A política nas redes sociais: o fetiche por “likes” e “compartilhamentos”

Odio redes sociaisAs redes sociais são um fenômeno mundial. Alteraram a vida de boa parte dos países pelo mundo, com exceção daqueles em que existe controle de acesso à internet. Logo, podemos afirmar que ao menos nações verdadeiramente democráticas têm sido bastante influenciadas por cada uma dessas ferramentas do mundo virtual. O poder em questão é inegável, os resultados, todavia, não são necessariamente positivos.

Se pensarmos o que há de bom nesse amplo alcance de “postagens”, constataremos o significativo acesso à informação. Há muita coisa boa compartilhada. Existem pessoas que utilizam tais mecanismos para levar reflexão a sociedades tão carentes de instrução. Porém, o que preocupa é a maneira enviesada como alguns indivíduos e grupos têm manejado esse mundo que se descortinou a partir da criação do espaço virtual.

Sociedades democráticas garantem a liberdade de opinião. Nesse sentido, qualquer cidadão pode expressar o que pensa nas redes sociais. O problema é que a falta de contato pessoal real, torna o sujeito um ser muitas vezes desprovido de limites e, especialmente, de sensatez. A questão fica ainda mais crítica ao observarmos uma espécie de “comportamento de manada”, fundado em atividades absolutamente deletérias à democracia e à pacificação social. Essa ausência de contato direto amplia o potencial de disseminação de intolerância e ódio, sobretudo num país como o Brasil, cuja crise política desperta sentimentos bastante primitivos em boa parte dos cidadãos.

Mas o que se pode delinear a respeito da relação “redes sociais e política”? Não seremos capazes de esgotar os temas atrelados a essa realidade. Nosso intento é bem mais singelo. Queremos apenas incitar a reflexão de parte daqueles que parecem ter “fetiche” por likes e dos que se preocupam com os interesses nacionais.

Começamos pela absurda captura do real pelo virtual. Redes sociais são capazes de gerar em alguns indivíduos – de todas as faixas etárias – uma espécie de alheamento da realidade. O que ocorre nas redes passa a ocupar o espaço daquilo que acontece na realidade. Os que vivem em busca de “likes” adquirem “vida paralela” e, ao invés de compatibilizarem o real com o virtual, entregam-se à bolha que os protege do convívio humano, naturalmente causador de dores e angústias. A felicidade – ou aparente felicidade – nas redes sociais retira o indivíduo dos verdadeiros dilemas que estão no mundo fora das telas.

Vivendo essa “realidade paralela”, aqueles que teriam bom senso de não se pronunciarem sobre o que não entendem, passam a se comportar como “especialistas”. Os que têm algum preparo são prontamente excluídos, já que interferem na criação desse mundo que, em verdade, não existe. Discussões ignorantes, agressivas e desrespeitosas são travadas como se os interlocutores não devessem manter urbanidade quando estão “teclando” ofensas e ataques pessoais. Aparentemente, esses indivíduos esquecem que, mesmo no ambiente virtual, há aplicação do ordenamento jurídico, inclusive de tipos penais que têm por objeto a honra.

Políticos, cientes dessa massa que se une numa espécie de “gueto da ignorância”, apostam suas fichas na clara polarização exposta nas redes e mantida por muitos que nada sabem e que, talvez por isso, falem tanto. Parte da classe política entrou de vez nas redes sociais. Discursos inflamados, ainda que sem nenhum conteúdo, “viralizam” em minutos. O que mais gera “likes” deve ser o termômetro da exposição. Homens públicos – alguns – já não se importam mais em dizer aquilo em que acreditam. Limitam-se a pronunciar o que gera mídia. Com o acúmulo de “likes”, acreditam que se tornam populares, mas olvidam da distinção entre o virtual e o real.

