O que Benedita da Silva e Gleise Hoffmann têm em comum, além do PT?

BeneditaA esquerda brasileira está perdendo o pouco equilíbrio que poderia ter. O péssimo resultado nas eleições de 2016 parece ser a razão para a escalada da violência do discurso e dos atos, especialmente por parte da cúpula petista. Acuados pelo eleitorado que já percebeu os desmandos dos governos Lula e Dilma, resta ao PT atacar ou, como dizem alguns, “morrer atirando”. É inegável que a estratégia tem raízes no recrudescimento da divisão “NósXEles”.

O Congresso Nacional do PT não deixou dúvida a respeito desse expediente. Líderes do partido foram “convocados” pelo “general Lula”. Os discursos revelaram a intenção de intensificar o sentimento de “injustiça”. A narrativa de agora é um ponto acima daquela que vimos no impechment. A situação pregada é belicosa. Lula tomou a palavra e se comportou – como sempre faz – na linha “façam o que eu mando”. A militância, cegamente, entendeu o recado e passou a demonstrar um comportamento antidemocrático, na esteira do que apoiadores do governo venezuelano fazem no país vizinho, combalido pela corrupção e pelo autoritarismo.Gleise

Dentre as posições ostentadas por Lula, a Rede Globo voltou a ser apontada como a responsável por aquilo que o partido passa. Ignorando fatos, leis e decisões judiciais, o “messias da esquerda” colocou a emissora na situação de vilã. Com isso, expôs todos os profissionais da imprensa, principalmente os que não se curvam à narrativa petista. Uma vez mais, quem não defende o PT, ainda que com base em fatos e normas jurídicas, se revela contra a “causa maior” que rege o partido.

O resultado desse comportamento é evidente. Eleita presidente do partido, a senadora Gleise Hoffmann, amplamente envolvida nas apurações da Lava Jato, demonstrou estar bastante afinada com o ex-presidente. Além dela, a deputada Benedita da Silva, antes mesmo do Congresso Nacional do PT, protagonizou cena lastimável. Falando à boa parte da militância em evento que contou com a participação de políticos de outros partidos, sugeriu que não haverá vitória sem luta e sem derramamento de sangue. É deprimente constatar, novamente, o desrespeito da deputada com a democracia. Nesse sentido, alguns integrantes da cúpula petista parecem bastante próximos da linha da guerrilha que esteve na origem da sigla. O pronunciamento evidencia que irão para o tudo ou nada, ainda que isso custe o regime democrático.

Nesta semana, dois jornalistas da Rede Globo foram hostilizados por militantes petistas em voos que partiram de Brasília. Miriam Leitão, cujo posicionamento ideológico – aparentemente – está mais à esquerda, sofreu ofensas ao longo de duas horas. Alexandre Garcia também sofreu tais ataques. Em geral, petistas se posicionaram relembrando o regime militar. Isso demonstra que ainda vivem a lógica binária, assim sustentam a divisão “NósXEles”. Pouco importa se altos quadros do partido estão presos e outros tantos processados criminalmente. A ideia é reafirmar a “pureza de caráter” e o monopólio do discurso político. Esse expediente não se sustenta a partir de singela reflexão. Apenas a paixão pode dar base ao ódio que destilam em cada manifestação.

Gleise Hoffmann, já na condição de presidente do PT, emitiu nota oficial sobre o caso Miriam Leitão. Disse que o partido não apoia atos como esse, mas afirmou que isso se deve à posição da Rede Globo. A manifestação revela o que é cristalino. O PT não apoia expressamente essa violência a jornalistas que não se prestam a pregar sua narrativa, mas ratifica o comportamento adotado por militantes ao atribuir a culpa dessa atmosfera de ódio à Rede Globo. Em suma, Gleise apenas atesta que sua militância está correta. A aversão ao regime democrático se apresenta a cada pronunciamento dessa senadora.

Para além desses fatos, é curioso notar a predileção dos petistas pelo adjetivo “fascista” utilizado contra todos que reconhecem os malfeitos do PT. Soubessem o sentido do termo e certamente perceberiam que a conduta de ódio de seus militantes é a que mais se aproxima àquilo que atribuem aos que não os defendem. Fascismo é regime que não tolera a divergência e que persegue opositores. O PT se presta, diuturnamente, a deturpar o sentido das coisas. Autodenominam-se democratas, sem perceberem que agem de maneira autoritária, especialmente com base na divisão que criaram. Divisão essa que está na cartilha dos regimes de esquerda, já que dividem para dominar.

Por um lado, é lastimável constatar o ataque à democracia por parte de um partido que esteve por mais de dez anos à frente da Nação. Por outro, é alentador perceber que o monopólio da narrativa da esquerda chegou ao fim. Os fatos envolvendo o partido são tão evidentes que o discurso não mais se sustenta. Até mesmo no ambiente acadêmico começa a surgir maior debate acerca de princípios políticos que eram tidos como irrefutáveis. A democracia se faz a partir dessa dialética que muitos integrantes da cúpula petista tentam aniquilar. As constantes e oblíquas narrativas começam a dar espaço à reflexão e à realidade. Nesse sentido, e apesar dos pesares, o momento presente parece mostrar um futuro melhor, ao menos nesse aspecto.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), da Faculdade de Direito do IDP São Paulo, da Faculdade de Direito da Universidade Paulista e de programas de pós-graduação em instituições de ensino superior, Doutor e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Diretor do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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