Esquizofrenia política…

EsquizofreniaAs manifestações do último domingo (26.03.17) ensejaram mais um episódio de “esquizofrenia política”. Em breve síntese, a esquizofrenia é termo que designa patologia psíquica que gera dissociação entre ação e pensamento. São comuns – em esquizofrênicos – delírios de natureza persecutória, desvios relativos à percepção social e ao comportamento. Nesse sentido, sustentar a existência de “esquizofrenia política” implica reconhecer clara dissociação entre ação e pensamento na atuação política. Ainda que muitos desses esquizofrênicos – justificando nossa afirmação inicial – possam imaginar que este texto critica os movimentos que foram às ruas, a intenção é bastante diversa.

Quanto aos movimentos, a crítica que pode ser feita com alguma objetividade refere-se aos prejuízos da pauta difusa. Ao contrário daquilo que se dava na época do impeachment, não era possível definir com certeza o que os manifestantes queriam. Quando a pauta é muito ampla ou quando a desconhecemos, dificilmente a abraçamos. Entretanto, se buscarmos alguma identidade entre os movimentos, poderemos encontrá-la no apoio à Lava-Jato, na crítica ao voto em lista fechada e no fim do foro privilegiado. De maneira menos imediata, as reformas – previdenciária e trabalhista – também são compartilhadas como prioridade pela maioria dos manifestantes, ainda que não tenham um “modelo único”.

Não podemos, portanto, atribuir o termo esquizofrenia aos manifestantes do último domingo. Ainda que se possa questionar a força dos movimentos que tomaram as ruas com participação popular evidentemente mais modesta, é certo que demonstraram poder para arregimentar cidadãos em pleno domingo e sem um “grito único”. Apesar dessa relativa “fluidez” das pautas que tomaram as ruas, líderes de movimentos conseguiram, com algum sucesso, explicar aos presentes em que consistem medidas como o voto em lista fechada. Essa faceta didática dificulta ainda mais a adesão.

Esquizofrenia política, ao menos de acordo com a aplicação que ora fazemos, diz respeito à forma como a oposição ao governo Temer comemorou a alegada “baixa adesão” por parte da sociedade. O que esses opositores comemoram? Se eles são oposição ao governo Temer, toda manifestação que busque apresentar insatisfações relativas ao governo em questão deveria alegrar tais indivíduos, não? A baixa adesão aos movimentos do último domingo não deveria ser comemorada por eles, portanto.

Apesar dessas obviedades, opositores do governo Temer comemoraram a baixa adesão e não se preocuparam em saber o que estavam comemorando. A real razão para a “pseudosatisfação” reside na ideia segundo a qual os movimentos que derrubaram Dilma não conseguiram repetir com a mesma força as manifestações que tomaram o país para pedir o impedimento da ex-presidente.

A esquizofrenia desses militantes partidários está no fato de não notarem que comemoram aquilo que pensam ser a derrota de seus “opositores”, sem perceberem que aplaudem um relativo apoio da população ao governo Temer. A baixa adesão revela que a situação atual do Brasil não é grave o bastante para levar a multidão que tomou as ruas no “Fora Dilma”. Temer vai mal, mas não representa a morte da credibilidade, longe disso.

Os opositores de Temer, todavia, talvez para criarem motivos para comemoração, preferem ignorar esse último aspecto, trabalhando com um mundo fictício no qual as ruas perderam força. Esse comportamento justifica a idolatria daqueles que ainda não acreditam na prática de crime de responsabilidade pela ex-presidente e que ainda sustentam que as mazelas econômicas do governo Dilma foram fruto de crises internacionais e não do descalabro na condução da economia por parte da equipe de governo.

Nesse contexto, reafirmando boa parte daquilo que já expusemos neste blog, o fim da “hegemonia do lulopetismo” implicará consultas periódicas a terapeutas por parte dos militantes mais inveterados desse movimento messiânico que tomou conta do país. A lógica cega estabelecida na cabeça desses indivíduos não permite sequer que saibam quando algo é positivo ou negativo. Eles já vivem um mundo no qual criam a própria realidade. Estão presos em um laboratório em que jamais deixarão de existir condições ideais de temperatura e pressão.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), da Faculdade de Direito do IDP São Paulo, da Faculdade de Direito da Universidade Paulista e de programas de pós-graduação em instituições de ensino superior, Doutor e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Diretor do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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