Os “coletivos” e o “politicamente correto”

FascismoO debate social está bastante vinculado à ideia daquilo que é denominado “politicamente correto”. Se avaliarmos a obra de Ortega y Gasset – “A Rebelião das Massas” – notaremos que essa “onda” é um atalho para uma espécie de “razão coletiva”. Ela acaba por suprimir a liberdade de expressão, na medida em que impõe vastos mecanismos por meio dos quais pensar diferente é pensar errado. O que isso pode nos acarretar? Na melhor das hipóteses, a burrice generalizada. Pensar de um único modo é algo bastante avesso à democracia e à evolução da sociedade. Esse fervor provindo de grupos é preocupante.

Viver em sociedade pede alguma ordem. Esta é estabelecida a partir do ordenamento jurídico. O indivíduo é livre dentro de determinadas balizas. Tais limites garantem algum convívio. Do contrário, a barbárie estaria instalada. Essa liberdade limitada garante a própria liberdade. É idiotice pensar em liberdade sem limites, pois isso nos reduziria a um estado natural caótico, como aquele pensado por Hobbes. Fazer o que se quer, sem qualquer restrição, certamente nos levará a fazer aquilo que outros não querem, ferindo a liberdade destes. O modelo em questão é a base do regime democrático.

Apesar da clareza dessa circunstância, alguns, com baixa instrução ou com escusos interesses, preferem afirmar que a democracia é apenas um “regime das elites”. Dificilmente deixarão de pensar desse modo. São “missionários” dessa “religião” doentia. Não são sequer capazes de notar como são utilizados por aqueles que pregam a revolução para se instalarem no poder e regerem “a própria ditadura”. É triste avaliar a adesão de alguns jovens a ideais tão absurdas. Os que se dizem bem-intencionados são, quando muito, ingênuos. A utopia cega o utópico que, sonhando com um futuro melhor, trabalha para a consolidação de grandes e desumanas atrocidades. Foi assim com o nazismo, com o fascismo e com o comunismo.

Não devemos sonhar? Claro que devemos. O sonho também move a vida. Mas sonhar sem ter nenhuma noção da realidade é tão perigoso quanto não sonhar com nada. É servir a uma causa e entregar um “cheque em branco” àqueles que querem o poder em suas mãos. Jovens parecem mais sujeitos a essa “sedução”, pois querem mudanças imediatas. Querem um mundo nos moldes de Rousseau, preferindo ignorar o acerto de Hobbes.

Onde entram os “coletivos” nisso tudo? Quando buscamos a igualdade na perspectiva individual, iremos encontrá-la no respeito às diferenças. Já para formarmos “coletivos”, o ponto central da igualdade reside na identidade. O “grupo”, o “coletivo”, une pessoas a partir da identidade. Feito isso, encorajam seus membros a lutar contra tudo aquilo que lhes pareça diferente. No final desse expediente, o coletivo prega a intolerância e se apropria desse “politicamente correto” como forma de legitimar tudo aquilo que possa significar – de forma bastante bizarra – “identidade”. Chegam a abrir mão da racionalidade em prol desse “ideal”.

Além dessas considerações, é importante afirmar que “coletivos”, valendo-se do também frequente e não menos famigerado “empoderamento”, buscam exterminar a noção de responsabilidade. Quando todos são responsáveis por tudo, ninguém é responsável por nada. A forma como o “coletivo” tem sido utilizado nos conduzirá a um futuro tenebroso, no qual ninguém será responsável por nada, ainda que todos se afirmem responsáveis por tudo. Esse “coletivismo” tem exterminado regras básicas de convivência humana. Atrocidades são praticadas em prol desse “todo” que não pertence a ninguém. Isso nada tem a ver com bem comum ou com interesse público.

A noção de “coletivo” é instrumento de entidades e partidos que querem deturpar a ordem jurídica sem qualquer responsabilidade pessoal por isso. Trata-se de uma espécie de “alma sem corpo”. O fenômeno não é novo. A filosofia e a ciência política tem farta bibliografia a respeito.

Foi esse pensamento ignóbil que gerou os tenebrosos regimes totalitários. É preciso refletir a respeito do que realmente queremos. Matar o indivíduo pela formação de coletivos, disseminando o politicamente correto que extermina a liberdade individual, consiste no ardiloso comportamento que levou a humanidade a aplaudir genocídios. Pensem nisso…Há tempo para despertar…O mundo buscado é aquele em que diferenças – de qualquer espécie – sejam toleradas, ainda que provindas de pessoas que, por razões de cor, sexo, crença etc., “devessem” – sob a ótica coletiva – rezar determinada cartilha.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), da Faculdade de Direito do IDP São Paulo, da Faculdade de Direito da Universidade Paulista e de programas de pós-graduação em instituições de ensino superior, Doutor e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Diretor do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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