Redes sociais: a profundidade de um pires e a vastidão de um pequeno jardim

depositphotos_88738728-stock-illustration-social-networks-addiction-metaphorAs redes sociais trouxeram novos hábitos aos seres humanos. É inegável a influência que elas exercem na vida de boa parte de homens e mulheres. Contudo, e já defendemos isso em textos anteriores, elas representam apenas um recorte da realidade. São a fotografia sempre despida do movimento e da integração próprios dos filmes.

Em período eleitoral, muito tem sido dito a respeito do perigo das “fake news”. Pouco se discute, entretanto, as chamadas “falsas impressões”. As fake news, ao menos em tese, sucumbem com breve pesquisa em canais de informação mais responsáveis. Blogs que se vendem a interesses ideológicos e político-partidários criam manchetes impactantes facilmente desmascaradas por leitores menos suscetíveis a conclusões quase impostas.

O mesmo não se dá em relação às falsas impressões. Fake news são pensadas e divulgadas com o intuito de noticiar e de “fazer-se disseminar”. Falsas impressões decorrem de um ambiente que não depende propriamente de um dado novo ou noticiado. Decorre de um sistema fundado na lógica dos algoritmos que mantém as redes sociais. A partir desse microssistema, previamente selecionado com base nos hábitos dos usuários – sabendo-se que o usuário é o principal produto -, muitos desavisados acreditam que o mundo que acompanham em suas redes sociais reflete o mundo real. Nada mais falso e equivocado.

Os que se familiarizam e se satisfazem com ideias associadas ao pensamento conservador, realmente acreditam que aquela “infinidade de iguais” que aparece em seus murais de redes sociais representa a predominância de suas impressões sobre o mundo. No entanto, esse “aconchego virtual” é apenas o reflexo de anteriores escolhas do próprio usuário. Da mesma forma, os que se ligam aos ideais progressistas acreditam, pela mesma razão, que o mundo está livre dos conservadores, já que estes não são tão frequentes em seus murais. O mesmo ocorre com os apaixonados pela esquerda baseada em pensamentos pouco democráticos.

A leitura, além de ingênua, é burra. As redes sociais têm condicionado o comportamento de seus usuários. Em geral, estes se identificam com muitos “amigos virtuais” que comungam do mesmo pensamento. Assim, quando se deparam com um “diferente”, atacam como se a força da “pseudomaioria” os colocasse em situação privilegiada. Isso vale para todo posicionamento extremado que, infelizmente, tem tomado as redes sociais, fomentando amor ou ódio e aniquilando a reflexão. Não se pensa mais. A questão agora é “torcer”.

O “aconchego virtual” propiciado pelos algoritmos tem acentuado a falsa impressão que motiva as ideias contidas neste texto. As discussões entre pares têm a profundidade de um pires e o recorte da realidade parece querer imprimir a vastidão de uma floresta a um pequeno jardim.

Esse contexto concomitantemente ingênuo e burro tem tornado a presença nas redes sociais um exercício de paciência e de constatação da mediocridade de boa parte da sociedade humana. O aparente apoio tem gerado opiniões ainda menos refletidas ou ainda mais irrefletidas.

É claro que o clima está afetado pela atmosfera eleitoral de 2018. Há bastante chance de os resultados das urnas demonstrarem o fato de as redes sociais serem apenas um recorte da realidade. Quem vive a rede social como um retrato fidedigno da sociedade real será em breve lembrado da existência de um mundo que não é movido por compartilhamentos e curtidas.

Pobre daquele que não consegue compreender a realidade que está além das redes sociais. A certeza que move certos usuários demonstra quão raso é o conhecimento que os rege. O modo popularesco como alguns se pronunciam apenas atesta a ausência de noção acerca do pluralismo social que os algoritmos das redes sociais buscam aniquilar. O conforto dos usuários é a principal forma de as redes sociais se capitalizarem. O mundo que nelas encontramos não é o mesmo com o qual nos deparamos ao frequentarmos os espaços públicos. Sendo assim, cuidado com as “falsas impressões”.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), da Faculdade de Direito do IDP São Paulo, da Faculdade de Direito da Universidade Paulista e de programas de pós-graduação em instituições de ensino superior, Doutor e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Diretor do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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