamos notar, porém, que Marx não significa esse ideal glorioso da “defesa dos mais fracos”. Marx dá e deu margem a regimes claramente autoritários. Defende a supremacia do proletariado e, por que não dizer, a ditadura do proletariado.

Boa parte dos regimes apoiados na teoria marxista, além de cometerem as maiores atrocidades em face dos direitos humanos, revelaram-se esquemas ardilosos para conferir poder supremo apenas aos “membros do partido”, à burocracia estatal. Na prática, Marx foi a base de genocídios como os praticados por Stalin na URSS e para o aniquilamento de cidadãos que cultivavam ideais diversos dos “oficiais”. O paredão cubano prova isso.

Ao longo de minhas reflexões, acompanhadas de leituras como as obras de George Orwell, percebi que esse fascínio revolucionário que move a juventude nada mais é do que um instrumento perigoso de manipulação das massas. Jovens querem mudanças e não têm paciência para compreender como as mudanças devem se dar. Querem tudo para agora! Com base nessa realidade, muitos políticos oportunistas utilizam a juventude para promoverem mudanças contrárias à democracia.

A democracia é o regime no qual temos o maior grau de liberdade. Ainda que se possa querer ainda mais liberdade, dificilmente encontraremos regime melhor. Eis o motivo que leva alguns a afirmar que a democracia é o “menos pior” dos regimes.

O Brasil viveu duas tenebrosas ditaduras. A primeira delas foi a implantada por Getúlio Vargas no período do Estado Novo. Getúlio perseguia inimigos, mas aparecia à massa como o “pai dos pobres”. Cerceava a liberdade e entregava um pouco de direitos sociais, sempre garantindo o controle do Estado. Ele lidava com uma espécie de “liberdade vigiada”. Cooptava líderes sindicais e, de tal modo, instituía o peleguismo por meio do qual manipulava os trabalhadores, com a cumplicidade de seus líderes. Quem lê “Memórias do cárcere” de Graciliano Ramos percebe o quão atroz foi a ditadura de Vargas. Regime de exceção que sempre tentou se esconder por meio de políticas sociais e do famigerado populismo.

O segundo momento foi o da ditadura militar. Nele não tínhamos um ideal “patriarcal” como o que foi utilizado por Getúlio. Os militares derrubaram Jangô afirmando que o presidente deposto era aliado dos comunistas e prometeram a transição para um governo civil. Infelizmente, alguns militares passaram a cultivar o “amor pelo poder” e mantiveram a ditadura por décadas. Esse episódio não deve ser atribuído à instituição Forças Armadas, pois esta integra o regime democrático e serve à defesa da soberania nacional.

A ditadura militar iniciada em 1964 foi emblemática, pois expôs um “inimigo comum” àqueles que nutriam valores democráticos. Mas também se tornou inimiga daqueles que pretendiam tomar o poder para instalar a própria ditadura. Muitos que optaram pela oposição armada queriam, em verdade, a implantação de uma ditadura de esquerda, nos moldes da URSS. Prestes e Marighella eram expoentes do pensamento comunista no Brasil e aceitavam – até apoiavam! – as atrocidades da ditadura soviética.

A guerra fria dava o tom do debate. Ficava bastante claro o que era ditatorial e o que havia de democracia em toda essa história. Os que pretendiam um regime democrático, apesar das diferenças internas, uniram-se “em uma só voz”. Em meio aos democratas também se encontravam os que queriam uma “ditadura diferente”, cuja ideologia é bastante conhecida e, para dissabor dos democratas, continua a ser afirmada no governo atual.

No final da década de 50 a Revolução Cubana demonstrou que era possível derrubar governos. Cuba, porém, jamais pretendeu a implantação da democracia. Isso foi notado por alguns, mas emocionalmente esquecido por outros. Fidel foi apoiado por inúmeros jovens brasileiro e chegou a treinar equipes de guerrilha. Os que seguiam para Cuba voltavam com a certeza de que o caminho era uma “ditadura de esquerda”, um regime socialista/comunista. O governo atual investe em Cuba. Constrói porto na ilha de Fidel e não investe na infraestrutura nacional. Curioso e triste, não?

