O pronunciamento de Dilma e o famigerado maniqueísmo da esquerda radical

Dilma magoadaOntem a presidente da República fez seu pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão. Para aqueles que conhecem minimamente o pensamento da esquerda radical, Dilma deu um show (de horrores!). Ela fez tudo aquilo que a propaganda stalinista fazia na URSS. Fatos foram deturpados, como se a crise que enfrentamos tivesse menor importância. A corrupção foi tratada como um dado bastante distante. O eufemismo reinou sozinho em todas as avaliações conjunturais feitas pela presidente. Não faltou a lembrança da divisão que ela e seu partido adoram fazer entre “nós X eles”. Todas os fatos constantes de notícias que circulam por todo o país, todos os dados de institutos oficiais de pesquisa, todas as críticas feitas ao atual governo, tudo isso é resultado de uma grande “teoria da conspiração” dos “inimigos dos petistas”.

Esse quadro apenas engana aqueles que ignoram um elemento central do discurso da esquerda radical. Ela não vive sem um opressor contra quem deva mostrar suas garras. Esse discurso precisa de um inimigo. A ideologia de esquerda se apresenta como a salvação dos oprimidos. Logo, deve apontar o dedo aos opressores, pois, se estes não forem nomeados – ainda que de maneira irreal – a própria esquerda deixará de existir. O liberalismo é a teoria central da liberdade. Mas a esquerda afirma ser a liberdade extrema causa de opressão e, assim, ataca o liberalismo, ainda que as práticas da esquerda radical imponham as piores censuras aos direitos de liberdade. Trata-se de um discurso apaixonado – sabidamente irrefletido –, cuja incoerência é apresentada a cada novo argumento.

O discurso de Dilma lembra as páginas de 1984 de George Orwell. A infinda capacidade de dividir a sociedade entre os que “estão conosco” e os que “estão contra nós” é reiterada a cada frase. A reação da sociedade é rapidamente avaliada com base nessa cisão odiosa dos cidadãos. Para os fanáticos petistas, o panelaço representa a opressão elitista, assim como as vaias na abertura da Copa e parte das manifestações de junho de 2013. Na visão desses indivíduos – eles os reais separatistas e fascistas – as classes mais favorecidas não têm o direito de reclamar e, caso assim façam, tal conduta representa o mais cruel efeito da luta de classes. Afinal, Dilma defende os pobres. Será?

A partir do 2º semestre de 2014 aumentaram os rumores de descontrole inflacionário. O tema foi central na campanha presidencial. Muitos petistas sustentavam que a preocupação com a inflação é “coisa de burguês”. Nessa época afirmei que o controle promovido pelo Plano Real foi a principal política social dos últimos tempos. Através dele o trabalhador teve garantido o poder de compra de seu salário. Os que idolatravam Dilma, porém, prosseguiam sustentando que inflação é preocupação de “coxinha”. Atualmente, com claro descontrole inflacionário, as classes menos favorecidas começam a sentir o valor de compra do salário ser corroído. Empresários se deparam com oneração fiscal e já anunciam a necessidade de demitir funcionários. Insumos básicos como luz e água encarecem como “nunca antes na história do país”, efeito do artificial represamento de tarifas levado a cabo pelo atual governo em atitude lamentavelmente populista.

Por mais que petistas emocionados queiram, uma vez mais, desvirtuar os fatos e atribuir o panelaço à elite, diversos sindicatos organizam manifestações de repúdio ao governo Dilma. Serão eles considerados a “elite sindical”? Não, não serão. Eles representam o “chão de fábrica” reclamando das péssimas condições de emprego e da queda do poder aquisitivo. A festa do consumo desenfreado e desestruturado cobra seu preço. As medidas pueris de Guido Mantega à frente do Ministério da Fazenda nos impõem o amargo remédio das providências que implicam recessão e desemprego. A elevação da carga tributária e dos juros se apresenta como mecanismo para salvar o Brasil de uma crise ainda pior. As sequelas virão.

Exposto tal quadro, resta bastante evidente que vivenciamos as crises política e econômica. A primeira está bastante atrelada ao isolacionismo de Dilma e às recentes revelações da lista de Janot. A segunda decorre do tenebroso populismo – tantas vezes apontado neste blog – que buscou a implementação de políticas econômicas de simples fomento ao consumo, sem a devida atenção à estruturação do setor.

A reação popular assistida após o discurso de Dilma não deve ser interpretada como querem os defensores da presidente. O povo reclama do descaso e da hipocrisia do atual governo. Sente-se traído pois sabe que os fatos noticiados pela presidente são peça de ficção. A vida real bate à porta do brasileiro e começa a apresentar as memórias provenientes do tempo de inflação galopante. Conquistas estão a caminho do abismo e o futuro se desenha bastante difícil. O povo, ainda que os “dilmistas” não admitam, sabe bem quem tem a maior parcela de culpa nessa trágica realidade.

Nessa esteira, a oposição – que, como já me posicionei – parece bastante tímida, deve recuperar a relação conquistada com a sociedade civil ao longo da campanha presidencial. Penso que as próximas semanas devem apresentar protagonismo dos oposicionistas. O povo precisa ser ouvido e isso passa pela atividade dos representantes da oposição. Fala-se em impeachment, mas pouco se sabe a respeito dessa medida. Não me parece que ele seja o caminho imediato, conforme escrevi em texto anteriormente publicado. A meu ver, assim como um dia as ruas gritaram “Fora Collor”, é este o grito que deve surgir a partir de 15 de março de 2015 em relação à Dilma. Se das investigações em curso – Lava Jato e CPI do Petrolão – não surgir fato que configure crime de responsabilidade, a crise política implicará agravamento da legitimidade da presidente, a depender da pressão das ruas. A pressão poderá seguir no sentido da renúncia. Mas é cedo para deliberar sobre esse tema tão delicado.

Espero que a oposição saiba fazer o melhor para o país e não o melhor para si mesma. A manutenção das crises política e econômica gerará efeitos deletérios aos interesses nacionais. É preciso racionalidade por parte dos oposicionistas, a fim de que a crise seja superada para o bem do Brasil, com ou sem renúncia, com ou sem impeachment. Mais vale recuperar os rumos do país do que capitalizar politicamente com a crise. Nesse sentido, a sangria não deve ser vista como razão em si mesma. Impõe-se a busca por resultados objetivos dentro dos instrumentos oferecidos pela democracia e por nossas instituições.

Por fim, um recado àqueles que ainda se chateiam com o eterno maniqueísmo da esquerda radical: lembrem-se que discussão real apenas pode ser travada de maneira racional. O debate baseado na “vitimização” dos oprimidos que fundamenta o ataque a opressores imaginários consubstancia a premissa equivocada que faz sucumbir todo e qualquer diálogo que se pretenda racional. Sendo assim, avaliem e não se abalem. Quero ver como esse argumento será sustentado quando os trabalhadores – não o “exército de Stédile” – for às ruas para reclamar melhores condições de vida. Serão chamados de a nova classe média opressora? A infantilidade dessa espécie de avaliação é evidente e destrói a si mesma em segundos.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), da Faculdade de Direito da Universidade Paulista e de programas de pós-graduação em instituições de  ensino superior, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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