Infantilidade intelectual e reducionismo pautam o discurso político do governo

Manifestação PaulistaOntem, 15 de março de 2015, o Brasil se deparou com um amplo movimento de parte da sociedade civil que ocupou as ruas de diversos Estados do país manifestando descontentamento, essencialmente, com o governo federal e com a corrupção generalizada. Fui ao evento ocorrido na Av. Paulista, na cidade de São Paulo, e pude constatar a pluralidade de setores que resolveram se unir. Existia gente de todas as idades e de todas as classes sociais e, ao contrário daquilo que vimos em junho de 2013, havia alguma uniformidade naquilo em razão de que o povo se manifestava. O alvo principal era o governo da presidente Dilma.

A evidente reclamação em relação ao governo Dilma, a qual já havia sido manifestada durante o panelaço que se deu, espontaneamente, enquanto a presidente discursava em 08 de março de 2015, atrelado à imediata manifestação – após a passeata – do governo pelas vozes dos ministros Rossetto e Cardozo, permite-nos constatar que o governo sabe bem que é o principal alvo das manifestações. Apesar disso, o discurso dos “homens de Dilma” ainda não demonstra o que se espera de um governante atento às pautas da sociedade.

Antes de avaliar a posição do governo em face das manifestações, devemos apontar a infantilidade intelectual e o reducionismo de parte de alguns apoiadores do governo Dilma. Na semana que antecedeu a grande passeata contra o governo, milhares de apoiadores buscaram retirar a legitimidade daqueles que iriam às ruas. Ademais, pareciam não acreditar na grande proporção que o ato atingiria. Diziam que o panelaço do dia 08 de março representava a manifestação da “elite branca” que vai contra os anseios dos menos afortunados. Nota-se que esses apoiadores atuam, como boa parte dos radicais da esquerda, como crianças que pensam pensar e que preferem reduzir questões complexas a fórmulas duais, maniqueístas, que não refletem a realidade.

Historicamente – já mencionei isto neste blog – o discurso de esquerda precisa de um opressor e de milhares de oprimidos. A pauta sempre reside na libertação dos oprimidos e na realização da justiça social a qualquer custo. Quando um governo baseado nesse discurso é contestado, prontamente se coloca na condição de vítima de uma espécie de “conspiração”. Esta, seja de que natureza for, é sempre tratada como burguesa, golpista e fascista. Tudo que não é a favor dos “teóricos do governo” é contra. Está aí a razão para vivermos essa divisão tenebrosa entre “nós X eles”. Quando os defensores do governo defenderam-no em relação ao panelaço, utilizaram a infantilidade intelectual e o reducionismo.

É importante notar, contudo, que aqueles menos limitados compreenderam a dimensão do manifesto espontâneo de parcela dos brasileiros já ao tempo do primeiro panelaço. Entre jornalistas limítrofes que vestiam a camisa do partido, existiam aqueles que, apesar de também serem petistas de carteirinha, afirmavam que o panelaço era mais do que aquilo que se pretendia que fosse. Revelaram preocupação e pediram que o governo ouvisse a voz dos descontentes. Prevaleceu, porém, o discurso infantil e reducionista. O governo se tornou a grande vítima e, a partir disso, seus defensores passaram a fazer suas vítimas, como se agissem numa espécie de “legítima defesa”.

Na sexta feira, 13 de março de 2015, o governo incentivou passeata que o defendesse, conclamando movimentos sociais que se prestam a sustentá-lo. Manifestantes, em irrisório número, receberam R$ 35 e foram para as ruas em ato esquizofrênico que afirmava defender a Petrobrás e o governo Dilma, mas que era claramente contrário ao ajuste fiscal promovido por este último. Assim, era “pró-Dilma, pero no mucho”!

