A triste demonstração de racismo no jogo Grêmio e Santos

escravidãoAs atitudes de alguns torcedores presentes no estádio onde ocorreu a partida entre Grêmio e Santos é mais do que deprimente, é criminosa. Impressiona-me a ignorância de alguns indivíduos ao praticarem injúrias raciais que apresentam o quão retrógrada é parte de nossa sociedade. As ofensas perpetradas em relação a jogadores negros joga um balde de água fria em todos aqueles que, como eu, acreditam em um mundo democrático fundado na tolerância.

A atitude é ainda pior em um país como o Brasil. Nossa origem tem estreitas relações com os negros, com os índios e com os brancos. Somos miscigenados por natureza. Nenhum de nós pode se afirmar uma “raça pura”. Aliás, ainda que isso fosse possível, tal comportamento nos lembraria período tenebroso da humanidade, no qual um louco, chamado Adolf Hitler, pretendeu buscar a “raça pura ariana” e, em prol desse objetivo, cometeu o maior genocídio que o mundo já viu.

Infelizmente, o preconceito racial não é o único existente em nossa pátria. Há também o preconceito social que busca avaliar como seres menores aqueles que não têm determinada condição socioeconômica. A questão social aniquila, em alguma medida, o preconceito racial. Por que? Porque determinadas pessoas, tais quais as que ofenderam o jogador do Santos, não encaram da mesma forma o negro que está “bem de vida”. Esse comportamento é ainda mais deprimente, talvez um traço de nossa cultura provinciana que nos faz tão mal.

O Brasil padece de um inegável atraso em termos de cidadania. Quando a Constituição Federal de 1988 estabelece como um de seus fundamentos a dignidade da pessoa humana, não fala apenas da dignidade do ser isoladamente considerado. Refere-se à dignidade humana inserida num contexto maior, no contexto social. Quando eu vejo a forma agressiva como alguns torcedores se dirigiram ao jogador santista, percebo que não foi ultrajada apenas a dignidade dele, mas a minha e de todos aqueles que acreditam na existência da raça humana, com total igualdade entre sexo, cor, idade, credo etc.

Os brasileiros que envergonharam a Nação com a atitude comentada, são ofensores da dignidade humana de todos nós. São indivíduos desprovidos da capacidade necessária para o convívio social. Falar mal de um ser humano em razão de seu sexo, de sua cor, de sua idade ou de seu credo, é falar mal de todos os seres humanos. Somos iguais, ainda que não sejamos idênticos. Essa igualdade nos garante tratamento isonômico. Fossemos idênticos e o mundo perderia a riqueza representada pela pluralidade, eis aí a razão da tolerância.

A humanidade depende de comportamentos que apreciem o ser humano em qualquer condição que se encontre. Rico ou pobre, negro ou branco, católico ou judeu, heterossexual ou homossexual, jovem ou idoso. É uma pena que alguns indivíduos ainda se pautem por uma mentalidade que nega a igualdade inerente a todo e qualquer ser humano.

Não há como aceitar esses comportamentos deletérios não apenas à democracia, mas sobretudo ao sentimento de humanidade que deve ser alicerce da vida em sociedade. Os responsáveis pelos atos, uma vez identificados, devem encontrar o rigor da lei penal. Não há qualquer desculpa para essa atitude. Não aceito que o “calor da partida” seja uma saída para os ofensores. A razão da ofensa era claramente a cor da pele do jogador santista. Se, no Estado Democrático de Direito, situações como essa forem toleradas, estaremos à beira de um colapso.

Quando acompanho fatos lamentáveis como o ora tratado, lembro-me do período em que seres humanos escravizavam os negros africanos. Lembro-me da luta de abolicionistas como Joaquim Nabuco e do fervor com que ele e seus pares defendiam o fim desse famigerado regime escravocrata que julga seres humanos a partir da cor de sua pele. Sou e sempre serei contra qualquer forma de discriminação!

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e da Faculdade de Direito da Universidade Paulista, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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