Minha preocupação com a “nova política” de Marina Silva: a incoerência em pessoa

Marina IIIA “nova política” proclamada por Marina Silva é uma expressão que não encontra clara definição sequer através de pronunciamento da referida candidata. Com baixo grau de rejeição, simplesmente por jamais ter exercido um mandato eletivo no Poder Executivo, Marina segue a afirmar que SUA “nova política” é a negação da “velha política”. Sustenta que ela vai fazer tudo aquilo que o cidadão de bem, indignado com os “político profissionais”, quer que seja feito.

A verdade, contudo, é que só deveria existir a boa política e não a velha ou a nova. O que a cidadania deve esperar da política é o exercício de mandatos por seus representantes que se paute pelos princípios norteadores da Administração Pública, com especial atenção à moralidade e aos mandamentos éticos. Não é má política a costura de alianças em prol da governabilidade e com respeito ao interesse público, como Marina, inicialmente – ainda sem as dicas de seus assessores – afirmou.

Curioso, porém, que Marina Silva se autoproclame defensora da nova política apresentando um passado tão próximo da “velha política” que ela tanto critica. Dentre todos os presidenciáveis, Marina foi a que mais trocou de partidos em menor tempo. Era petista fervorosa. Conseguiu, com sua intransigência, criar enorme animosidade com os correligionários.

Tendo em vista sua bandeira monotemática, Marina Silva migrou para o PV e por este partido concorreu em 2010. Saiu do PV, também em razão de sua intransigência inata, para criar a REDE Sustentabilidade. Não conseguiu, por vários motivos, registrar o novo partido. Eduardo Campos se aproximou da candidata e ela aderiu à campanha do falecido presidenciável. Assim, Marina integra os quadros do PSB, mas sua filiação tem os dias contados, pois, em breve, ela será membro da REDE.

Ao tempo que integrava o Partido dos Trabalhadores e o PV, Marina Silva era ferrenha opositora das propostas do PSDB. Avessa ao agronegócio, tendo em vista seu perfil monotemático, sempre representou uma ameaça ao desenvolvimento desse setor que garante parcela significativa do produto interno bruto. A lei de biossegurança, oriunda do período em que Eduardo Campos era Ministro de Lula e diretamente influenciada pelo líder pernambucano morto em agosto de 2014, recebeu duras críticas de Marina Silva. Nessa época, Marina se dizia absolutamente contrária aos transgênicos.

Em recente entrevista aos canais de televisão, Marina parece ter mudado de ideia. Agora ela se apresenta a favor dos transgênicos – sabe-se lá quais os termos dessa opinião -, bem como afirma pretender estimular o agronegócio. A Marina de hoje é bem diferente da Marina que integrava o PT e, até mesmo, daquela que concorreu em 2010. Seria essa incoerência um componente da “velha política” ou da “nova política” defendida por Marina? Isso me lembra as atitudes de Kassab que, ao criar o PSD, afirmava que o partido não era de esquerda, de centro ou de direita. Era um partido que nascia para receber “de tudo um pouco”. Quem estivesse insatisfeito com os partidos aos quais eram filiados encontraram no PSD uma tábua de salvação.

O ex-prefeito de São Paulo foi bastante criticado por isso. Marina Silva, porém, não recebeu a mesma reação. O baixo índice de rejeição de Marina e sua clara intenção de se apresentar como messias (“salvadora da pátria”) parecem inibir a reflexão necessária de parte dos eleitores. O vai e vem de Marina é positivamente avaliado, ao contrário do que ocorreu com aqueles que, segundo ela, apesar de terem feito exatamente a mesma coisa, participam da “velha política”.

Devemos lembrar, também, a clara devoção de Marina Silva ao criacionismo e sua radical posição em temas com reflexos religiosos. Sabidamente evangélica, Marina disse, recentemente, que busca soluções para problemas complexos lendo a bíblia. Será mesmo esse o caminho para um Estado laico? Será que Marina está preparada para governar e garantir a liberdade de crença ou representa aquilo que há de mais conservador em termos políticos, sendo, portanto, integrante daquilo que ela chama de “velha política”?

Mas não é só. Por diversas vezes Marina afirma que governará com os melhores quadros do PT e do PSDB, ainda que jamais tenha sido capaz de buscar a união nos partidos que passou. Para quem bem avalia a proposta, vê claramente que a tal “nova política” parece se classificar como uma mistura de tudo que havia na “velha política” tão criticada.

Marina, por exemplo, defende os três pilares da política econômica de Fernando Henrique Cardoso. Se queremos segurança e previsibilidade na economia, contudo, melhor escolhermos quem segue, desde muito cedo, esse ideal. Lembremos que Aécio Neves, também candidato, é o representante da política econômica de FHC e não Marina.

A popularidade que Marina Silva conquistou se deve a diversos fatores, muitos dos quais já comentados em textos anteriores. Infelizmente, o brasileiro não confia seu voto a um político em vista de sua competência, o que se aplica a Aécio Neves e se aplicava a Eduardo Campos, mas sim a um ideal bastante etéreo e pouco pragmático. Como Marina diz, ela não é pragmática, mas sim “sonhática” (péssimo neologismo, afirme-se!).

O eleitorado brasileiro ainda não compreendeu que política demanda trabalho e preparo. Plataformas utópicas ou generalistas não costumam viabilizar governos eficientes. Marina, contudo, se aproveita desse triste perfil do eleitorado, prometendo sonhos e levantando bandeiras em face das quais ninguém pode ser contrário. O problema é que as bandeiras de Marina não encontram respaldo em demonstrações efetivas de como serão implementadas.

Ainda que deixemos de lado esse perfil sonhador de Marina e sua inata intransigência, não há como, mesmo para os “dominados pela esperança”, deixar de pensar sobre o que ela fala e o que ela faz. A incoerência surge de maneira bastante clara. Se um dos principais elementos da chamada “velha política” é o “troca-troca” de partidos, Marina está dentre as maiores adeptas dessa estratégia.

Sob a designação de “nova política”, o povo, sem maior instrução, pode eleger a “velha política” que a própria Marina Silva critica e obter algo ainda pior do que isso. A baixa rejeição mantém a falsa imagem de Marina, enquanto propostas bem mais concretas são afastadas por aqueles que acreditam serem elas da “velha política”. Em suma, não me movo pela “velha” ou pela “nova” política, até porque, segundo Marina, ela é a única representante da segunda (baita sinal de arrogância!).

O que me move é a boa política e, para esta, o que importa é trabalho e competência. Cansei de ver “postes” sendo eleitos como promessas, como esperança. Já afirmei e repito, na composição original, o pleito de 2014 tinha duas saídas: Aécio Neves ou Eduardo Campos. Com a morte deste último, só nos resta o primeiro que, a bem da verdade, sempre foi o meu candidato.

Àqueles que escolheram Marina Silva de última hora, sugiro que avaliem, no mínimo, o curioso passado da candidata que, apesar do expressivo percentual de intenções de voto, não encontra o mesmo apoio sequer em seu Estado de origem (o Acre). Se as coisas prosseguirem do modo como estão – e é bastante provável que assim seja – teremos um tenebroso 2º turno, no qual a escolha ficará entre o péssimo e o ruim. Uma pena!

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e da Faculdade de Direito da Universidade Paulista, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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