O que aconteceu com a política? Vamos refletir?

UlyssesAvaliar o que acontece com a classe política atual não é tarefa simples. Ulysses Guimarães, sempre que perguntado a respeito da qualidade do Congresso, prontamente afirmava que o próximo seria pior. Mas por que Dr. Ulysses tinha essa certeza? Talvez pelo fato de já notar um claro decréscimo no preparo de boa parte dos brasileiros. Universalizar a educação não implica, necessariamente, educação de qualidade. Além disso, o tempo fez da política o reduto dos oportunistas. É difícil avaliar os políticos de 30 anos atrás e compará-los àqueles que ingressaram em passado recente nessa seara da vida nacional. Muitos deles são meras celebridades do mundo artístico.

Todas as vezes que critiquei a denominação “nova política”, coloquei-a como um subterfúgio em face daquilo que realmente necessitamos: a boa política. A política não deve ser dividida em nova e velha, mas sim em boa e má. Aristóteles já escreveu sobre a política. Não se trata, portanto, de “reinventar a roda”. Grande parte da classe política atual é composta por aventureiros. Gente que não tem colocação no mercado de trabalho e que busca a atividade parlamentar como forma de manter a própria vida e de tirar “algum proveito”. Infelizmente, o Brasil vive enorme carência de homens com espírito público. Não temos líderes!

Há uma classe, aparentemente crescente, de políticos sonhadores. São os que falam como um dia falaram aqueles da ultrapassada esquerda socialista/comunista. É preciso sonhar, mas o sonho deve ter por base a realidade, a fim de que os resultados sejam alcançáveis “juvenil iniciativa revolucionária” apresentava alguma esperança. No mundo globalizado, as soluções não estão em teorias do final do século XIX. É preciso esforço e estudo. Acima de tudo, é necessário que escolhamos pessoas bem formadas. Não se trata de diminuir quem não teve condições de atingir patamares mínimos de instrução, mas sim de valorizar os quadros que mostram evidente preparo para os desafios da vida pública. A criação de bons paradigmas nos levar a um futuro melhor.

Quase todos os brasileiros assistiram à sessão do impeachment na Câmara dos Deputados. Aquele instante foi estarrecedor. Não é diferente a impressão que sentimos ao fazermos uma breve visita às comissões e corredores do Congresso Nacional. O Senado Federal é composto por pessoas com algum preparo. Mas, ainda assim, sobram senadores desprovidos da capacidade necessária para ocuparem aquelas cadeiras.

Penso que a política precisa passar por um “choque de realidade”. Não conseguiremos mudar do dia para a noite a situação nacional. Mas podemos contribuir, dia após dia, através do aumento de interesse pela política. A política não pode ser temida pelo cidadão comum. Ao contrário, há apenas duas opções: 1) participar da política ou 2) ser afetado por decisões sem ter tido qualquer participação. Na democracia, é equivocada a posição de alguns de evitarem a política. A política sempre implicará influência na vida do cidadão brasileiro, ainda que este dê as costas para ela.

Há outro aspecto que me parece bastante importante. Assim como ocorre com o Direito, não podemos pensar a política como uma ciência exata. Ela é feita através do diálogo. Por isso muitos afirmam que “a política é uma arte”. O lado artístico está no convencimento por meio de argumentos sólidos. O nível atual dos parlamentares transformou a política num simples jogo de barganha. Na linha do leilão, “vale quem dá mais”. Os 13 anos de governo petista acabaram por acentuar esse lado nefasto. Não se trocam ideias, mas apenas cargos e valores. O pluralismo partidário se transformou em algo bastante pernicioso. Aumenta-se o número de partidos como forma de diminuir o “preço” por apoio político.

Se queremos mudar o país, é preciso um resgate da boa política. Nesse conceito não estão incluídos apenas ditames éticos, mas também preparo técnico. Há muita gente proba que não faz a menor ideia do que significam os grandes temas da política nacional. Precisamos mudar essa realidade, a fim de demonstrar ao povo brasileiro que, para ser político, é preciso entender a política, ter capacidade de diálogo e mínimo preparo nos temas centrais ao futuro do país. A política está repleta de “políticos monotemáticos” que são incapazes de entender a complexidade nacional. De novo, temos muitos sonhadores que ignoram a multidisciplinariedade da política.

Faz-nos muita falta pessoas que tinham formação em todos os setores imprescindíveis aos destinos do país. Nesta quadra frívola e imediatista, a política apenas restará a salvo quando jovens quadros não se acovardarem frente ao estudo dos grandes temas nacionais. De nada adianta popularidade sem capacidade. Temos muitas redes sociais e pouca capacitação. Eis o triste presente nacional!

De nada adianta atacar os políticos do passado se não soubermos aprimorar os jovens do presente. Boa vontade é apenas um dos ingredientes! Um jovem de 20 anos da década de 80 é um jovem de 30 dos dias atuais (com raras exceções!). Sinto afirmar, mas houve um certo empobrecimento da militância e do comprometimento político. Há muitos discípulos que conservam utopias e poucos que notam o que a política demanda em termos de pragmatismo. Há muita gente bem informada e com pouco conhecimento. Este é o grande desafio para todos aqueles que realmente pensam em retomar os rumos da boa política.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), da Faculdade de Direito da Universidade Paulista e de programas de pós-graduação em instituições de ensino superior, Doutor e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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