Eleições americanas: Trump X Hillary

euaAcompanhei as eleições americanas desde as prévias. Definidos os candidatos, assisti a alguns dos debates. Ouvi as barbaridades de Trump e os discursos sedutores de Hillary, carregados de humanismo. Na 4ª feira (09/11), acordei com a notícia da vitória de Trump. O que pensei? Simples: os EUA não seriam a maravilha que os apoiadores de Hillary pregavam, nem será, com a vitória de Trump, a desgraça que os mesmos tentam “professar”. Alguns alunos me pediram para redigir breves palavras a respeito da disputa e é o respeito a cada um deles que me faz escrever este texto.

Estou certo de que tenho amigos que votariam em Trump e outros tantos que elegeriam Hillary. Em quem eu votaria? Provavelmente em Hillary. Mas, antes de me elogiarem ou me criticarem, terminem este texto. Pode ser que eu decepcione ambas as torcidas.

Minha real opinião a partir da definição dos candidatos das presidenciais americanas foi uma só: a crise da democracia atingiu os EUA. Duas péssimas opções. Trump é um candidato que se esconde através de uma “persona” bastante caricata que agrada um radicalismo que não me agrada. Hillary faz um papel na linha do pensamento ultrapassado de esquerda, embora seja bem mais razoável. O ponto, porém, é que o mundo não é razoável. O mundo sempre foi pautado por extremos, ainda que isso seja deplorável.

Costumo falar a alguns alunos que o ser humano está bem distante desse “ideal humanista” criado em condições precisas de temperatura e pressão. Rousseau afirmou que o homem é puro e que a sociedade o transforma. Errou! Rousseau é um romântico que ignorou boa parte da natureza humana. O ser humano está muito mais próximo da ideia de Hobbes. Este afirmava que o homem é o lobo do homem. A humanidade não é solidária! Dificilmente será fora de teorias! O direito é necessário para regular a convivência humana. Se o homem não fosse como Hobbes delineou, o direito não seria tão necessário.

O homem age a partir daquilo que vive. A onda conservadora deve tomar conta de boa parte do mundo. Repito: a trajetória política se dá entre extremos, em movimentos que lembram a boa e velha gangorra dos parques infantis. É bastante difícil chegar a um equilíbrio. No mais das vezes, os períodos em que a sensatez se apresenta duram muito pouco. Boa parte da humanidade acha insossa essa situação. O radicalismo seduz, especialmente aqueles que pouco refletem ou que estão cansados de refletir. E não pensem que o radicalismo a que me refiro não está nos discursos da esquerda. É exatamente a existência velada desse radicalismo contido no “politicamente correto” que levou Trump ao poder.

As preocupações do povo estão bem distantes das teorias sociológicas das academias. O que o povo sente? Simples. O povo vive o cotidiano. Sente medo, nutre ódio e, às vezes, decidi amar. Mas o amor é para poucos! O medo leva boa parte dos eleitores ao lado radical que não está no poder. O ódio energiza essas intenções. Hillary não faria metade daquilo que disse, assim como Trump não fará um terço de tudo que falou na campanha. O debate político está descolado da realidade do poder. No poder, Trump terá que se adequar a uma série de forças e interesses. Não poderá “sair da casinha”. Será mais um presidente republicano à frente da maior Nação do mundo. Sua gestão dará energia à oposição e, se esta souber se adequar à nova realidade, voltará ao poder em breve. Nenhum desses “lados” morrerá!

Democracias bem estruturadas têm instituições fortes. Os EUA integram esse grupo. A maior lição que a vitória de Trump pode dar é a demonstração de que o pensamento de esquerda precisa ser renovado. As pautas estão desgastadas. A “lenga-lenga” humanista há de sofrer um choque de realidade, sem que isso signifique perder seu sentido propriamente humano. Trump não tem o potencial lesivo que muitos lhe atribuem, assim como Hillary não é tão boazinha ou tão ruim. O discurso de vitória de Trump já apresenta alguma adequação à realidade. Nem mesmo o partido republicano acreditava nas balelas que ele dizia na campanha.

Trump não conta com grande expectativa. Esperam o pior de sua gestão. Justamente por isso, ele pode surpreender. Quanto menor a expectativa, menor o fracasso e maior a possibilidade de sucesso. Se Trump prosseguir no mesmo tom da campanha, não durará na Presidência. Se amenizar as promessas ao longo do mandato, atrairá até mesmo os que o odeiam. Pode haver uma espécie de retrocesso cultural em matéria política. Mas penso que os democratas saberão se reinventar. Eles precisam desse tempo para se reciclar. Aliás, as esquerdas em todo o mundo precisam desse tempo. Não dá mais para pensar o mundo com base em teorias da primeira metade do Século XIX.

Eu teria muita dificuldade para escolher um candidato. Com o voto facultativo, provavelmente não compareceria. Nenhum dos dois representa o que penso. Contudo, há uns três meses, amigos que simpatizam com Hillary me perguntaram o que eu achava das eleições americanas. Disse que Trump levaria. Fui quase massacrado. Porém, está aí o resultado! A onda conservadora atingiu a maior democracia do mundo. Esse processo se dá em cadeia e tende a ser revertido em alguns anos. Essa alternância é inegável. Basta avaliar a História.

Aqui no Brasil alguns sugerem que o fenômeno Trump pode simbolizar a vitória de Bolsonaro em 2018. Nada mais equivocado! Bolsonaro não pode ser comparado a Trump. Bolsonaro é um fanfarrão de direita, assim como Jean Wyllys é um fanfarrão de esquerda. No cenário atual, o único político que pode representar uma espécie de “pensamento de direita” é Ronaldo Caiado. Tem maior equilíbrio que Bolsonaro e pode, se for astuto, capitalizar-se nos próximos meses. Não sei se ganha. Mas tem alguma chance.

Em suma, se eu morasse nos EUA e saísse de casa para votar, creio que votaria em Hillary. Porém, que fique claro, se saísse…Não me agradaria votar em nenhum dos dois. Estaria na mesma situação dos cariocas que ficaram entre Crivella e Freixo.

Um conselho? Deixem de lado esse pensamento binário que divide o mundo em bons e maus. Não sejam manipulados por setores que apenas travestem seus reais interesses por meio de argumentos desonestos. Avaliem friamente a situação. Essa é a diferença entre conduzir e ser conduzido.

Ambos os lados podem me criticar, mas respeitem o direito fundamental da liberdade de expressão. Eu avaliei a eleição americana desde o início e essas são minhas singelas conclusões. De qualquer modo: que Deus abençoe a América! Nunca é demais uma prece…

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), da Faculdade de Direito do IDP São Paulo, da Faculdade de Direito da Universidade Paulista e de programas de pós-graduação em instituições de ensino superior, Doutor e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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