Esquerda ou direita? É preciso saber o que representam esses conceitos

Esquerda X DireitaEsquerda e direita são posições importantes em qualquer país verdadeiramente democrático. Revelam pensamentos distintos acerca de temas relevantes à condução de uma Nação. Em geral, a esquerda está mais ligada à presença do Estado, sobretudo nas relações econômicas. A direita, por seu turno, alinha-se a um posicionamento típico do liberalismo econômico, a partir do qual o intervencionismo do Estado na economia não é um instrumento valioso ao aprimoramento da liberdade.

Há legitimidade tanto na esquerda quanto na direita. O problema, porém, reside na deturpação desses conceitos e pode ser dividido em três frentes básicas. 1) Há aqueles que não conhecem o significado de esquerda e direita. Para eles, esquerda é a ditadura do proletariado e direita a necessária condução da Nação por militares. Todos esses são ignorantes em matéria política. 2) Outra ala é composta por pessoas que, embora conhecendo as diferenças, preferem aliar-se ao radicalismo em busca de interesses particulares. Amam a si mesmos e não dão a mínima ao país. 3) Por fim, há outros, na linha Kassab, que ousam propalar uma inverdade. Sustentam que não há qualquer importância na definição do que seja esquerda e direita. São os que não se envergonham do próprio oportunismo revestido de ignorância.

Tenho conversado com muitos amigos engajados nas questões políticas. Sustento que falar em direita e esquerda apenas tem sentido numa realidade em que a democracia esteja garantida. Apenas desse modo o diálogo será possível. A dialética é pressuposto da democracia. Refiro-me à dialética como o debate dos “contrários”. Nessa troca de ideias podemos chegar a algo melhor do que temos hoje. Conto com a amizade de indivíduos que estão mais à esquerda ou à direita. Relaciono-me muito bem com todos eles. A maioria vislumbra na democracia o único regime em que o debate é possível. Eis o ponto de partida: a defesa da democracia.

O Brasil atual, porém, ainda que apresente as três categorias acima comentadas, é movido por uma discussão radical que se baseia mais na emoção do que na razão. Vivemos um período no qual ser de esquerda é aceitar o totalitarismo do proletariado que apenas se apresenta como propaganda legitimadora do governo que aí está, viciado por interesses privados. A direita, por outro lado, é posição atribuída àqueles que defendem a absurda intervenção militar.

Essa constatação revela quão baixa é a política no Brasil. É fato que o pensamento radical de esquerda, sob a alegação de defender e implementar direitos sociais, cerceia a liberdade e impõe o totalitarismo. A razão para isso reside no fato de alguns pensadores da esquerda radical entenderem que a democracia é um “regime de elite”. As contradições desse discurso aparecem em 10 minutos de conversa franca. Há a defesa, aparentemente intransigente, dos direitos humanos, mas também há o alinhamento com países que ignoram essa categoria de direitos. Difícil compatibilizar a democracia com aquilo que chamo de esquerda radical. Ouso sustentar que esse posicionamento político infringe as bases do Estado Democrático de Direito. Nessa categoria incluo as pautas do tenebroso “Foro de São Paulo”.

Já os que entendem que a direita se reduz à intervenção militar apenas o fazem por serem indivíduos desprovidos de reais conhecimentos políticos. As Forças Armadas têm função constitucional bastante clara. Não está entre elas, contudo, a direção da Nação. Logo, assim como os da esquerda radical são “viúvas do comunismo”, os da direita que se identificam com a intervenção militar são “órfãos da ditadura militar”. No mais das vezes, esse pensamento “de direita” é apresentado por indivíduos que preferem deixar a política nas mãos de terceiros. Portanto, assim como os da esquerda radical, não se compatibilizam com a democracia.

Aristóteles, em “Ética a Nicômano”, defende a virtude como o “caminho do meio”. A temperança, o equilíbrio entre opostos representa a saída esperada para seres racionais. Há aspectos positivos nos pensamentos de esquerda e de direita. Não há nada que preste, porém, no radicalismo relativo a ambas as posições.

Padecemos com a realidade imediatista que tomou conta do Brasil. Não somos capazes de ouvir e debater argumentos razoáveis. Sempre estigmatizamos o interlocutor. Fomos conduzidos a pensar de maneira extremista. É tudo na base do “8 ou 80”. Esse comportamento não nos levará a dias melhores. Peço que reflitam sobre essas questões, pois a política não pode se reduzir a um “pseudoracionalismo” de jogo “FlaXFlu” no Maracanã. O brasileiro precisa entender o valor da democracia, aprumar-se em suas relações pessoais – refiro-me à ética – e não resistir ao necessário exercício da cidadania. A democracia impõe a participação dos cidadãos, eis o custo da liberdade e das garantias consagradas em nossa Constituição.

O que mais me aflige atualmente é o discurso irracional de parte da sociedade. Devemos partir de um “dogma” essencial, consubstanciado no valor da democracia. Afinal, numa realidade em que vigore o totalitarismo – como a que hoje vivemos na política e na cultura política – esquerda e direita têm pouca importância. Manda quem está no poder. Manda quem pode e obedece quem tem juízo. Pessoas oportunistas como Kassab apenas tiram proveito disso. Não penso ser essa a democracia – atual – aquela em prol da qual muitos morreram e tantos outros lutam em nosso país, dentre os quais me encontro.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), da Faculdade de Direito da Universidade Paulista e de programas de pós-graduação em instituições de  ensino superior, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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