O PSDB não devia ter “embarcado” no governo Temer!

psdb-logoLogo após o fim do governo Dilma, publiquei textos e vídeo nos quais afirmava que ao PSDB era indevido embarcar no governo Temer. As razões me pareciam – e assim prosseguem! – bastante óbvias. O PSDB era autor de ação no Tribunal Superior Eleitoral que pedia a cassação da chapa Dilma-Temer. Naquele momento, lancei a pergunta: como o partido autor de uma ação com esse objeto pode simplesmente apoiar um dos réus? A conduta era – e ainda é! – paradoxal.

Lembro-me que afirmei que Temer até poderia contar com nomes do PSDB em seu ministério, desde que isso não implicasse “apoio absoluto”. Confesso que a situação pretendida era curiosa. Mas não era mais surpreendente do que um partido que pedia a cassação da chapa integrar “de corpo e alma” o governo Temer.

Desde esse posicionamento, muita coisa veio à tona. Boa parte dos caciques tucanos estavam enrolados com questões nada republicanas. Essa realidade deixou clara a intenção por trás do apoio ao governo Temer. Apoio que, afirme-se, encontrou dissonância dentro do “ninho tucano”. Diversas lideranças, denominadas “cabeças pretas”, posicionaram-se da maneira como me posicionei.

Um dos mais aguerridos nesse ponto foi o deputado Daniel Coelho que, nesta altura, pode ser identificado como o principal líder da ala dissidente. Tive oportunidade de conhecê-lo e, ao menos até o presente momento, tenho excelente impressão do jovem parlamentar. Daniel Coelho, assim como me manifestei, é favorável às reformas imprescindíveis ao país, mas sempre soube diferenciar o “apoio” ao governo Temer do apoio às reformas.

A ala tucana que avalizou o embarque está repleta de quadros antigos – os “cabeças brancas” – cuja principal pretensão é a manutenção do poder. O PSDB tem se mostrado um partido sem rumo. Conhecido como a sigla que permanece em cima do muro, chegou às raiais da insanidade ao nomear Alberto Goldman presidente nacional interino. Por quê? Goldman nunca teve a essência do partido. Ao contrário, é parte da ala que sempre esteve umbilicalmente ligada a Orestes Quércia antes da criação do PSDB. É essa a liderança capaz de conduzir o futuro dos tucanos? Parece-me que não!

A escolha de Goldman por Aécio Neves – em ato bastante autoritário! – deve ser compreendida a partir do contexto em que se encontra o PSDB. Doria incomodou bastante a alta cúpula. Foi irresponsável ao “queimar a largada” e se lançar como “presidenciável”. Atualmente, o prefeito paulistano moderou o discurso, mas já apresentou um lado político que não agrada. Eleito no primeiro turno das municipais de 2016, majorou a expectativa que já era alta e pouco entregou até aqui. Pretender voos maiores, ao menos neste momento, significa abrir mão da confiança que os paulistanos entregaram em suas mãos. A “mosca azul” aniquilou essa precoce pretensão do “gestor”.

Ademais, a lamentável resposta de Doria ao vídeo em que Goldman tecia críticas ao prefeito apenas serviu aos interesses de Aécio Neves. Este, bastante político, trouxe Goldman do ostracismo e, ciente da situação do tabuleiro, dificultou ainda mais as pretensões – que reputo indevidas – de João Doria. O “gestor”, ao contrário do que seus eleitores esperavam, assimilou o “golpe” como algo natural. Errou! A manobra já simboliza a perda de espaço entre os tucanos e o “respeito” ao gesto de Aécio chega a denotar uma espécie de “acatamento” que não está dentre as virtudes que seus eleitores esperavam. A coragem demonstrada nas prévias restou esfacelada.

Quem surgiu como novo nessa trajetória? O deputado Bruno Araújo. No Ministério das Cidades, ele já vinha demonstrando insatisfação em integrar o governo Temer desde as revelações dos diálogos com o empresário da JBS. Foi um bom ministro, mas foi ainda maior ao deixar o ministério. Fez o que o PSDB devia ter feito desde a assunção do poder por parte de Michel Temer. Deixou bastante claro que apoiar as reformas não se confunde com apoiar integralmente o governo Temer.

