Bolsonaro incomoda mais do que a alteração da LDO. Não apoio Bolsonaro, assim como abomino esse modo brasileiro (irresponsável) de lidar com as situações relevantes ao país!

BolsonaroJamais defenderei o Deputado Jair Bolsonaro. Não me identifico com ele, ainda que possa concordar com algumas de suas opiniões a respeito do governo federal. Rechaço, porém, a forma polêmica com que se refere aos seus pares. Sua intolerância em relação a determinadas situações também me parece exagerada e caricata. Não penso que o debate de ideias possa se dar sem um preceito básico de urbanidade, qual seja, a educação. Bolsonaro exagera em suas colocações e parece “jogar para a plateia” em determinadas situações ou, quiçá, em todas elas. Fala para um grupo de pessoas que, como ele, acreditam que tudo deve se dar a partir de uma divisão entre “bons e maus”.

O que mais me incomoda, porém, em todas as posições, favoráveis ou contrárias à posição do referido deputado, é saber que existem excessos de ambos os lados. O debate político está cada vez mais próximo do debate religioso, repleto de dogmas e de intolerância. Na democracia não pode ser assim! Parte daqueles que se colocam contra Bolsonaro utilizam a mesma “lógica” – se é que existe alguma! – contida nas declarações do deputado. O “bem” e o “mal” ocuparam o debate político. A raiva substituiu o argumento e a devoção deixou de lado qualquer reflexão. Vejo de ambos os lados pessoas absolutamente corrompidas por paixões. Vivem na base do morrer e matar!

A quem interessa esse diálogo pobre? Ora, a pobreza do debate é o caminho para as grandes questões passarem longe das verdadeiras pautas nacionais. Os que tentam defender a conduta mal educada de Bolsonaro o fazem através de atos que buscam igualar os que são contra o deputado. Há gente publicando que Bolsonaro apenas falou enquanto assessores de parlamentares e ministros do PT foram condenados por pedofilia e estupro. Há pessoas que buscam defender as declarações do deputado sustentando que o lado oposto defende os estupradores. Tudo isso é bastante pobre em termos de democracia! Tudo isso se mostra um atraso na construção de um debate profícuo.

Noto que os que criticam Bolsonaro de maneira mais veemente não se dão conta de muitos aspectos bem mais relevantes que estão em jogo na política brasileira. O “justo” ou “injusto” sempre seduziram, e prosseguem a seduzir, aqueles que se posicionam a respeito da conduta do deputado. Reafirmo: para mim Bolsonaro é uma pessoas extremamente grosseira e intolerante. Jamais deveria ter dito o que disse e, se assim seus pares entenderem, pode ter promovido a quebra do “decoro parlamentar”.

O ponto, porém, é outro. Bolsonaro é um deputado que, ainda que pareça impossível, encontra amparo na sociedade. Afirmar que ele não merece representar ninguém é desprezar a expressiva votação que ele teve e as regras do sistema político de representação. Bolsonaro na Câmara reflete e representa parte das vontades do povo – de parcela da população. Mas assim como ele disse o que disse, também se posiciona de maneira menos grotesca em face de temas que deveriam merecer maior interesse da população.

Sou e sempre serei um defensor dos direitos de todos os cidadãos. Jamais apoiarei qualquer ato como o praticado por Bolsonaro. Penso que é uma ofensa ao sexo feminino afirmar que alguém não merece ser estuprado, como se existisse pessoa no mundo que fizesse jus a ato tão atroz. É claro que está errada a conduta do deputado! As providências podem e devem ser tomadas dentro das regras do jogo democrático. Mas trazer esse fato como a grande questão do Brasil de hoje é ignorar aspectos de enorme relevância que acontecem e fazem enorme mal ao país.

O comportamento de Bolsonaro nessa situação específica, imagino, representa a opinião do deputado e não de seus eleitores. Trazer esse fato para o centro da discussão política é, ao invés do que se pensa, dar publicidade ao deputado. Favorecê-lo!

Por outro lado, mas seguindo a mesma lógica, há parlamentares que defendem causas claramente contrárias à opinião da maioria. Lembro-me do discurso de um deputado “bastante popular” que simplesmente pretendeu generalizar a Igreja e, por conseguinte, seus seguidores, como pedófilos. Como seres desprovidos de qualquer espécie de razão. Isso não mereceria a mesma atenção dada às declarações de Bolsonaro? Mereceria! Mas seria, uma vez mais, conferir popularidade a uma pessoa que não tem a menor capacidade intelectual e emocional para exercer a função de parlamentar. Foi eleito, porém! Quem julga o comportamento é o meu ideal de parlamentar. Eu sou apenas um, enquanto os eleitores de ambos são milhares.

Tenho enorme dúvida se aquilo que me move a escrever este texto será compreendido por ambos os lados. Não me posiciono em matéria política como um torcedor de futebol. Não sei pautar minha cidadania em paixões que em nada contribuem à construção de uma democracia real. Infelizmente, o brasileiro prossegue agindo de maneira bastante impensada. A falta de reflexão cega os brasileiros em relação ao fato de a discussão em questão ser totalmente avessa à consolidação da democracia. O velho discurso que divide o país entre “nós” e “eles”, “bons” e “maus”, seduz de maneira quase irreversível os indivíduos.

Se seguirmos esse “sistema”, Bolsonaro poderá se tornar presidente, assim como o tal deputado que sempre tenta generalizar aqueles que professam livremente sua fé. Uma pena que a pobreza da democracia brasileira se manifeste dessa forma. Afinal, a atitude de Bolsonaro tocou mais fundo nos brasileiros do que a aprovação da absurda alteração na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que anistiou os possíveis crimes de responsabilidade praticados pelo governo federal. Enquanto discutimos as formigas que gritam, os elefantes passeiam em silêncio!

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo e da Faculdade de Direito da Universidade Paulista, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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