Muitos jovens, sem conhecerem o real ideal de seus líderes e ignorando a ditadura castrista, acreditavam lutar por liberdade. Poucos percebiam o enorme grau de manipulação de parte de seus professores e de outros “paradigmas juvenis”. A existência de um inimigo evidente, a ditadura, cegava a juventude que apoiava regimes também ditatoriais, como Cuba. Essa cegueira é ampliada com o embargo econômico imposto à ilha de Fidel pelos EUA. Sem notar, o governo americano entregou a Fidel aquilo que ele mais precisava: o sentimento de vítima.

Cuba foi construída com a ideia de que era a grande vítima do imperialismo. Essa condição fez com que boa parte dos “pseudodemocratas” esquecesse as vítimas do regime cubano. Muitos passaram a idolatrar Fidel e sua coragem, como se ter o poder e aniquilar cidadãos também fosse algo apreciável. Confundiam a tomada do poder com o regime odioso que se instalou e que lá está até hoje.

Com o tempo e a consolidação da guerra fria, o imperialismo norte-americano passou a ser uma espécie de “inimigo universal”. O fascínio que isso proporcionava em muitos jovens era bastante evidente. Poucos conheciam os porões das ditaduras socialistas/comunistas. Acreditavam, ainda que a realidade gritasse o contrário, que o socialismo e o comunismo eram opções para a defesa de direitos humanos. Ignoravam, porém, que os socialistas e os comunistas eram especialistas na prisão e execução de seus opositores. As ditaduras ideológicas foram as mais sangrentas que o mundo já viu, sendo certo que a soviética e a cubana foram seus maiores exemplos.

A bandeira da igualdade e da defesa dos direitos humanos passou a ser atribuída a essas ditaduras, sublimando-se o lado negro de tais regimes. O que prevalecia era a “história contada” pelo poder central. Fatos eram deturpados e a propaganda oficial ditava a pauta da sociedade civil.

A luta pela democracia prosseguiu, mas ocultou intenções bastante deletérias à própria democracia. “Pseudodemocratas” se escondiam atrás dessa bandeira, mas jamais apreciaram as instituições democráticas. No Brasil, muitos pensavam à moda de Getúlio Vargas. Buscavam um “salvador da pátria do partido” e aceitariam o que quer que ele fizesse. Havia uma devoção messiânica nessa matéria. A realidade era deturpada e muitos “pseudodemocratas” não cogitavam criticar os abusos de governos ditatoriais de esquerda. Ao contrário, queriam implantar algo parecido no Brasil.

Em todo esse contexto e, pelas razões acima expostas (de maneira bastante sintética!), os jovens eram as maiores vítimas dos “pseudodemocratas”. O ímpeto da juventude era enganado pelo “ideal de democracia” e utilizado para a implantação de uma outra forma de ditadura. Felizmente, o Brasil seguiu para um regime democrático e consolidou suas instituições.

Em que pese vivermos uma democracia, ainda que o governo tome atitudes contrárias a tal regime, muitos jovens prosseguem com o ideal que existia na década de 60. Segundo me consta, necessitam dessa dualidade para encontrarem razão à própria existência. Não notam que a luta pela democracia já foi conquistada e que, agora, é ela que está em perigo. Preferem negar as instituições e o regime democrático para viverem o “ideal revolucionário”. São incapazes de notar que na democracia a sociedade civil deve atuar de maneira consentânea com os instrumentos do regime. Um regime, este sim, que se volta à promoção dos direitos fundamentais sem esquecer o principal deles: a liberdade individual.

O fascínio pelo “ideal revolucionário” cega alguns jovens. Eles negam a existência da democracia e se oferecem para trabalhar em prol de líderes que querem aniquilá-la de uma vez por todas. Aqueles que são “movidos pelo coração” devem atentar para o “poder da razão”. Professores vivem a deturpar teorias e fatos a fim de cooptar jovens para atuação “revolucionária”. Não têm o menor pudor de utilizar os jovens, manipulando-os. Cerceiam a reflexão de caso pensado! Ninguém os informa, contudo, que a revolução não é um movimento com começo e fim. Basta olhar Cuba e notar que a ditadura castrista se prolonga por mais de 40 anos e, ainda assim, prossegue sendo modelo político para muitos jovens.