O PSDB elegerá um novo presidente nacional no início de dezembro. Eis o exato instante no qual os tucanos terão a possibilidade de mostrar ao país alguma autonomia. Se continuarem da maneira como têm se comportado, serão uma “releitura” do PMDB. Será muito triste acompanhar essa derrocada do partido. É preciso que os “caciques”, para além de se preocuparem com a própria pele, demonstrem capacidade para compreender o momento, sob pena de o PSDB ser enterrado na “vala comum” dos partidos fisiológicos, com o desembarque daqueles que efetivamente pensam e buscam um futuro melhor ao país.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), da Faculdade de Direito do IDP-SP, da Faculdade de Direito da Universidade Paulista e de programas de pós-graduação em instituições de ensino superior, Doutor e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Diretor do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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A política nas redes sociais: o fetiche por “likes” e “compartilhamentos”

Odio redes sociaisAs redes sociais são um fenômeno mundial. Alteraram a vida de boa parte dos países pelo mundo, com exceção daqueles em que existe controle de acesso à internet. Logo, podemos afirmar que ao menos nações verdadeiramente democráticas têm sido bastante influenciadas por cada uma dessas ferramentas do mundo virtual. O poder em questão é inegável, os resultados, todavia, não são necessariamente positivos.

Se pensarmos o que há de bom nesse amplo alcance de “postagens”, constataremos o significativo acesso à informação. Há muita coisa boa compartilhada. Existem pessoas que utilizam tais mecanismos para levar reflexão a sociedades tão carentes de instrução. Porém, o que preocupa é a maneira enviesada como alguns indivíduos e grupos têm manejado esse mundo que se descortinou a partir da criação do espaço virtual.

Sociedades democráticas garantem a liberdade de opinião. Nesse sentido, qualquer cidadão pode expressar o que pensa nas redes sociais. O problema é que a falta de contato pessoal real, torna o sujeito um ser muitas vezes desprovido de limites e, especialmente, de sensatez. A questão fica ainda mais crítica ao observarmos uma espécie de “comportamento de manada”, fundado em atividades absolutamente deletérias à democracia e à pacificação social. Essa ausência de contato direto amplia o potencial de disseminação de intolerância e ódio, sobretudo num país como o Brasil, cuja crise política desperta sentimentos bastante primitivos em boa parte dos cidadãos.

Mas o que se pode delinear a respeito da relação “redes sociais e política”? Não seremos capazes de esgotar os temas atrelados a essa realidade. Nosso intento é bem mais singelo. Queremos apenas incitar a reflexão de parte daqueles que parecem ter “fetiche” por likes e dos que se preocupam com os interesses nacionais.

Começamos pela absurda captura do real pelo virtual. Redes sociais são capazes de gerar em alguns indivíduos – de todas as faixas etárias – uma espécie de alheamento da realidade. O que ocorre nas redes passa a ocupar o espaço daquilo que acontece na realidade. Os que vivem em busca de “likes” adquirem “vida paralela” e, ao invés de compatibilizarem o real com o virtual, entregam-se à bolha que os protege do convívio humano, naturalmente causador de dores e angústias. A felicidade – ou aparente felicidade – nas redes sociais retira o indivíduo dos verdadeiros dilemas que estão no mundo fora das telas.

Vivendo essa “realidade paralela”, aqueles que teriam bom senso de não se pronunciarem sobre o que não entendem, passam a se comportar como “especialistas”. Os que têm algum preparo são prontamente excluídos, já que interferem na criação desse mundo que, em verdade, não existe. Discussões ignorantes, agressivas e desrespeitosas são travadas como se os interlocutores não devessem manter urbanidade quando estão “teclando” ofensas e ataques pessoais. Aparentemente, esses indivíduos esquecem que, mesmo no ambiente virtual, há aplicação do ordenamento jurídico, inclusive de tipos penais que têm por objeto a honra.

Políticos, cientes dessa massa que se une numa espécie de “gueto da ignorância”, apostam suas fichas na clara polarização exposta nas redes e mantida por muitos que nada sabem e que, talvez por isso, falem tanto. Parte da classe política entrou de vez nas redes sociais. Discursos inflamados, ainda que sem nenhum conteúdo, “viralizam” em minutos. O que mais gera “likes” deve ser o termômetro da exposição. Homens públicos – alguns – já não se importam mais em dizer aquilo em que acreditam. Limitam-se a pronunciar o que gera mídia. Com o acúmulo de “likes”, acreditam que se tornam populares, mas olvidam da distinção entre o virtual e o real.

