PSDB precisa do divã? Não. Mas talvez alguns tucanos precisem…

DóriaEste texto busca avaliar a situação do PSDB, essencialmente em relação à campanha municipal de 2016 e ao governo Temer. Quanto a este segundo ponto, já nos pronunciamos neste blog. O governo Temer deve ser encarado como um governo de “salvação nacional”. Assim, todo e qualquer partido, todo e qualquer político, deve apoiar as iniciativas de Temer que, mesmo amargas, demonstrem claramente um modo para sairmos da crise.

Há alguns quadros do PSDB no ministério de Temer. Nomes com inegável preparo. Dentre eles, Bruno Araújo e José Serra. Mais do que apoiar o governo atual, todos os cidadãos que amam o Brasil devem trabalhar pelos interesses nacionais. Assim, penso que o PSDB não é propriamente “governista” neste momento, mas não nega liberdade aos seus filiados para, juntos, salvarmos o país.

Quanto à questão que envolve a campanha municipal, é preciso avaliar friamente o que tem ocorrido. O PSDB passou por um processo de prévias bastante turbulento. João Dória, Trípoli e Andrea Matarazzo se apresentaram como pré-candidatos. Todos tinham absoluta legitimidade para pretender esse posto. Entretanto, na esteira daquilo que já havia ocorrido na campanha que levou Kassab à prefeitura de São Paulo, houve clara divisão dentro do partido. Afinal, naquela oportunidade, Alckmin foi preterido por boa parte dos tucanos que resolveram apoiar Kassab, político que sempre esteve na base do governo Dilma.

Kassab é um “problema político em si”. Uma espécie de “esquizofrênico oportunista”. O ex-ministro das cidades do governo Dilma sente orgulho ao afirmar que não segue qualquer ideologia. Não se trata de ser aberto às possibilidades, mas sim de colocar interesses pessoais e partidários à frente de temas que envolvam o interesse público. Para Kassab, vale o que possa lhe trazer maior benefício. É fruto da política malufista. Criou o PSD como forma de se “autocacifar”. Ofereceu o partido ao governo Dilma na mais absoluta e indecente barganha que o povo nas ruas tenta exterminar.

A questão, porém, não se revela nas práticas de Kassab. Precisamos saber o que será do PSDB nas eleições municipais. As prévias para a candidatura a prefeito geraram enorme ruído e terminaram com a desfiliação de Matarazzo. Qual a razão? Andrea, Goldman e Aníbal afirmam que João Dória teria agido de “maneira fraudulenta”. Provocaram a manifestação do próprio partido, que arquivou a representação, e prosseguiram com o pleito perante o Ministério Público.

Essa “briga interna” sempre foi mencionada neste blog. O PSDB tem inúmeros quadros capacitados para os pleitos majoritários. Contudo, a maior parte deles é regida por uma vaidade sem precedentes. Muitos são “acadêmicos em demasia” e no que há de pior na academia. No ninho dos tucanos há muitos pavões. Desse modo, a energia que deveria ser dispensada contra opositores, acaba sendo desperdiçada em brigas internas.

A candidatura de João Dória não será revertida. Está posta, embora ainda dependa da “chancela” da convenção. As prévias, tão impugnadas, acabaram com um fim bastante ignóbil. Afinal, Matarazzo optou por deixar o PSDB. Sua desfiliação dá ensejo a duas interpretações: 1) se sentiu injustiçado; 2) sabia que perderia. Qual seria a injustiça? O fato de a militância não reconhecê-lo como “natural” candidato? O fato de, apesar de mais de duas décadas no PSDB, não conseguir os votos necessários? Quanto à segunda interpretação, relativa à ciência da derrota, resta saber a razão que colocou Matarazzo distante da militância. Penso que o vereador foi traído pela própria “autoimagem”. Acreditou que tudo “estava certo” para sua candidatura. Uma candidatura nunca é certa!

