Cogitar Doria como candidato à Presidência em 2018: o que isso nos revela?

LincolnHá alguns dias publiquei texto no qual alertava para possíveis questionamentos acerca da ilegalidade de procedimentos adotados pela gestão Doria na Prefeitura de São Paulo. De forma bastante direta, adverti que muitas parcerias com a iniciativa privada estavam se dando de maneira diversa daquela disciplinada em lei, fato que poderia (e pode) gerar discussões judiciais sobre algumas das medidas adotadas. Afirmei, inclusive, pelo caráter desestatizante da gestão (com o qual estou de acordo), que Doria precisa de assessoria jurídica de alto nível. Não quis com isso desmerecer ou desrespeitar quem quer que seja. Apenas atestei evidente necessidade da atual gestão na cidade de São Paulo.

Esse singelo “alerta” já serviu para que muitos afirmassem que sou contra a gestão Doria ou, ainda pior, que me alinho aos “pensadores da extrema esquerda”. Nada mais equivocado! Votei em Doria para Prefeito de São Paulo e votaria novamente. Como eleitor, tenho o dever, especialmente por ser operador do direito, de alertar a respeito de eventuais irregularidades.

Além disso, não vejo a política como matéria que deve ser encarada passionalmente, mas sim através de um comportamento racional. Quem age politicamente por meio da emoção costuma errar em suas análises e, muitas vezes, equipara-se aos extremistas que detestam o contrário sem qualquer justificativa razoável para isso. Já escrevi diversos textos contra o populismo demagogo e a “lógica de torcida” que conduz grande parcela do eleitorado brasileiro.

Nas últimas semanas, o nome de Doria aparece como um dos presidenciáveis para 2018. Muitos estão verdadeiramente animados com essa hipótese. Prefiro, ao invés de “pedir inscrição nessa torcida”, avaliar as razões que elevam Doria a esse patamar.

A gestão Doria tem característica bastante evidente: a publicidade. João Doria é publicitário e, corretamente, aplica parte de seus conhecimentos na área para divulgar suas ações e angariar apoio social. Não há nada de ruim nisso, exceto se esse comportamento descambar para a demagogia populista que tanto criticamos em governos brasileiros anteriores. Comunicar-se com o eleitorado é uma virtude e, desde que levado com algum comedimento, esse “diálogo” é correto e necessário.

O anseio de realizar ou, quiçá, de se mostrar gestor, pode não ser positivo a Doria na construção de sua imagem, agora sim, como político. Por quê? Pois diversas vezes suas aparições em redes sociais antecipam providências que só poderiam ser anunciadas após o tantas vezes comentado “chamamento público”. Além disso, no intuito de agradecer as tais empresas “amigas da cidade”, Doria acaba promovendo marcas e realizando uma espécie de “contrapartida” que já é objeto de ações propostas pela oposição. Ainda que seja possível debater o real intuito por trás dessas demandas judiciais, não há como retirar a legitimidade desses questionamentos.

Apesar de todos esses fatores, parcela da população se empolga com a possibilidade de Doria se candidatar à Presidência da República em 2018, apesar de o próprio prefeito afirmar que isso não está em seus planos. O que assusta nisso? A inegável precocidade da cogitação. João Doria está no terceiro mês de seu mandato. Tem agradado muitos paulistanos e conquistado enorme popularidade através de diversas estratégias. Mas é razoável supor que em três meses alguém que nunca esteve à frente do Poder Executivo esteja aprovado para ser cotado como presidente da República? Racionalmente, a resposta é negativa.

Por que João Doria está dentre os presidenciáveis, apesar de ser a Prefeitura de São Paulo sua primeira experiência efetiva na política? Pelo simples fato de a política nacional não apresentar lideranças que empolguem o eleitorado por meio de condutas minimamente éticas e por conquistas que apresentem algum grau de eficiência. O “caso Doria” é um exemplo da hora certa para alguém que não apresenta “passivo político” capaz de macular sua imagem pública.

O que traz alguma preocupação é essa constatação racional e inegável: Doria é mais privilegiado pelo momento do que propriamente por suas ações na política. Não avalio negativamente a gestão do prefeito até aqui, ainda que tenha feito advertências (e as mantenho) a respeito de procedimentos que reputo passíveis de questionamentos judiciais, repito que votei e votaria novamente em Doria para Prefeito de São Paulo. Todavia, três meses à frente da Prefeitura não deveriam ser suficientes para que grande parcela da população brasileira o apoiasse como presidenciável para 2018. Isso só é possível em virtude da péssima qualidade de nossos políticos.

Muitos poderiam afirmar que, já que a política está nesse nível, João Doria deve ser visto como a “salvação brasileira”. O problema, para além da breve avaliação que podemos fazer da atual gestão paulistana, está em constatar que a crise política pode dar margem para que desconhecidos sejam “cacifados” para a corrida presidencial. Doria está à frente da maior cidade brasileira e foi eleito em primeiro turno em conquista inédita. Isso lhe propicia inegável valor. Mas quem nos garante que a população não cairá no encanto de “salvadores da pátria” quase desconhecidos que tenham pouco ou nenhum “passivo político” sem contar sequer com o valor citado do caso João Doria? Dá para aceitar esse comportamento como algo racional? Penso que não. A cidadania tem muito a aprender, pois o comportamento de parcela da população assusta qualquer um que se interesse mínima e seriamente pela política.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), da Faculdade de Direito do IDP São Paulo, da Faculdade de Direito da Universidade Paulista e de programas de pós-graduação em instituições de ensino superior, Doutor e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Diretor do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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