No dia 15 de março de 2014, uma semana após o primeiro panelaço, milhões tomaram as ruas. Sou testemunha de que a Av. Paulista e suas proximidades estavam repletas de manifestantes que, legítima e gratuitamente, abriram mão do domingo para juntamente manifestar o descontentamento com o governo federal e com a corrupção generalizada. Não houve qualquer incidente que lembrasse as manifestações realizadas por black blocs ou por militância paga. O comércio estava aberto, famílias ocupavam as ruas e a polícia apenas realizava a segurança dos manifestantes que, como deve ser, não viam na polícia uma espécie de inimigo, mas sim garantidores da ordem para a boa condução do protesto.

Não demorou para a infantilidade intelectual e o reducionismo voltarem à tona. Uma vez mais, a tentativa de deslegitimar o manifesto ocupou as redes sociais. Afirmaram que a atitude era golpista e que numa democracia isso não é possível, pois o governo Dilma foi eleito pela maioria dos votos válidos. Queriam sustentar a existência de uma pretensão pelo “3º turno”. De fato, a eleição se deu pelos votos válidos como deve ser. Agora, imaginar que o protesto é golpe ou que é contra a democracia representa o uso do argumento infantil e reducionista.

Para esses senhores, que nem de longe amam a democracia, pois do contrário saberiam reconhecer a legitimidade da passeata, devemos esclarecer que o regime democrático não se limita ao processo eleitoral. Antes, revela-se como sistema que depende da constante participação popular, sobretudo através da exposição de apoio ou descontentamento com as atitudes do governo eleito.

A presidente Dilma exerce esse mandato em relação a todos os brasileiros, tenham ou não nela votado. Assim como no segundo mandato de FHC se gritou “Fora FHC”, é absolutamente legítimo levar o grito de descontentamento com o governo Dilma para as ruas. É imperioso, ainda, que o governo compreenda que o reclame não tem vinculação partidária e que está longe de representar a vontade de um “3º turno”. Acreditar nisso é reduzir a complexidade evidenciada na sociedade e demonstrar a incapacidade de reconhecer seus próprios deslizes.

Aparentemente, o governo se considera alvo principal da manifestação, mas ainda não admite o que deveria admitir. Suas falácias, mentiras e erros não são sequer cogitados nos discursos de seus integrantes. A arrogância reina e a crise internacional – já ultrapassada – continua sendo utilizada como maior vilã de nossa realidade. Em outras palavras, ainda “não caiu a ficha”.

A campanha de Dilma se baseou em diversas afirmações que se mostram, já nestes primeiros meses de governo, falaciosas ou efetivamente mentirosas. Há, nesse ponto, indiscutível traição em relação àqueles que ouviram seu programa de governo. Foram enganados. Além disso, apesar do Min. da Justiça ter ameaçado reconhecer que a presidente governa para todos, o Min. Rossetto afirmou que tomaram as ruas apenas aqueles que não são eleitores de Dilma, como se isso fizesse alguma diferença prática para um governo eleito. As falas de ambos os ministros reafirmam a continuidade do despreparo do governo, o que deveria ensejar reforma ministerial já. Dilma, todavia, é teimosa o suficiente para morrer afogada se decidir não se apoiar em tábua de salvação. Isso é suicídio político e parte do PT já começa a perceber. Aliás, foi isso que ela fez mantendo Mantega como Min. da Fazenda, embora demissionário.

De todos esses fatos o que mais assombra é a capacidade de alguns defensores do governo Dilma de criar um mundo fantasioso onde conseguem se colocar na condição de vítimas para então vitimar. São incapazes de reconhecer os erros do governo da presidente, mesmo que isso acarrete constantes contradições em seus discursos. Todos estão errados, com exceção dos apoiadores que, aparentemente, vivem no Brasil existente no “mundo das ideias de Dilma”. Essa reiterada atitude de não encarar o mundo real pode causar enorme surpresa. Afinal, apesar de tudo estar bastante claro, Dilma, sua equipe e seus defensores, parecem se negar a enxergar algo que não seja o idílico Brasil que criaram em suas mentes. O Brasil real grita e precisa ser ouvido. Se assim não for, o sonho de Dilma e de seus seguidores será abruptamente interrompido de um modo ou de outro.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), da Faculdade de Direito da Universidade Paulista e de programas de pós-graduação em instituições de  ensino superior, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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