Ainda que a forma possa fazer sucesso entre os hipnotizados pelo fenômeno, a ausência de conteúdo é percebida por aqueles que já têm alguma ideia a respeito da realidade. Mais vale o ataque pessoal de um conservador a um petista do que sua opinião sobre temas que realmente estejam dentro da competência do cargo que ocupa. Vale mais, igualmente, o discurso de ódio aos “coxinhas” feito por um esquerdista, do que a visão de mundo e suas propostas para o futuro da Nação.

Nesse ambiente virtual, os iguais acabam se atraindo e os opostos se afastando. No âmbito politico, ao menos nesses dois polos que se odeiam, dá-se a formação de “exércitos virtuais”. Nas batalhas que travam, pouco importa se há razão ou não para o ataque que fazem uns aos outros. O que realmente interessa é atacar e conseguir “likes” entre seguidores. O mecanismo ainda resiste, mas, assim como toda polarização, tende a atenuar. É algo datado. Políticos ainda recorrem a ambas as alas, a depender daquilo que pensam. Não sabemos até quando…

Os grupos oferecem apoio e, no mais das vezes, pecam quanto à definição de uma identidade. Estão num “vale tudo” e se prestam a uma série de atitudes que jamais seriam capazes de fomentar no mundo real. São políticos, são fantoches de políticos ou funcionam apenas como uma espécie de agência de publicidade? A pergunta é bastante relevante. Boa parte dos que emprestam prestígio nas redes para a promoção de determinados políticos já não consegue definir a própria agenda. Surgiram com propósito relativamente claro, mas se perderam nessas batalhas de ódio que se prestam a aniquilar qualquer ideia realmente propositiva.

Difícil saber se isso terá um fim. O mais provável – conforme exposto – é a realização de ajustes que façam com que as redes sociais passem a reconsiderar a realidade. A eleição do próximo presidente da República tem que ter os olhos em ambos os lados (real e virtual). Mas a pauta eleitoral, embora influenciada, não será ditada pelo virtual. Os indivíduos devem perceber que nesse jogo, os “likes” são apenas mecanismos para utilizar a participação como forma de cacifar publicitários. O “comportamento de manada” não reflete a vontade real da população e a adoção da forma das redes sociais – ao menos daquela aqui comentada – tende a ser derrotada na eleição real.

O fetiche por “likes” e por “compartilhamentos” pode gerar engajamento e estatísticas que gerem alguma boa impressão a cidadãos comuns, a políticos ou a grupos. Contudo, e isto é o principal, a gestão não é feita com a lógica de tais redes. Os problemas são reais e a facilidade do “post” não é a mesma dos resultados. Ultimamente, o fenômeno tem gerado algo bastante preocupante. Jovens se limitam a imitar a forma de determinados sujeitos. Querem se identificar com um modelo, ainda que não tenham a instrução necessária para manifestarem aquilo que pronunciam com uma espécie de “pseudosegurança”. O debate real derruba boa parte das “estrelas” das redes sociais. Expressões que geram comentários como “lacrou” ou “mitou”, não têm o mesmo efeito no mundo real.

A crítica contida neste rápido texto é apenas resultado de constatação da realidade das redes sociais. Eventuais projeções não são “científicas”, mas fruto de uma sensação, provinda do mundo real, segundo a qual esse “quebra-quebra” deixará de ter a influência que tem hoje. O ódio cansa o internauta que não se presta a descer para esse “playground virtual”. A imaturidade é aproveitada por políticos experientes e novatos que manipulam os manipuladores, fazendo com que percam sua personalidade. A tragédia parece anunciada e, por essas razões, a sugestão para os que verdadeiramente se interessam por política é a mesma que se daria há algumas décadas: conheçam a política e os problemas reais. Não se prestem a embarcar em ondas curtas que não mostram sustentação. Antes de qualquer coisa, sejam propositivos e pensem soluções. Respeitem os deveres de urbanidade e saibam que, mesmo nas redes sociais, o ordenamento jurídico tem aplicação.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), da Faculdade de Direito do IDP-SP, da Faculdade de Direito da Universidade Paulista e de programas de pós-graduação em instituições de ensino superior, Doutor e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Diretor do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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