Eleição presidencial 2018: a gente avança ou tenta a vingança?

7 X 1O caminho que percorremos desde o pleito presidencial de 2014 agravou a atmosfera polarizada na qual já nos encontrávamos. Os ânimos chegaram a patamares extremos e parecem ter atingido seu auge neste período que antecede o pleito de 07 de outubro de 2018. As escolhas político-eleitorais não podem ignorar a urgência de acalmar o Brasil.

Tivemos oportunidade de escrever diversos textos neste blog, nos quais alertamos sobre esse acirramento. As redes sociais funcionaram e prosseguem funcionando como um dos possíveis termômetros desse fla X flu político. Nelas é possível constatar trocas de mensagens de ódio que caracterizam os lados dessa guerra de ofensas em busca de likese compartilhamentos.

Mais do que considerar o presente, porém, avaliamos com muita preocupação o que isso tudo sinaliza quanto ao futuro. A prisão de Lula e três recentes e violentos episódios serviram para aprofundar ainda mais esse cenário. Foram eles: o assassinato da vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro; os tiros contra a caravana do ex-presidente Lula; e, na última semana, a facada no deputado Jair Bolsonaro.

Para quem avalia com mínima isenção tudo que tem acontecido, resta evidente que o Brasil está envolvido em nuvem de ódio e de intolerância. O comportamento dos dois extremos tem colaborado significativamente para isso. Lideranças políticas jamais deveriam estimular essa espécie de sentimento na população, especialmente quando tratamos de lideranças que pretendem chegar à Presidência da República. O presidente governa para todos, sendo enorme irresponsabilidade destilar ódio contra qualquer brasileiro.

A impressão é que a eleição presidencial de 2018 está tomada por um sentimento de vingança. O pleito, entretanto, deve ser visto como uma oportunidade para avançarmos como sociedade e não para retrocedermos em termos de civilidade. A vingança, independentemente do rumo que tomar, dar-se-á em prejuízo do interesse público. É triste e não há como ser correta a ação movida por essa espécie de sentimento destrutivo. O delineamento de dois extremos caricaturais da política brasileira, que ousadamente pretendem representar esquerda e direita, descortina o sentimento de ódio que nada trará de bom ao país.

Impõe-se registrar que alguns eleitores se comportam de maneira absolutamente alheia àquela esperada para a escolha do novo presidente da República. Ao invés de avaliarem as propostas de campanha e a competência dos candidatos, brasileiros têm optado por critérios que buscam aniquilar o lado oposto (é bom para mim o que for ruim para o outro!).

O estado de ódio estimulado ao longo da última década transformou alguns cidadãos em torcedores. Pouco importa o que o candidato pretende. Relevante é a respostaque representa sua vitória a determinados setores da sociedade, mesmo que isso possa afundar ainda mais o Brasil nesse oceano de ódio que nada constrói, atrelado à ausência de agenda efetiva e de capacidade administrativa.

Muitos tentam defender suas escolhas com base na ideia do voto de protestocontra tudo e contra todos. Poucos notam, porém, que se o voto de protesto já é questionável quando envolve a escolha de parlamentares, ele se torna inconcebível quando estamos diante de uma eleição em que buscamos escolher o próximo presidente da República.

Nesse ponto, lembramos quantas vezes compartilhamos nossa preocupação com a chamada demonização da política. A sede por condenar políticos corruptos acabou cultivando a ideia de que não existe sentido na política. Ao invés de nos limitarmos a condenar pessoas criminosas, condenamos a política como método de organização social. Os extremos atuam de maneira pouco democrática e bastante semelhante. São como torcedores ou gladiadores. Não há espaço para a tolerância ou para o debate.

Ainda que muitos acreditem que nada do que está aí presta, a verdade é que a política como modo de condução da sociedade, especialmente numa realidade democrática, é o caminho menos traumático para aprimorarmos nosso presente. Pensar que tudo será mudado pela eleição de um representante divino naterra brasilisé patético.

Comparecer às urnas com a intenção de vingar-se da classe política é exterminar o futuro da Nação. Infelizmente, por desespero, por ódio, por ingenuidade ou por ignorância, boa parte da população brasileira irá às urnas com esse sentimento. Enquanto isso, o famigerado populismo prossegue firme e forte, atraindo aqueles que buscam uma espécie de messias. Diferentemente de períodos anteriores, agora também é possível encontrá-lo no extremo oposto. Afinal, esquerda e direita oferecem símbolos do paternalismo, ainda que ambos os lados prossigam negando algo tão evidente.

Devemos contribuir com o debate, a fim de que os que ainda não tenham sido tomados por essa cegueira deliberadaconsigam compreender que urna não é local para vingança, mas sim para avanço e esperança. Não damos o trocona urna. Aderimos ou não a determinados projetos, apostando no avanço social. Negar a política ou imaginar que nos vingaremos dela é sintoma de profunda imaturidade.

Precisamos escolher alguém que não se paute pela divisão que nos jogou nessa realidade perigosa. Além disso, numa eleição tão pulverizada (com mais de uma dezena de candidatos), o voto útil se revela como importante estratégia já no 1º turno. Não podemos ficar indiferentes a uma possível disputa, no 2º turno, entre bravateiros aproveitadores. Isto é, de políticos que surfam a onda do ódioque aniquila a união nacional. É impensável que, querendo mudar tudo, deixemos as coisas como se encontram ou sejamos capazes de escolher quem ainda pode piorá-las.

Luiz Fernando de Camargo Prudente do Amaral, Advogado, Professor da Faculdade de Direito da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), da Faculdade de Direito do IDP São Paulo, da Faculdade de Direito da Universidade Paulista e de programas de pós-graduação em instituições de ensino superior, Doutor e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Direito Público pela Escola Paulista da Magistratura, Especialista em Direito Penal Econômico e Europeu pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra-Portugal, Diretor do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), Presidente da Comissão de Direito Econômico da 93ª Subseção da OAB/SP – Pinheiros, mantenedor do site http://www.cidadaniadireitoejustica.wordpress.com.

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