A ideologia cega

vendadoO título deste texto permite duas interpretações. Ambas estão corretas. A primeira se refere à ideologia que cega o indivíduo. A segunda concerne à ideologia propriamente cega. Seja em qualquer uma das acepções, “a ideologia cega” se manifesta com frequência em nossa realidade. Em passado recente, boa parte da militância petista, entorpecida pela ideologia que, acima de tudo, é “o bem do partido”, afirmou que o mensalão jamais ocorreu e que todos os envolvidos eram inocentes. Optaram por ignorar os fatos ao invés de encará-los. São os mesmos que afirmam lutar pelos direitos humanos ao mesmo tempo em que prestam apoio e veneram ditaduras como a cubana e a venezuelana. São as “viúvas de Stalin”. O stalinismo e as lições de Gramsci os fazem pensar desse modo simplista ou reducionista.

O caso envolvendo os EUA e a prisão de dirigentes da FIFA e da CBF repete a demonstração de “cegueira ideológica”. A lógica oblíqua é simples. Se as investigações são conduzidas pelos EUA, há uma “teoria da conspiração” que busca oprimir os já oprimidos. Quais oprimidos, cara pálida? Os “donos da bola”? Cuidado! Eles são opressores e não oprimidos! O fato de a prisão decorrer de investigação conduzida por americanos não faz de opressores oprimidos, nem de autores de atos ilícitos indivíduos inocentes. Tudo deve ser devidamente apurado.

Chega a ser risível o argumento. Trata-se de absoluto desprezo pela capacidade de discernimento. O futebol sempre foi uma “caixa preta” que explora a emoção do povo em prol do enriquecimento de uma casta que o comanda. Os atos ilícitos não foram criados pelos norte-americanos. Foram cometidos pelos envolvidos e reconhecidos por parte deles. Essa lógica – se é que pode ser assim chamada – é bizarra. Se um “antiamericano” matar um americano, fará justiça. Se um “antiamericano” for preso pelos EUA, será sempre um injustiçado. Só pode ser piada!

George Orwell foi sábio ao reconhecer que a URSS estava longe de representar qualquer avanço em termos de igualdade. Em boa parte de suas obras, o autor revela a decepção que sentiu ao saber que os “paladinos da igualdade” forjavam-na, enquanto um “núcleo burocrático” do Partido Comunista se enriquecia, perseguia e matava adversários da “política oficial”. A lógica da esquerda radical sempre foi essa. Assim prossegue. Negar ou descontruir os fatos são os principais instrumentos de seus adeptos. São capazes de assegurar que o azul é vermelho e que o amarelo também é vermelho. Leiam as obras 1984 e Revolução dos Bichos.

Há um princípio básico na lógica jurídica. Segundo ele, o que cabe ao acusado é demonstrar a falsidade dos fatos – excepcionar pretensões – e não transformar os fatos como bem entender. Pior ainda, desmerecer quem apura como forma de inocentar quem está envolvido. Essa forma de pensar é o auge da ignorância. Demonstra pobreza intelectual e excesso de paixão.

As razões que levaram os americanos à apuração dos fatos envolvendo o futebol, ainda que políticas, não apagam os fatos e, até onde sei, não implicaram qualquer “ilicitude processual”. Assim, fica um conselho: respeite a si mesmo! Antes de falar “cegamente” qualquer bobagem, pense um pouco. Se quiser criticar as razões que levaram os EUA a apurar os fatos, seja digno a ponto de sustentar que tais motivações não inocentam os envolvidos.

É ridículo pensar naqueles que ainda levantam os cartazes de “abaixo ao imperialismo” como se vivêssemos a realidade da guerra fria, do mundo bipolar. A complexidade mundial é bem maior do que a vivida nas décadas de 60 a 90 do século XX. Reconheço que é mais fácil encarar as coisas como “nós X eles”, mas essa mentira, assim como todas as outras, tem pernas curtas. Não tenha orgulho de parecer um idiota. Tenho orgulho de sua capacidade de refletir. Seja sincero ao apresentar seus argumentos. Se o partido que escolheu representa um dogma imune a críticas e até mesmo à ilicitude, afirme que você é incapaz de “cortar na própria carne” e sucumba gangrenado com o mal que preferiu ignorar.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), da Faculdade de Direito da Universidade Paulista e de programas de pós-graduação em instituições de  ensino superior, Doutorando e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, associado ao Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM e à Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós-Graduação – ANDHEP, autor de livros e artigos jurídicos, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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