A cultura das prévias no Brasil é recente e merece apoio. A ausência de democracia interna nas instâncias partidárias é um dos pontos que nos remete à atual crise política. Escolher candidatos é atitude que deve ser entregue aos filiados. Candidaturas impostas pelos caciques não têm a mesma legitimidade.

O preparo de Matarazzo é questionável? Não. Trata-se de alguém com ampla experiência política. Mas isso o colocaria como “candidato oficial”? Claro que não. E João Dória? Ele é um bom candidato? Sim. Não é possível trabalhar com a ideia de que uma candidatura apenas se legitime com base no exercício de cargos eletivos. A cidade de São Paulo teve bons exemplos de empresários que se mostraram grandes gestores. A hipótese se evidencia em outras cidades brasileiras e por todo o mundo. Para dar um exemplo, alguém acredita que Eduardo Suplicy seria um bom executivo? Não seria, embora tenha exercido diversos mandatos no parlamento. Há dúvidas se Suplicy foi um bom parlamentar. Suplicy trabalha e sempre trabalhará com o emocional. Prática mesmo, difícil aferir!

Essa aparente “rixa interna” no PSDB não merece prosperar. Matarazzo escolheu sair. Possivelmente, será candidato pelo partido de Kassab, cuja participação no governo Dilma sempre foi central. A criação do PSD se prestou a apoiar Dilma. O PSDB não irá para a campanha municipal dividido. A candidatura de Dória há de unir a militância. Suas propostas são bastante exequíveis e positivas à cidade de São Paulo. Sua experiência na iniciativa privada pode viabilizar a eficiência da Administração Pública que tanta falta nos faz.

Sendo assim, o PSDB precisa do divã? Não. Alguns tucanos precisam do divã, para compreenderem o momento atual. A teoria não pode ser cega à prática. A cidade pede políticos que sejam capazes e João Dória traz bagagem inegável que pode e deve auxiliar a gestão da cidade de São Paulo. É preciso admitir o efeito positivo de uma candidatura capitaneada por alguém que não se mostra “político profissional”. Aceitar a política como profissão é um dos caminhos mais curtos para nos mantermos no patamar em que nos encontramos. A candidatura de João Dória oxigena a política e contribui com o debate que não se atém apenas aos vícios dos “candidatos profissionais”.

As prévias tucanas poderiam ter tido melhor condução, evitando-se esses desgastes. Mas como tudo que é novo, o processo de prévias pede aprimoramentos. O que o PSDB não pode negar é a legitimidade da candidatura de João Dória. Não pode aceitar que tucanos trabalhem por candidatos que não sejam tucanos. Uma vez definido o nome de João Dória, todos os tucanos devem trabalhar por ele. Se há algo que parte dos tucanos pode levar ao terapeuta, é essa mania de não compreenderem bem qual o significado de um partido. Na vivência partidária, há momentos em que a força do partido pede que filiados cedam em suas posições.

Filiei-me ao PSDB no final de 2015. Além da identidade que sempre tive com os programas e propostas do partido, moveu-me a certeza de que a oposição ao governo Dilma precisava de apoio. Contudo, sempre vi com alguma preocupação essa “contenda interna”. As lideranças partidárias devem trabalhar para unir o partido. O PSDB tem trajetória e não pode se enfraquecer pelas vaidades de “a” ou “b”.

A candidatura de João Dória enobrece a trajetória do PSDB, sobretudo por ter sido resultado das prévias, método que merece ser adotado por todos os partidos. Dória é alguém que não vive da política, mas que se interessa pela política e que demonstra esse interesse ao demonstrar a coragem necessária para ser candidato. Buscou a política por gostar de servir e não por necessidade! Sendo assim, merece o voto de confiança de todos os tucanos e dos paulistanos que irão às urnas em outubro deste ano.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), da Faculdade de Direito da Universidade Paulista e de programas de pós-graduação em instituições de  ensino superior, Doutor e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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