Chávez embarcou na mesma ideia. Ressuscitou os ideais de Simon Bolívar e o “lobo mau” representado pelo “imperialismo norte-americano”. Poucos notaram que a ideia de Chávez era um plano de poder e não a busca da democracia. Chávez conseguiu enganar boa parte de seus compatriotas. Conseguiu colocar a Venezuela na falsa dicotomia da guerra fria. Voltou a dividir a Nação entre “nós e eles”, atitude atualmente implantada pelo governo brasileiro.

Algumas das manifestações populares recentes demonstram a existência disso que escrevo. Movimentos bastante violentos e absolutamente antidemocráticos afirmam atuar em prol da democracia, mas ignoram seus instrumentos e menosprezam as instituições democráticas. É claro que, como outrora, há líderes que vendem a ideia de democracia para lucrar mais adiante com projetos de poder. Os jovens que se prestarem ao papel de “massa de manobra” serão sumariamente esquecidos quando a democracia perecer e o poder se instalar, em definitivo, nas mãos dos “pseudodemocratas”. É bom refletir sobre isto, especialmente em virtude de claras demonstrações do governo Dilma contrárias à democracia.

E aí, meu jovem, você é “massa de manobra”? Se for, ao menos esteja ciente disso! Meu papel é alertá-lo. Aprecio a democracia e a liberdade. Jamais serei um professor que busca impor ideologias. Formo alunos pensantes e não discípulos ignorantes. Se este texto servir para algo, utilize-o. Do contrário, siga sua liberdade e saiba que, na democracia, infringir a ordem jurídica acarreta consequências. Seja feliz!

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e da Faculdade de Direito da Universidade Paulista, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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3 Respostas

  1. Grande Mestre, gostei muito deste texto, e penso que deve ser divulgado como um alerta a nossa juventude, que tem grande impeto de reação e pouca percepção. Convivi com muitos membros do partido do governo por um longo período e analisando a organização, a postura e o comportamento dos mesmos conclui:
    1. O engajamento na causa populista é por força do impeto juvenil e as sempre presentes propostas e promessas mirabolantes de igualdade social;
    2. Com o passar do tempo e os treinamentos ” lavagem cerebral, guerrilhas, aliciamentos,etc, o envolvimento é tão intenso que o envolvido torna-se um fanático e não aceita qualquer critica ou opinião divergente de seu grupo ( comportamento típico e perceptível nos políticos do partido do governo) ¨eles não erram nunca, a máxima utilizada é sempre aquela de que os meios justificam os fins”
    3. Por conta deste fanatismo exacerbado, a maioria deles não consegue conviver nem com a própria família, 90% daqueles com os quais convivi já haviam se separado da esposa e dos filhos, tudo o que importa é a causa, o resto é secundário, ( família, amigos, convivência social), objetivo é servir a causa do partido e não acreditam que estão sendo usados como massa de manobra;
    4. Os que se sobressaem nas atividades meio, passam a figurar no quadro de comando e exercer liderança ou para comando das diversas facções do partido ou a cargo politico.
    5. A massa de manobra é imensa e aliciada por promessas e ate oportunidades, na política toma la da cá de grande parte das empresas com fortes relações com os sindicatos ou no governo em qualquer escalão.

  2. Caro Gilmar,
    Agradeço as palavras e o excelente comentário. Não há nada a acrescentar! Sua avaliação é bastante objetiva e complementa aquilo que busquei transmitir. Obrigado! Abraços.

    • Não há o que agradecer mestre, compartilho do mesmo pensamento e acredito na juventude, porém, sinto que temos o dever de alertá-los para que sejam realmente pensadores e não discípulos, sob o grave risco de se tornarem massa de manobra de políticos inescrupulosos, que infelizmente é o que mais temos em nossa Nação hoje.
      Grande abraço

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