Ainda que a forma possa fazer sucesso entre os hipnotizados pelo fenômeno, a ausência de conteúdo é percebida por aqueles que já têm alguma ideia a respeito da realidade. Mais vale o ataque pessoal de um conservador a um petista do que sua opinião sobre temas que realmente estejam dentro da competência do cargo que ocupa. Vale mais, igualmente, o discurso de ódio aos “coxinhas” feito por um esquerdista, do que a visão de mundo e suas propostas para o futuro da Nação.

Nesse ambiente virtual, os iguais acabam se atraindo e os opostos se afastando. No âmbito politico, ao menos nesses dois polos que se odeiam, dá-se a formação de “exércitos virtuais”. Nas batalhas que travam, pouco importa se há razão ou não para o ataque que fazem uns aos outros. O que realmente interessa é atacar e conseguir “likes” entre seguidores. O mecanismo ainda resiste, mas, assim como toda polarização, tende a atenuar. É algo datado. Políticos ainda recorrem a ambas as alas, a depender daquilo que pensam. Não sabemos até quando…

Os grupos oferecem apoio e, no mais das vezes, pecam quanto à definição de uma identidade. Estão num “vale tudo” e se prestam a uma série de atitudes que jamais seriam capazes de fomentar no mundo real. São políticos, são fantoches de políticos ou funcionam apenas como uma espécie de agência de publicidade? A pergunta é bastante relevante. Boa parte dos que emprestam prestígio nas redes para a promoção de determinados políticos já não consegue definir a própria agenda. Surgiram com propósito relativamente claro, mas se perderam nessas batalhas de ódio que se prestam a aniquilar qualquer ideia realmente propositiva.

Difícil saber se isso terá um fim. O mais provável – conforme exposto – é a realização de ajustes que façam com que as redes sociais passem a reconsiderar a realidade. A eleição do próximo presidente da República tem que ter os olhos em ambos os lados (real e virtual). Mas a pauta eleitoral, embora influenciada, não será ditada pelo virtual. Os indivíduos devem perceber que nesse jogo, os “likes” são apenas mecanismos para utilizar a participação como forma de cacifar publicitários. O “comportamento de manada” não reflete a vontade real da população e a adoção da forma das redes sociais – ao menos daquela aqui comentada – tende a ser derrotada na eleição real.

O fetiche por “likes” e por “compartilhamentos” pode gerar engajamento e estatísticas que gerem alguma boa impressão a cidadãos comuns, a políticos ou a grupos. Contudo, e isto é o principal, a gestão não é feita com a lógica de tais redes. Os problemas são reais e a facilidade do “post” não é a mesma dos resultados. Ultimamente, o fenômeno tem gerado algo bastante preocupante. Jovens se limitam a imitar a forma de determinados sujeitos. Querem se identificar com um modelo, ainda que não tenham a instrução necessária para manifestarem aquilo que pronunciam com uma espécie de “pseudosegurança”. O debate real derruba boa parte das “estrelas” das redes sociais. Expressões que geram comentários como “lacrou” ou “mitou”, não têm o mesmo efeito no mundo real.

A crítica contida neste rápido texto é apenas resultado de constatação da realidade das redes sociais. Eventuais projeções não são “científicas”, mas fruto de uma sensação, provinda do mundo real, segundo a qual esse “quebra-quebra” deixará de ter a influência que tem hoje. O ódio cansa o internauta que não se presta a descer para esse “playground virtual”. A imaturidade é aproveitada por políticos experientes e novatos que manipulam os manipuladores, fazendo com que percam sua personalidade. A tragédia parece anunciada e, por essas razões, a sugestão para os que verdadeiramente se interessam por política é a mesma que se daria há algumas décadas: conheçam a política e os problemas reais. Não se prestem a embarcar em ondas curtas que não mostram sustentação. Antes de qualquer coisa, sejam propositivos e pensem soluções. Respeitem os deveres de urbanidade e saibam que, mesmo nas redes sociais, o ordenamento jurídico tem aplicação.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), da Faculdade de Direito do IDP-SP, da Faculdade de Direito da Universidade Paulista e de programas de pós-graduação em instituições de ensino superior, Doutor e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Diretor do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.