Será que a campanha de Marina se manterá?

Marina SilvaQuando Eduardo Campos decidiu atrair Marina Silva para seu partido, logo após a inviabilidade da criação da REDE (partido que a candidata ainda criará), afirmei que a estratégia não era “certeza de êxito”, mas sim grande possibilidade de equívoco. As razões eram (e ainda são!) bastante claras. Marina Silva é uma política que não sabe transigir. Ainda que essa característica seja por muitos considerada como uma virtude, a verdade é que a política não pode prescindir da capacidade de resilir. A política é a “arte do possível”.

Em que pese a clara intransigência de Marina, as mãos competentes de Eduardo Campos trabalharam no sentido de conseguir boas alianças nos Estados e afastar parte do medo que setores produtivos, sobretudo do agronegócio, demonstram em relação à candidata. A vitalidade de Eduardo e sua vasta experiência política, tendo exercido mandatos no Poder Executivo, propiciaram maior aceitação de Marina pelo público e aquietaram os ânimos de setores avessos à candidata.

Com o precoce falecimento de Eduardo Campos a coisa muda. Muitos incautos afirmarão que muda para melhor em relação à candidatura do PSB. Todavia, não penso desse modo. Quem imagina haver algum aspecto positivo na candidatura de Marina como cabeça de chapa do PSB se baseia, quase que exclusivamente, no avanço das intenções de voto. De fato, enquanto Eduardo apresentava 8% das intenções, Marina sai com 21%.

Ocorre que essa elevação se dá por motivos bastante conhecidos. O primeiro deles está atrelado à comoção proveniente do trágico acidente que vitimou Eduardo Campos. O segundo reside na captação de votos de boa parte dos indecisos e na falsa crença de que um político intransigente como Marina pode significar alguma mudança na política nacional ou, ainda, consolidar a chamada terceira via.

É inegável o avanço da candidatura do PSB. Todavia, nenhum avanço está garantido até as eleições. Parece-me que o avanço de Marina tende a passar por retração com o tempo. Penso ser difícil à candidata atrair mais votos. Ouso afirmar que o movimento natural seja a efetiva diminuição de seu percentual nas pesquisas.

Marina Silva é um quadro político difícil de se lidar. Ela não parece capaz de compreender contextos políticos que demandam exercício de reflexão e traquejo. Traquejo político não significa demérito a um político. Antes, apresenta-se como a real virtude que dirige a vida de um político capaz. Eduardo Campos era especialista na arte da política. Era alguém que circulava muito bem em todos os partidos e que conseguia costurar acordos, sem fazer qualquer espécie de “jogo sujo”.

Os primeiros indícios da intransigência de Marina Silva começam a surgir. O coordenador de campanha de Eduardo Campos deixou seu posto. Segundo as notícias, não encontrou qualquer viabilidade de diálogo com Marina. A “herança” de Eduardo Campos é bastante positiva e merece um tratamento cuidadoso. Marina, porém, não me parece a pessoa ideal para manter esse “legado”. O primeiro desgaste da campanha está claro e, uma vez mais, ouso afirmar que outros desgastes virão.

A par de tudo isso, ainda que Marina Silva busque legitimar a posição de “herdeira” do legado de Eduardo, sabemos que a aliança entre os futuros integrantes da REDE e os atuais integrantes do PSB está com os dias contados. Trata-se de uma coligação que nasceu com “prazo de validade”. Quando o partido de Marina estiver devidamente constituído, o diálogo entre seus integrantes e o PSB ficará bastante difícil, quase impossível.

Outro aspecto que deve ser avaliado é a postura quase “monotemática” de Marina. Ao contrário de outros candidatos e do próprio Eduardo Campos, Marina nunca esteve em cargo no Poder Executivo. Sua pauta é bastante própria da atividade parlamentar. Não há, de parte de Marina, uma visão a respeito dos diversos temas envolvidos na política nacional. Em que pese a “esperança” que ela representa para alguns, a verdade é que a candidata não têm as mesmas condições de seus adversários em termos de gestão. É claro que a esperança pode vencer a avaliação da competência e, se isso ocorrer, quem sairá prejudicado será o país.

Se podemos afirmar um aspecto positivo da formalização da candidatura de Marina Silva, certamente será a enorme possibilidade de haver segundo turno. Afinal, Eduardo Campos, apesar de seu preparo, não conseguiu o mesmo percentual de intenções de votos obtido, a priori, por Marina.

Não que Marina seja melhor do que Eduardo. Aliás, muito pelo contrário. Mas Marina encarna um caráter “messiânico” que parece seduzir parte do eleitorado. Segundo pesquisas recentes, a maior parte de seus eleitores é formada por jovens estudantes. A razão é simples: a juventude tem por maior objetivo a esperança de romper com as estruturas políticas. O problema também resta claro. Afinal, Marina Silva não representa o que sua imagem busca transmitir. É forma, sem conteúdo.

É óbvio que ainda é cedo para fazer análises conclusivas. Entretanto, entendo que a tendência esperada para a campanha de Marina é de estagnação ou perda de intenções de voto. Se eu estiver errado e Marina for ao segundo turno e, hipoteticamente, ganhar as eleições, tenho absoluta certeza de que enfrentaremos um governo com altíssima dificuldade do ponto de vista da governabilidade. O radicalismo de Marina a aproxima do antigo PT. O PT aprendeu rápido a transigir e passou muito do ponto. Revelou-se o partido das alianças espúrias, da barganha que despreza o interesse público e que só se move por projetos de poder. Marina não aprenderá e, caso eleita, capitaneará um governo com alto índice de engessamento.

Apesar dessa hipótese vitoriosa para Marina e desastrosa para o Brasil, creio que ficará apenas na hipótese. Minha avaliação, ao menos por enquanto, segue no sentido de que a campanha de Marina, em virtude de suas características pessoais, não conseguirá manter as intenções de voto até o momento demonstradas. A candidata não conseguirá, a curto ou médio prazo, manter unidos os partidos que integram sua coligação. O maior legado de Eduardo Campos jamais será absorvido por Marina. Afinal, nunca veremos a candidata como alguém capaz de conduzir processos políticos complexos, aos quais se mostra imprescindível a capacidade de diálogo que Campos tinha e que Marina jamais terá.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e da Faculdade de Direito da Universidade Paulista, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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